GraMÁtica

por Monique Burigo Marin às 2:09 PM 3 comentários
- Você não se sente mal?
- Por quê?
- Por me olhar assim.
- Assim como?
- Assim... Como se eu estivesse dentro de você tanto quanto você está dentro de mim.
- Você está!
- Tanto quanto você?
- Não, mais.


*A vírgula, para nós, foi tão longa que sumiu.


Monique Burigo Marin

Cisco

por Monique Burigo Marin às 7:00 PM 2 comentários

   Meu sonho é poder olhar teus olhos sem me enxergar. Salvar meu reflexo, enquanto algo em mim ainda tem salvação. Deixar teus olhos vazios como nunca estiveram, para depois preencher com as lágrimas da minha partida. Mas como? Se a minha chegada nunca foi sentida?
   Quero olhar teus olhos e dar de cara com um muro opaco e intransponível. Quero, depois, tirar você de mim como quem tira um cisco. Sem medo de perder a visão. 
   Você nunca se enxergou em mim, embora sempre tenha estado aqui. Mais visível do que deveria.


* Alguém aí poderia assoprar?
Monique Burigo Marin

Teimosia

por Monique Burigo Marin às 2:24 PM 4 comentários

Imagem: Monique Burigo Marin e Wiliam Koester

   Não quero dormir, nem conversar. Só quero ficar aqui, quieta, no meu lado da cama, lembrando de que já foi simples sentir a felicidade percorrer meu corpo com seus dedos leves.  Era só acreditar, e acreditar também era simples. Acredita?
   Ainda me lembro das estratégias da infância. Ao deitar, levava para a cama minha redoma invisível e impenetrável. Protegida por ela, eu deixava as pálpebras esconderem o mundo exterior. Ora, já tinha vivido nele o dia todo, queria agora aproveitar as delícias do meu mundo inventado. Sem interrupções.
   A felicidade morava do lado de dentro, facilitava a construção dos sonhos. E se algum pensamento ruim chegasse para ameaçar, sorvete de flocos consertava tudo. Espantava até o calor das noites de verão.
   Às vezes minha redoma me levava para passear, adquiria forma de robô e caminhava leve pelos campos. Nas minhas fantasias, tudo levitava. Foi num desses passeios que ultrapassei meus limites, quis tornar o mundo imaginário tangível e pulei para fora da redoma. Então, o robô oxidou e eu fiquei presa do lado de fora. Hoje estou nua. Sobrevivo. Indefinidamente. Não tenho talento e nem vocação para o perigo, mas sou teimosa, e insisto.

Monique Burigo Marin

Vermelho Morto

por Monique Burigo Marin às 4:21 PM 2 comentários

 Imagem: Monique Burigo Marin

  Noite passada eu tive o pior pesadelo do ano: Eu não era eu e não ser eu me consumia.
  As pontas dos meus cabelos formavam cachos perfeitamente loiros. Vestia branco e era difícil distinguir tecido e pele. Eu era frágil. Porcelana.
  A casa, onde meu corpo caído estava, era clara. Tons de branco em toda parte. Elegância e delicadeza. Meu corpo no chão em pose de bailarina. Olhos abertos e frios deixavam entrar qualquer um que desejasse. Coloração abstrata.
  De repente, o líquido escarlate me fugiu dos lábios, espalhando seu cheiro fétido pelos cômodos. Impregnando as cortinas, os tapetes, os lençóis. Tingindo a pureza com sua agonia.  Perfurando a alma. Eternamente.
  Minha transformação estava concluída. A natureza humana não era mais que os cacos com os quais tentei golpear a fera – sem perceber que os cacos era eu. Sei que, no fundo, errei propositalmente. Eu também quis provar teu sangue e teus riscos.

Monique Burigo Marin

Vestígio

por Monique Burigo Marin às 10:35 PM 3 comentários
Imagem: Brian M. Viveros <3

Meu indicador tem uma nova cicatriz em espiral, por tua causa. É que acompanhei as formas disformes do teu cabelo e acabei ferida. Atravessei tua armadura sem dificuldades e estou começando a compreender o porquê: Ela foi vestida do avesso.

Eu que gosto de inventar, inventei palavras para a nossa linguagem averbal, mas nem mesmo o meu vocabulário inventado foi o bastante para preencher tanto silêncio. Desculpe se te observo com estas mãos que nada esquecem. É meu jeito de tentar te entender. Acho que até senti teu grito passar pelos poros e veias. Fique ao meu lado.

Tua cicatriz sem história não me deixa partir, nem ficar, nem dormir. Há uma promessa não feita que estou devendo.  Dissolve-se enquanto o tempo corre. Enquanto o tempo corre. O tempo corre... Corre! Antes que tuas pernas esqueçam como era andar antes de mim.


Monique Burigo Marin

Elemental

por Monique Burigo Marin às 8:41 PM 3 comentários

  Imagem: Marcela Bolívar

  Já não sei como mergulhar nos teus olhos. Temo derramar o meu cloro na tua água cristalina. Represei tua beleza durante muito tempo, mas agora, estás livre para escorregar em cachoeiras. As pedras são tua acolhida.
  O lençol freático com o qual construímos nosso lar ameaça cair. Se acontecer, nossa lanterna queima, os desenhos feitos de sombras vão embora ou aprendem a nadar.
  Você é água; eu sou terra e avisei: não adianta tentar semear em terra seca. Sem você, nada mais cresce em mim.

Monique Burigo Marin

SOBRE JUJUBAS E ELEFANTES MURCHOS

por Monique Burigo Marin às 12:20 PM 2 comentários

Texto e desenho retirados do blog Oitocentos Gritos Mudos, autoria do gritador Dan Arsky, cujas palavras povoam meus pensamentos constantemente. 



Uma colega de caneta, dessas que a gente não conhece pessoalmente, mas já leu uma verdadeira antologia de produções da pessoa, sempre soltava sua máxima: "Jujubas e Elefantes Murchos".
Ora, diabos, se estes elefantes estão murchos, por que não comem as jujubas?
Na verdade, eles comiam, mas as jujubas eram pedriscos e aqueles paquidermes eram daltônicos.

- Hey, Sr. Elefôncio! Estas jujubas são pedras, não está vendo?
- Para mim são jujubas, e muito saborosas!
- São pedras, sua besta! Veja!

Foi aí que o elefante murcho secou de vez. A epifania forçada lhe fez mal. A verdade doía como agulhas debaixo da unha.
Mas num dia de seca, olhou para as pedras e sorrindo as alcançou com a tromba.
O velho ranzinza, aquele epifanista magro e nojento, já gritou de longe:

- E falam da memória do elefante! Já te disse que são pedras! Pedras!
- Não são, são jujubas! - e seguiu comendo. E ainda de boca cheia complementou para o velho:
- Você que sempre viu errado.

E o velho colocou umas pedras na boca e mastigando, perdendo dentes disse:

- E não é que são jujubas mesmo!?

Clara.mente

por Monique Burigo Marin às 1:53 PM 3 comentários

Imagem: Kmye-chan 

  Amo teu lado obscuro de um jeito insensato. Quero conhecer o teu mundo do lado de dentro. Não temo tuas cordas ameaçando meu corpo. Há tempos fugi do teatro de marionetes.
  Não há por que vasculhar minha mente, meus olhos denunciam antes e mais claramente. Há uma porção de coisas sem explicação que vou varrendo para debaixo do meu próprio chão. O subterrâneo ficará pequeno para tanta falta.
 Despida de toda e qualquer armadura, entregue aos perigos do desconhecido, sozinha tentando tapar o sol com dedos pequenos. No final, quem morre sou eu.
  Enquanto isso, quero repousar no teu pensamento. Até entender esse medo de te perder para o passado, e de me perder entre as tuas lembranças até desaparecer.


Monique Burigo Marin

Mimetismo

por Monique Burigo Marin às 11:18 AM 4 comentários
Fotografia: MBM

  Tijolo é uma palavra feia. Estou rodeada delas neste lugar. Forram as paredes como ataduras. Firmes. Escondem a fragilidade do outro lado. Ninguém vê.
  Eu sou ninguém e me sento nesta cadeira que range a qualquer mínimo movimento. Tento brincar de estátua, fingir de morto, descansar os olhos. Aos quarenta anos ainda tento. Eu, que nunca consegui.
  Talvez eu deva abandonar os tijolos... Pois há dias sinto o coração solidificar, tentando a todo custo camuflar-se. Pulo a janela do segundo andar.
  As poças d’água são novos objetos de reflexão, literalmente falando. O rosto líquido e inexpressivo me encara sem entender. A poça vira onda e me engole. Inunda os cômodos. Desconstrói tudo que construí.

Monique Burigo Marin

Luzes da Cidade

por Monique Burigo Marin às 4:21 PM 14 comentários
Fotografia: Joanna

  Há um lugar aonde vou depois que o sol puxa o cobertor fresco de estrelas. De lá posso ver as luzes da cidade, que não são menos interessantes do que as luzes do céu. São apenas manias inocentes e incuráveis. Tente entender.
  É que sei que as luzes da cidade iluminam seu caminhar na volta para casa. Quando já estás cansado de todas as luzes do mundo e só o que precisas é deitar logo a cabeça na cama cheia de travesseiros.
  Então eu venho até aqui, apoio a cabeça nas mãos e procuro por você no meio dessa confusão. Aliás, hoje procurei por você o dia todo na rosa que guardei entre as páginas de algum livro meu. Ela não estava lá. Você não estava lá.
 Sinto saudades das suas manias de organizar do seu jeito a minha organização e acabar bagunçando tudo, sem intenção. Sinto falta da sua falta de cuidados com as coisas e do seu excesso de zelo para comigo. Sinto, às vezes, que estamos os dois em lados opostos do globo; e você está bem aqui, ao meu lado. Sinto saudades até dos seus batimentos cardíacos que sempre me deprimiam. Eles nunca deveriam parar.
  Então a cidade apaga. Abandona-me. Deixo minha luz acesa que é para não me perder também. Depois faço meu casulo com o edredom e cubro até a cabeça, pois quando tudo fica deserto assim, temo que os vazios preencham o mundo.

Monique Burigo Marin

Cacos

por Monique Burigo Marin às 5:44 AM 4 comentários
  Você tirou a toalha da mesa antes dos pratos. Tudo está caindo em câmera lenta desde às três e quarenta e oito da manhã. De ontem.

Monique Burigo Marin

Monocromático

por Monique Burigo Marin às 4:08 PM 10 comentários
  Ilustração: Beatriz 

  Tenho mania de inverter a ordem das coisas e sei que o teu sorriso em branco e preto jamais voltará a ter as cores que eu enxerguei. Você é meu ciclo. Minha inércia. Minha agonia. Você é a parte de mim que ainda amo. E está em tudo.
  Você está nas rugas que surgem a cada dia e na profundidade das olheiras que emolduram meus olhos. Está no desenho abstrato que eu fiz na janela embaçada do carro e também na luz que vem na contramão. Está na primeira estrela que imaginei nascendo no céu da minha boca e no pedido que ela recebe. Principalmente no pedido.
  Você está nestas palavras que sussurro, de olhos fechados, no meio da madrugada. É que quero que você acorde, mas você está hibernando há quilômetros de distância e não há nada que eu possa fazer. Mesmo assim, deixo um bilhete para quando você acordar. Se você acordar para mim algum dia.
  Só não quero mais passar as noites procurando pelas tuas mãos embaixo do meu travesseiro. Não enquanto elas não estiverem lá. Não enquanto você não quiser que elas estejam. Não enquanto você ignorar o quanto eu quero.
   Mas não importa. Foge do meu controle. Já estou amando tuas novas cores.

Monique Burigo Marin

Hipoglicemia

por Monique Burigo Marin às 5:20 PM 7 comentários

  Eu fui quebrando as portas como se quebrasse medos. Mas no fim das contas, só estava quebrando os ossos. E me diziam para ficar calma, e me diziam para estender o braço, e me pediam para não chorar. Quando eu desse por mim estaria feito.
  Todos diziam que eu não sentiria, sem saber que era esse meu medo maior. Só fiquei tranquila quando vi aqueles olhos. Olhos negros, quem diria. Tão bondosos. Usando agulhas para espantar meus medos. Mas não importava o quão fundo entrassem em minha carne, novas portas cresciam mais fortes. Mais altas. Mais intransponíveis. E eu ia percebendo que estava atravessando sozinha por dentro dos meus medos, guiada por uma loira sem sal.
  Enquanto eu pensava, ressentida, na ilusão da beleza interior, aqueles olhos iam ficando distantes... Mas ainda vigiavam minha consciência. Tiravam minha roupa, monitoravam meus batimentos, diziam que os pesadelos não poderiam me perturbar. Então, quando as luzes pararam sobre o meu corpo, já não me importava.  Eu estava entregue à minha última torta de brigadeiro preto com morangos. Sentindo a glicose correndo pelas veias. Até não sentir mais.

Monique Burigo Marin

3 Anos!

por Monique Burigo Marin às 1:23 PM 1 comentários
Hoje o blog completa três anos, abandoná-lo não faz parte dos planos. Escrever me ajuda a construir quem quero ser. E se me desconstruo, desabo, não volto mais. Colocar nestas linhas, abrir aspas e parentes para quem quiser ler, expande meus horizontes. Muito obrigada, leitores! Digo e repito: sem vocês, nada seria tão doce.

Monique Burigo Marin

Cedo

por Monique Burigo Marin às 8:41 PM 4 comentários

Queria que você pudesse ver os lugares por aonde tenho andado. Tão cheios de cores. Tão cheios de sol. Tão diferentes de mim. Ainda.
Não vai demorar muito. Aprendi com as reticências a me deixar levar. Se tropeço em pés sem corpos é por pura distração. É que ainda estou tateando no escuro pela parte de você que me cabe. Mesmo depois da vírgula que dorme com a gente embaixo das cobertas.
Nesta vida, em que toda fantasia é metade, meus sonhos despertam comigo todas as manhãs. Desculpe-me se é cedo demais para os sonhadores.

Monique Burigo Marin

Colheita

por Monique Burigo Marin às 11:25 PM 3 comentários

  Ela tinha cabelo castanho curto e cacheado e estendeu a mão aberta para mim. Eu olhei sem entender o que dizia aquela pequena jujuba cor-de-rosa. Todos aguardavam ansiosos. Então eu cometi o maior erro da minha vida.
  Se agora a pele dos outros derrete e os olhos caem, a culpa é minha. Se crianças estão saltando da janela em direção à piscina de bolinhas, a culpa é minha. Se o riso que escuto é falso e não há água no mundo capaz de lavar o veneno em seus lábios, eu sei que o doce é assassino e está entrando mais rápido nos corações do que eu saio.
  Aqui o sangue é rosa e me faz escorregar pelas escadas enquanto tento grudar agulhas de costura no corrimão. Todos precisam de remendo. Todos menos eu. Eu corri o mais rápido que pude para fora do buraco na maçã, mas permaneci estática. Foi assim que entendi: a semente de todo o mal sou eu.

Monique Burigo Marin

CFA

por Monique Burigo Marin às 3:10 PM 9 comentários

   Antes de dormir, sei que tu estás sentado perto de mim, ouvindo o monólogo que acabei de inventar. Sinto o cheiro do café que está em tuas mãos e prevejo um borrão na palavra mais bonita do texto. A luz fraca do abajur lança tua sombra sobre mim e ela me aquece. Ah, como adoro as noites de inverno na tua companhia!
   Tu estás vivo em mim e tens juventude eterna. Não que eu não goste das rugas marcando tuas mãos habilidosas, é só que não te vejo preso nos limites do tempo. É que te quero livre e por perto. É que tenho medo de me empolgar demais e ler todas as páginas de uma só vez.
   Imagino teu riso modesto e teus olhos bondosos. Teu corpo coberto por roupas sutilmente amassadas, do tempo em que era moda usar a calça na altura do umbigo, por isso as tuas ficam onde bem entenderem. Mas, eu sei que o suspensório caído é displicência forjada, pois já te vi organizar até os cigarros. Nem você é perfeito.
   Ainda não estou preparada para conhecer tua verdadeira forma. Prefiro rir da tua mania de não querer o que é necessário. E te escrever como quem escreve para si. E endireitar teus óculos tortos e mandar as vírgulas passearem junto com as colocações pronominais. Prefiro sentir tua presença amenizar o meu medo de fechar os olhos. Só mais cinco minutinhos.

Monique Burigo Marin

Açúcar Invertido

por Monique Burigo Marin às 9:23 PM 6 comentários
Ilustração: Vania Zouravliov

Há, no seu jeito de querer o meu sangue, e querer a minha paz, e querer a minha dor; algo de doce. Há, no silêncio do seu riso um som que perfura meus tímpanos, e perfura minhas veias, e consome minha alegria. Algo que no último instante me faria implorar pela morte, pois a eternidade seria pior.

* Há, nesse ódio recíproco, algo de amor. 




Monique Burigo Marin

Oculto

por Monique Burigo Marin às 7:57 PM 5 comentários
                                                                                               Ilustração: Camilla Derrico


Sentei aqui para escrever, mas minhas mãos já não se movem. Tenho a mente vazia de inspirações. Já não psicografo minhas próprias mensagens ocultas. Já não entendo nada. E nada; é tudo. Vazio. Cru. Interminável.
Há uma linha tênue e invisível prendendo meus punhos à cama. Não consigo levantar. Os olhos não abrem. A paisagem é nuvem cinza de tempestade violenta. Formigueiro de sentimentos consumindo o açúcar do algodão que já não é doce e está sujo demais para limpar feridas. Os remédios estão sempre na cabeceira, não há outra maneira de sobreviver.
É que quando as palavras calam surge em mim uma vontade louca de chorar. Chorar os pensamentos fugidios que sei que estão em algum lugar onde não alcanço. Talvez passem por mim acelerados sem que eu possa capturá-los, pois meus movimentos são lentos, fruto da vida sedentária que venho levando.
Só me saem essas lágrimas secas e invisíveis. O que guardo é mais salgado. Mais profundo. Mais doloroso. O que guardo já não quero guardar, mas não tem jeito. O que guardo sou eu protegida por uma cápsula de gelatina bamba em cima de uma mesa torta.


Monique Burigo Marin

.

por Monique Burigo Marin às 10:58 PM 10 comentários
                                                                              Ilustração: Viet-My Bui 

Dia desses, vi teu sorriso sorrir pra mim olhando em outra direção.
Eu estou aqui.
Estou aqui.
Aqui.
.


* Minha presença é tão ausência que em você sobrou apenas um ponto final.


Monique Burigo Marin

De tanto sentir.

por Monique Burigo Marin às 5:11 PM 7 comentários
                                                                                                                 Ilustração: Gure

 Quando eu morrer, desejo estar errada, abrir os olhos fora de mim e receber o abraço aconchegante de uma boa alma. Quero sentir a textura das nuvens sobre os pés, reencontrar pessoas queridas pelas quais meus olhos derramaram pesadas gotas de saudade. Dizer as coisas não ditas que pensei nunca mais poder dizer.
 E até nessa de acreditar em vidas passadas – e principalmente em futuras – eu entrei. Já não consigo explicar de outra maneira essa ligação tão dolorosamente permanente. Quando eu morrer, quero não querer voltar a um mundo sem água e sem amor nem por você.
 Quero morar em uma humilde casa, feita dos tijolos que ergui com minhas bondades terrenas. Não precisar trancar as portas e poder admirar, através da janela aberta, as estrelas que passeiam na rua. Acabar me apaixonando por algum desses seres notívagos ou por todos eles.
 Quero finalmente escutar ao vivo os ídolos que morreram antes de mim, ainda que isso soe irônico. Ainda que a minha nuvem seja a mais turbulenta e distante.
 Quando eu morrer, quero sentir nascer um par de asas furadas. Aprender a voar apesar de tudo. Aprender a cair apesar de tudo.
 Quero ser útil a alguém, fazer enxergar quem não pôde admirar as belezas de um mundo imperfeito.
 Quando eu morrer, não quero lágrimas. Quero só a dorzinha boa de quem, em algum momento, sorriu por mim. Quando eu morrer, digam que sinto muito e de tanto sentir meu coração parou.

Monique Burigo Marin


Acordada

por Monique Burigo Marin às 1:49 PM 5 comentários
                                                                     Ilustração: Candice Madsen
 Eu cresci enquanto você sumia. Ainda penso em você sem pensar...
 Será que deixou a barba crescer e fez trancinhas coloridas? Será que correu pelado na universidade e já casou com uma designer ou com uma jornalista ou... Por amor?  Talvez tenha um carro antigo na garagem e já tenha parado de desenhar tragédias em todo lugar.
 Será que ainda anda como quem se recupera de uma queda feia? Será que ainda fica feio de azul? Será, meu Deus, que ainda é ateu?
 Dia desses assisti aquele filme sobre você e eu, desejei que tivesse me presenteado com uma máquina de voltar no tempo também. Será que do jeito que o tempo passa rápida aquele pelo branco na sua sobrancelha já se multiplicou?
 Será que eu, algum dia, terei respostas para o enigma que é você?

Monique Burigo Marin

Um Pouco de Liberdade

por Monique Burigo Marin às 12:26 PM 1 comentários

Inanição

por Monique Burigo Marin às 7:26 PM 5 comentários
IlustraçãoGina Wetzel

Mas ainda dói pensar no teu sorriso, cujas fases eu conheço de cor, esperando ansiosamente por outro  alguém. Vestido branco. Nesse momento sei que escutarei a marcha fúnebre. Sei que vou chorar as lágrimas que segurei por todos esses anos. Sei que cada passo ao teu encontro será sentido no meu coração.
Essa morte lenta e dolorosa não será esquecida. Começou discreta, um leve incomodo no estômago. Imagens distorcidas. Evoluiu para uma bulimia nojenta e incurável. A verdade nua e crua é essa: O nosso amor morreu de inanição.
Eu queria poder te vomitar inteiro, mesmo, da cabeça aos pés. Para que não me sobre nenhum vestígio teu que te faça ressurgir como um câncer maligno.


Monique Burigo Marin

Elefantes

por Monique Burigo Marin às 7:45 PM 7 comentários
                                                                Imagem: Salvador Dalí
Às vezes apertam o nó em volta do pescoço forte demais. Sufoco, agonizo, não consigo gritar: é horrível. Nesses momentos, só os elefantes conseguem entender. Eles estendem suas trombas como símbolo de compaixão. Eu nada faço. Nada posso. Nada sou.
Há mais um deles no bando, quase invisível por detrás das enormes patas protetoras. Estou triste, é um novo escravo das dores que não suporto só.
Quando desperto, eles murcham tanto quanto eu. Preciso libertá-los, mas viver sonhando não é permitido e, só assim posso vê-los sujar os corpos de lama medicinal e jogar jogos da memória ao redor do toco de madeira de uma árvore centenária, acidentalmente sacrificada por um raio bêbado. Não se fazem mais tempestades como antigamente.
Só esses elefantes podem pular. Construí uma cama elástica do tamanho da minha casa, só para eles. Não arrisco meus pulos, sei que não vale a pena. Se ao menos a dor fosse sempre tão fácil de diagnosticar...

Monique Burigo Marin

Formiga

por Monique Burigo Marin às 11:52 PM 4 comentários
Devolvam a minha inocência porque já não suporto saber que alguns sonhos são irrealizáveis. E já não suporto esse ceticismo e essa armadura que eu vesti. Pesa muito, estou cansada. Queria ser formiga, carregar nas costas um mundo de soluções, mas estou presa à minha natureza humana: tão frágil.

Monique Burigo Marin

Culpada

por Monique Burigo Marin às 1:37 PM 6 comentários
                                                                 Imagem: Esao Andrews
Eu corria pela rua e no meio dessa corrida percebi que corria ao seu encontro.
Estou tão agitada e angustiada. Já bebi dois copos de suco de maracujá, e nada. Quando o corpo cai na cama, ligo a TV no canal do polishop. Ouvir a consciência é muito pior.
Se busco inspiração em qualquer olhar, em qualquer riso, em qualquer coração partido. Que culpa tenho eu?

Monique Burigo Marin

Fantasias Tamanho GG

por Monique Burigo Marin às 9:19 PM 7 comentários
                                                                   Imagem: Eu, no carnaval.

No carnaval,quando eu era criança, gostavam de me fantasiar de palhaça. Pintavam no meu rosto olhares estelares, bochechas rosadas e um sorriso. A roupa que eu vestia pinicava, era uma mistura de vermelho, branco, amarelo e verde. Muito brilho, muita cor, muita graça.
Eu tinha duas mãozinhas assassinas que faziam pequenos furos na roupa, misturavam a maquiagem em meu rosto e me faziam parecer o Curinga do Batman, após ter derretido em um dia de sol.
Ao chegar no local em que seria a celebração, os adultos diziam que eu estava uma gracinha e apertavam minhas bochechas, as crianças riam de mim – e não é para isso que servem os palhaços? – e o som do meu riso se misturava ao som do riso delas. Eu era feliz e não sabia. Agora, eu sei.
A música tocava e o batuque fazia nossos corações vibrarem como um só.
Minha melhor amiga era uma melancia, meu irmão um índio canibal, e eu uma palhaça desfigurada de uma piada só. Mas, todos falávamos a mesma língua e éramos iguais em nossa essência.
No fim da festa confetes e serpentinas caíam feito neve sobre nós, era chegada a hora de dizer adeus e então dizer olá para a alegria infindável. A vida era o melhor dos carnavais.
Hoje, meus sapatos de palhaça apertaram os dedos dos pés, e todas as fantasias estão pequenas demais para mim. 

* Escrito em 2008, para a aula de redação.
* Agora também escrevo aqui, onde deixei outro ponto de vista sobre o carnaval. Todos serão muito bem vindos!

Monique Burigo Marin

Superfície

por Monique Burigo Marin às 6:19 PM 6 comentários
Imagem: Brian M Viveros
Nunca estive tão à flor da pele. Um cisco no olho é uma manada de elefantes. Se bebo não paro até que o bar feche. Fui cortar os cabelos e voltei careca.
Ao tentar correr atrás de mim acabo fugindo. E se paro apenas alguns instantes para descansar, as cadeiras vazias ao meu redor ganham vida e sobem pelas paredes.
Estranhos vêm e vão tão apressados quanto eu, mal vejo seus rostos ainda marcados pelo travesseiro. A noite foi difícil, a manhã será pior.
Somos sonâmbulos ludibriados pelo realismo dos nossos sonhos. Quando acordarmos, se é que um dia acordaremos, essas lembranças não serão mais do que fragmentos perdidos.

* Amanda, por favor, controle seus instintos. Pare de tentar desmascarar as mentiras, não há rosto por detrás dessas máscaras.

Monique Burigo Marin

Entre o Caramelo e o Sal

por Monique Burigo Marin às 10:50 PM 7 comentários
                                                                                           Ilustração: Wang Chung Ru

Há muito céu nesse chão que eu piso. Leveza demais nesse caminhar. Sei que a qualquer momento um buraco abrirá sobre os meus pés.
Uma voz diz: Isabel, não tenha medo. Mas eu tenho medo, Dona Voz. Tudo o que tenho é um paraquedas de sacola plástica. E a voz insiste: Prove que ainda sabe voar! Mesmo que artificialmente. Mesmo que isso te quebre os dentes. Tudo tem um preço. Até a doçura que te faz sorrir é industrializada e falsa.
Todos os dias, enquanto penso no que fazer para o almoço, escuto a voz cantarolar:
Seus dias na cozinha são o seu empreendimento,
Creme do céu dura só por um momento,
Bolinho de chuva ela não erra, não.
Essa menina está sempre na contramão...
Confunde tempestade com as chuvas de verão!
Só pode estar sob algum encantamento,
Sua cabeça anda igual pastel de vento.
Isabel, quando crescer, descobrirá o seu talento
Nasceu para ser a garota do tempo!
Tento fazer com a que a voz desapareça. Já quebrei os dentes e a cara. Quero ser cineasta. E entre o caramelo e o sal, eu estou sentada, comendo pipocas de uma em uma. É que gosto dos prazeres lentos, degusto aos poucos, torcendo para que nunca acabe.


Monique Burigo Marin

Antes que Derreta.

por Monique Burigo Marin às 3:47 PM 8 comentários

Não quero ser uma das flores que se abrem no teu jardim em dias de primavera; quero surpreender em uma manhã fria de inverno. Sei que nessas manhãs minha existência trará um sorriso ao teu rosto, como se caíssem flocos de neve sabor sorvete do céu.
Nesse tempo frio quero ser quem aquece os teus dedos e o teu coração.

* Para fugir desse calor, vale tudo.

Monique Burigo Marin


Pedra, Papel e Tesoura.

por Monique Burigo Marin às 4:48 AM 8 comentários
Imagem: Elsa Mora


Sei que você não sabe e nem quer saber quantas vezes desejei encontrar-te no meio das suas reflexões. Eu ficaria quieta, invisível, observando de longe para não atrapalhar. Prometo.
Eu queria tanto conhecer o seu sorriso e presenciar os seus momentos de inspiração e abrir as janelas da casa para libertar a fumaça dos cigarros que eu jogaria fora. Eu queria até aturar a sua fúria e aprender a tolerar os seus vícios que um dia vão acabar matando você.
Eu queria, mais do que tudo, poder salvá-lo. Mas não tenho forças nem para fazer curativos nos joelhos que eu ralei. Eu não vou me curar. Nem você. A gente vai acabar morrendo de overdose e ninguém nunca mais duvidará da nossa química.
Eu tenho medo das suas histórias e frases e palavras, de cada sílaba. Veio para atormentar-me a vida, preenchendo a minha insônia com sua presença. Talvez algum dia, alguém encontre os nossos manuscritos espalhados pela casa abandonada e queira nos ressuscitar.
Eu preciso, urgentemente, recuperar a segurança dos meus vazios e manhãs mal humoradas. Trazer de volta a sanidade dos meus sentimentos.
É tudo em vão, meu amor. Mas no vão das coisas cotidianas eu sei que nos preencheríamos. E que a presença do outro seria a certeza de que ainda há algo pra viver.
Minhas mentiras ruins não toleram a verdade: sou objeto do seu verbo, eu nunca soube conjugar. A sua presença é o que me falta agora. É o que me falta sempre. E se o seu sorriso parar de sorrir pra mim, meu bem, eu nem sei.


... Sei que esse amor de papel não durará. Somos como tesouras que tiraram férias.

Monique Burigo Marin

Pixels

por Monique Burigo Marin às 3:43 AM 7 comentários
                                                                 IlustraçãoVanesa Aguilar
Você é tão calada, Karen. Isso me enche de pensamentos malucos que me fazem gostar ainda mais de você.
Eu também gosto do som das ondas quebrando no mar. Faz com que eu pense na insignificância de uma lágrima. Sei que para você as coisas desse mundo não fazem sentido, mas quando vejo o mar, existe algo que diz – e tem a voz do Renato Russo – que a vida continua e se entregar é uma bobagem.
Você é tão cheia de pixels, Karen. Os outros mortais acham estranho eu achar isso atraente. Mas não há alguém de carne e osso mais bonita na face da terra. Eles não vêm isso: sua beleza é tão maior do que seus pixels!

Monique Burigo Marin

Soma

por Monique Burigo Marin às 10:57 PM 7 comentários
Ilustração: Odessa Sawyer
A insônia é concreto tapando o sol que insiste em nascer todas as manhãs. Poupa-me do sofrimento que é adormecer em mãos inimigas. Mas ela é vencida pela fadiga das tardes cheias.  É má perdedora e volta depois que o sol se põe.
A insônia é fria e inaconchegável. Digna de palavras novas que nunca deveriam nascer. É posição impossível de encontrar. Sensação de que se está envelhecendo rápido demais.
A insônia é cheia de silêncios criativos. Inventa monstros nos objetos do quarto. Apresenta amores passados que eu nunca tive. É uma ilusão difícil de abandonar. Faz sangrar os sentimentos bonitos.
A insônia é companhia da solidão, e as duas, sou eu.

Monique Burigo Marin

Dueto

por Monique Burigo Marin às 3:38 PM 4 comentários
Todos os adultos estavam perfeitamente alinhados em suas poltronas, mas um barulho vindo da primeira fileira fazia rasgos no sossego da plateia. Lá estava a garotinha mais feliz do dia a cortar o silencio com risinhos ansiosos. Nunca entenderam, nunca entenderiam: rir era um efeito espontâneo de seu nervosismo.
Em alguns minutos, aquele cara sério e elegante entraria no palco segurando a cartola preta nas mãos. Então, após sentar-se no banco de madeira, tiraria o smoking que faria uma espécie de cortina retangular em torno do banco. Repousaria a cartola na cabeça do piano e começaria a tocar. Para ela, esse era o ritual mais bonito do universo.
Saber que isso aconteceria fazia seus pés balançarem freneticamente. Para frente. Para trás. A pipoca que comprou estava quase no fim: logo começaria a comer os próprios dedos.
Ele tinha um estilo peculiar, um quê de fragilidade que não transparecia na força de seus sentimentos. Nos olhos escuros, um brilho secreto. Segredo dele, segredo dela. Havia magia movimentando a engrenagem, algo de sobrenatural no som que entrava pelos ouvidos e se alojava em seu coração.

* Para ela, ele era uma orquestra inteira. Para ele, ela era a regente.


Monique Burigo Marin

Já que sou, o jeito é ser.

por Monique Burigo Marin às 12:03 AM 8 comentários

Ah, Clarice. Se eu tivesse essas cores suas. Esses seus jeitos e manhas e defeitos. Eu seria talvez plena em minha melancolia partida.
Ah, Clarice. Se eu pudesse descrever desse seu jeito ímpar e verdadeiro os acontecimentos dos mundos. Eu seria talvez, mesmo que infimamente, compreendida.
Clarice, Clarice. Se eu tivesse essas suas dores e essas suas lembranças agridoces. Eu seria talvez, menos contida, menos muda, menos apagada e sem sal.
Você inunda meus olhos de água com uma única vogal, Clarice. Como pode alguém tão profunda estar sempre na superfície, transbordando nos olhos, meu deus!
E eu estou tão longe de você... eu nem me compreendo.

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever."

* O título e a frase final foram respeitosamente emprestados do livro A Hora da Estrela de Clarice Lispector.

Monique Burigo Marin

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por Monique Burigo Marin às 1:34 PM 9 comentários

                               Só faço essa dor doer ainda mais, tento matá-la, mas ela não morre.

                                                                                                                      Monique Burigo Marin

Prisão cadavérica

por Monique Burigo Marin às 1:44 AM 4 comentários
Você era tão amável, Miguel. Enchia meus sonhos de efeitos especiais. Orientava os meus passos no mundo real. Pena que se apaixonou por mim.
Você surgiu na tempestade de areia e folhas. Você era ela. Sempre mantinha distância. Enxergava nos meus olhos tudo o que eu tentava, urgentemente, esconder. Não conseguia.
Não sei como pôde continuar me amando mesmo depois de saber de tudo. De cada pensamento moribundo e sujo que eu trancafiei.

Monique Burigo Marin

Desnaturado

por Monique Burigo Marin às 6:53 PM 6 comentários
Você desnaturou. Grudou no fundo da panela. Evaporou as suas propriedades mais importantes. E esse processo, meu amor, é irreversível.

* Eu sabia, o calor nunca faz bem.

Monique Burigo Marin
 

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