Sorriso

por Monique às 7:07 PM 7 comentários
Ela abriu o álbum de fotografias bem na página onde ele sorria, e imediatamente foi afetada por uma onda de nostalgia e dor. Mas, não perdeu o controle, precisava superar isso. Continuou atenta ao sorriso dele, encarando-o com seriedade, como se isso pudesse murchar sua expressão absurda. No entanto, ele permaneceu impassível. Tentou imitá-lo, mas seu sorriso não sorria como o dele... Sequer sorria.
Se ao menos ela pudesse dar-se ao luxo da incerteza. Não podia, o amava, era certo. Certo? Não, não, não. Era errado.


Monique.

Fim

por Monique às 7:47 PM 10 comentários

Viu tudo fugir de si em um vídeo acelerado. Casa, escola, amigos, diversão. Até as palavras lhe fugiam dos lábios terminando em um grito abafado de socorro...! Ninguém ouviu.
O trem, o trilho, a menina e o resto da vida pela frente. As lembranças correndo e o corpo estático. Lágrimas congeladas na face. A alma clamando por um pouco de paz. Anteciparam seu fim do mundo para 2009.


Monique.

A Roda

por Monique às 4:57 PM 6 comentários

Seu cabelo estava diferente, algo em seu rosto havia mudado também. Arrisco-me a dizer que foram os olhos – eles brilhavam mais que o normal.
Estávamos em algum lugar no centro do infinito, completamente perdidos. E nos encontrávamos um no outro o tempo todo. A superfície terrestre girava. Até que senti tontura e medo, e antes que eu pudesse cair ele me segurou:
- Não se preocupe Isabel, é só a roda viva que é a vida. Feche os olhos e sinta o vento.
Não pensei duas vezes.


Monique.

O Primeiro Vôo

por Monique às 12:46 PM 8 comentários
Você, que carrega pelas ruas esse balão que não tem o ar dos meus pulmões, esse balão que me angustia. Você, que não se cala nem quando está dormindo e gosta de contar histórias para quem quiser – e para quem não quiser – ouvir. Você, que brinca com a comida e bebe a água que cai do céu, que rala os joelhos na estrada e ri da própria dor. Você, que ainda não sentiu dores piores, mostra para mim o seu sorriso de menina que tem as janelas mais vivas que já vi na vida. Você, que ri só de pensar em cócegas e esconde-esconde o próprio esconderijo para ninguém mais encontrá-lo. Você, que está sempre tão presente, não voe para tão longe de mim com seu balão de gás.


Monique.

Pensamento Derretido

por Monique às 6:09 PM 7 comentários
Minha mente adquiriu forma de queijo suíço, os pensamentos derretem e escorrem antes que eu tenha tempo de escrevê-los. Fico desesperada, colocando baldes embaixo de todas as goteiras que encontro. Haja balde para tanto pensamento derretido!

Se ao menos sobrasse algo bom para contar...


Monique.

(Des)encontros

por Monique às 4:13 PM 9 comentários
Andar arrastado, olhos cansados, cabelos descoloridos pelo tempo; foi a primeira imagem que tive do velho homem entrando no metrô onde eu estava. Levantei do meu lugar para que ele sentasse e ofereci-lhe um sorriso tímido e sem graça ao qual ele não correspondeu, apenas sentou-se como quem deposita no banco o peso de mil mundos.
Antes que o metrô partisse, apoiei as mãos no metal frio suspenso no teto, segurei com força para sobreviver à inércia. Tenho vivido para sobreviver. Congelei em meu lugar, tudo o que está parado tende a permanecer assim. No entanto, descongelei com o passar do tempo e de estações. Descongelei porque ficar na mesma posição por muito tempo dói e cansa.
Fechei os olhos e concentrei-me nos sons. Alguém abria o zíper da bolsa, alguém bocejava baixinho, alguém tamborilava com os dedos na superfície lisa de um caderno, e alguém escutava música com fones de ouvido. O som do metrô deslizando ruidosamente pelos trilhos abriu meus olhos, que olharam por debaixo da porta e viram as luzes, surgiam e sumiam. Tudo isso em segundos. Que tipo de pessoa fecha os olhos para acordar?
Com os olhos abertos encontrei primeiro a dona da bolsa, procurava desesperadamente lá dentro por algo que fugia dela. Depois, o garoto entediado que tamborilava os dedos e não iria parar tão cedo. Vi a dona do bocejo apoiar delicadamente a cabeça no ombro do desconhecido que estava ao seu lado. O desconhecido, por sua vez, não pareceu incomodar-se, pelo contrário. Por ultimo e não menos importante, vi o garoto com os fones de ouvido. Pena que a música não estivesse alta o bastante para que eu pudesse, quem sabe, reconhecê-la.
Última estação, hora da despedida. Despedida estranha em que os personagens saíram apressados sem direcionar-me um único breve olhar. Despedida que a gente dá àquilo que só encontra uma vez na vida.

- Ah, se toda despedida fosse simples assim...

Monique.

Insônia

por Monique às 11:31 AM 9 comentários

Como olhos cansados as últimas luzes apagam. A cidade está adormecida. Posso ver e ouvir os sonhos da vizinhança, todos misturados causando confusão. O garotinho do andar de baixo recém puxou as cobertas mais para cima, são elas que fazem peso sobre o corpo para que ele não levite de entusiasmo.
Enquanto todos dormem, eu sussurro ao silêncio tudo o que não ouso dizer para mais ninguém. Ando pela casa no escuro. Meus passos são ecos, não cessam, seguem todas as direções compulsivamente. Gostam especialmente de voltar.
Tentei sonhar acordada e senti meu corpo correr e o vento bater no rosto. Enxerguei um campo repleto de sonhos compactados dentro de garrafas flutuantes de todos os formatos, ergui a rede feito Bob Esponja no campo de águas vivas, e cogitei capturar os sonhos de alguém. Não o fiz. Os sonhos dos outros não fazem sentido quando estão dentro de nós, assim como os nossos não fazem sentido quando estão dentro dos outros. Não somos receptáculos de sonhos.

Monique.

Plenitude

por Monique às 6:17 PM 5 comentários
Ele a chama por inteiro. É como gosta que ela esteja, com todos os pedaços encaixados, com todos os vazios preenchidos, completa. É, curiosamente, como fica quando está com ele, é como gosta de estar.

Monique.

Sobre o Medo

por Monique às 3:07 PM 10 comentários
Eu queria, juro que sim, mas não sei como. Tenho medo de pisar muito forte no telhado e quebrar as telhas. Melhor ficarmos aqui, onde a terra é firme, onde o peso do meu corpo é quase nada. Melhor ficarmos assim, juntos, protegendo um ao outro dos perigos que criamos. Ora, encontrar tomate na lasanha é uma tragédia.
Por favor, não esqueça mais a torneira aberta, um dia você inunda a casa inteira e morre afogado. Para! Não me faz cócegas, você sabe que de tanto rir eu quase morro. E, viver rindo porque não há outra saída é quase morte.
Não me deixe dormir, vai que eu acordo em outro lugar e no meu lado tem alguém que diz bom dia, vai que o bom dia é pra mim.
Eu tenho medo, sim. Medo de perder-me e de perder os outros. Medo do real e do faz de conta. Medo do fim do mundo, de o céu cair, de ser presa por engano, de luz e de promessas. Tenho medo até do medo. Eu, que acreditava ser corajosa...
Pensando bem, esqueça o que te falei sobre proteção, deixe que eu vá enfrentar os meus monstros. Se o mundo acabar com teu abraço... Dane-se, melhor assim.

Monique.


P.S: Peço desculpas pela minha ausência, o tempo foge e eu não o alcanço.

Por Todos os Quases

por Monique às 1:25 PM 11 comentários

Por tudo o que poderia ter sido e não foi, quero dizer que não sinto muito. Quero dizer que não sinto mais. Confesso que foi difícil, perdi tempo monitorando meus pensamentos para que não se aproximassem de ti. Até troquei o telefone porque não suportava mais aquele fio tão parecido com o seu cabelo. Parei de assistir TV para evitar lembrar da sua mania irritante de trocar o canal a cada segundo. Cortei quase todos os veículos de comunicação, com medo de que você aparecesse aqui e ali, em alguma palavra, em alguma imagem, em algum ponto final disfarçado de reticências. E, o mais ridículo de tudo é que lembrar de não lembrar não me permitia esquecer. Eu não percebia, quase deixei de ser. Foi um período de existência efêmera. Mera transição de um eu para outro desconhecido. Mas, agora, nem a sua síndrome de pernas inquietas atrapalha minha quietude.

... Eu continuo aqui, querendo dizer e, por vezes dizendo através dessas palavras que você nunca escuta.


Monique.

Que seja assim - Parte II

por Monique às 12:52 PM 14 comentários
Ficaram parados ali, olhando um para o outro, em silêncio. Ela gosta de observar o silêncio porque ele não reclama. Deixa-se admirar.
Cada detalhe que enxergava parecia lhe preencher os vazios que acumulara ao longo dos dias. Tudo novo e sublime, até as cores se reinventavam.
De repente ele parou de sorrir e ficou muito sério. Observava os traços do rosto dela com tanta atenção que a fez sentir-se como a modelo que posa para o artista. Permaneceu favorável — não se movia —, assim ficava mais fácil capturar sua essência. Assim ficava mais fácil capturar a essência dele.
- Lembro de você — disse ele e a voz soou macia, doce, como tudo —, sei que gostas de cortinas fechadas e janelas abertas. Tento ler o que escreves no vidro da janela nos dias frios. — E o sorriso tornou a aparecer.
- São só bobagens, coisas que faço para passar o tempo e organizar os pensamentos. — Quis dizer que também lembrava dele, que adorava quando reproduzia os sons do mundo com sua gaita de boca, não disse. — Mas, então, do que ria quando o encontrei?
- Ria de mim e para mim. Veja você mesma. — Puxou a garota para mais perto fazendo-a ficar de frente para o espelho. Então, lá estava ela, no lado virtual. O nariz no lugar dos olhos, os olhos no lugar do nariz, as mãos invertidas, os pés também. E o pior: estava careca.
- Não olhe para mim — disse ela entre risadas —, estou horrível.
- Está mesmo! — Caçoou ele misturando o próprio riso ao riso dela, sabendo em seu intimo que de horrível ela não tinha absolutamente nada. — Vem comigo?
- Para aonde?
- Para o outro lado. — Respondeu apontando para a extremidade esquerda.
- Por quê?
- Quero lhe mostrar uma coisa. — Ela pareceu confusa, mas ele insistiu. — Você vem?
- Sim... vou.
Ela o acompanhou, o fundo da loja forrado de espelhos bizarros até a outra extremidade, o garoto decidido a lhe puxar pela mão, ela decidida a não soltá-la. Até que chegaram
- Olhe nesse espelho — pediu, e ela olhou. Lá estava ela outra vez, no lado virtual. Mas, não era como antes, agora estava sorrindo, os cabelos ruivos trançavam-se sozinhos em pequenas mechas, quando pararam haviam formado quatro, duas em cada lado. Os sapatos barulhentos foram substituídos por um tênis amarelo-bebê. O vestido encurtava um palmo e perdia as mangas, mas não a estampa. O cenário no lado virtual era real. É verdade, nesse lugar tudo se confunde.
O garoto da casa amarela aproximou-se e apareceu no espelho, os cabelos foram soprados com força por um vento abstrato, desorganizaram-se emprestando a ele um ar de rebeldia, os cadarços do tênis dele amarraram-se aos dela, o moletom azul escuro tingiu-se de amarelo-girassol. Inesperadamente, palavras escreveram-se no espelho: que seja doce, diziam elas.

Monique.

* trecho de um talvez-futuro-livro. :))

Que seja assim - Parte I

por Monique às 8:11 PM 13 comentários

Encontrava-se ali a mais bela vitrine de doces do planeta. Rios de chocolate quente serpenteavam alegres por entre montanhas de sorvete que nunca derretiam, a grama de chocolate granulado convidava os biscoitos-garotos a um passeio. Tudo era doce, tudo era alegria. Até mesmo os mais distraídos e apressados pararam para admirá-la. Isabel também parou, vestia-se com um vestido que era um verdadeiro campo de girassóis, calçava um sapato do tipo que faz barulho ao andar, e o mais importante é que trazia consigo um sorriso que lhe iluminava todo o semblante. Uma cena era admirada enquanto a outra era admirável.
Passado algum tempo, a garota decidiu que entraria na confeitaria para comprar o doce mais bonito e saboroso que encontrasse. Empurrou a porta que bateu em um sino, que tocou. Parecia ter acabado de obter sucesso em suas tentativas fracassadas de atravessar a tela da televisão. — Aquilo tudo só podia ser ficção. — De alta definição.
Mal conseguia enxergar o fim daquele lugar extenso. Prateleiras em tom pastel atapetavam as paredes, em cada uma delas havia tipos diferentes de doces separados por cores que vibravam. — Não tanto a ponto de doer os olhos. — Mal podia acreditar que tamanha maravilha ficasse à apenas noventa passos de sua casa...
Uma risada a despertou e guiou-a até onde estava. — No fundo da loja, próxima aos espelhos que refletem de ponta cabeça. — Aquela risada tinha dono. Um dono que parou de rir ao vê-la, que transformou o riso em um sorriso surpreso. Reconheceram um ao outro como quem reconhece o próprio reflexo. Eram vizinhos. Estavam mais perto do que estiveram à vida inteira, tão perto quanto gostariam de estar. Enfim, perto.

Monique.

.em-acifidoceD

por Monique às 9:38 PM 16 comentários

Quando finalmente entenderes as mensagens subliminares que te envio, terás descoberto o primeiro dos números infinitos do código de mim. É que sou assim, uma porção de dúvidas escondida em boas respostas. É que cada sorriso cerrado é para que os sentimentos não me saltem pela boca. É que cada rabisco feito no papel é para amenizar a ansiedade, e quase todas as minhas manias servem para distrair a solidão. É que tudo o que em mim é secreto eu guardo bem.

...Decodifica-me.

Monique.

Re-lembrar.

por Monique às 8:40 PM 10 comentários

A caixa de lembranças ficou pequena para todas elas e transbordou. Arremessou a tampa para o lado oposto do quarto. Fez pessoas ressuscitarem do passado, e agora, elas querem ficar. Não podem. Não devem. Isabel não as quer mais. Estão fora do tempo, ultrapassadas e mofadas. Mofo não lhe faz bem, ela é alérgica.
Travou uma batalha contra as próprias lembranças até que todas estivessem devidamente rasgadas – o som de lembranças rasgando lhe soa ainda pior que o de dedos estalando – e separadas na lata de lixo reciclável. Assim, existe o risco de retornarem – de novo – ela adora arriscar.
Batalha vencida, hora de recomeçar. Repetição é praxe em sua vida desde a infância – nunca trocava as figurinhas repetidas. – Ao acordar, o pé direito toca o chão primeiro. É assim desde seus cinco anos de idade. Será assim para sempre. Sempre é muito tempo.

Monique.


P.S. Imagem das minhas lembranças.

Frio

por Monique às 5:27 PM 11 comentários
Faz frio. As pessoas estão congelando – de dentro para fora – as estradas estão escorregadias e a vida também – impossível mantê-la segura nas mãos.

Monique.

Arte

por Monique às 3:33 PM 8 comentários

Ele não se move, sequer pisca os olhos. Mora em um quadro na estante bege da sala de estar da casa de minha avó, terceira prateleira do lado direito. Está sempre sentado atrás de uma mesa de madeira escura, escrevendo na máquina de escrever com ar de velho sábio. Uma cartola na cabeça. Uma história materializando-se no papel.
Todo o figurino indica que ele vive eternamente no século XIX. E eu aqui, presa no século XXI. E ele ali, preso na tela que alguém pintou. Tinta seca.
Tentei estabelecer contato algumas vezes, foi tudo inútil. Ele não responde. Não quer saber de mim. E eu continuo perdendo meu tempo o observando, dia após dia, intermitentemente. Desejando muito profundamente ouvir o barulho que faz a máquina de escrever quando ele escreve. Desejando secretamente ser a obra de arte de alguém.
Talvez algum dia, eu o roube da estante. Ninguém iria notar. Talvez eu o leve para a minha casa e o pendure na parede da cozinha e faça um chá com açúcar para nós dois.
Dia desses, passei tanto tempo o observando que adormeci no sofá que fica defronte a ele. Quando acordei ele havia desaparecido, a máquina de escrever estava solitária e eu também. Encontrei um bilhete ao lado do quadro:
"Você babou no sofá. Adoro o som dos seus sonhos."

Monique.

Lado B

por Monique às 10:38 PM 6 comentários
Mãos quentes sempre é um sinal. Um mau sinal.
As vozes voltaram, eu não estou surpresa. Elas me falam de você. Fizeram promessas, cortaram os pulsos, sentiram cheiro de sangue. Subiram até o oitavo andar e saltaram gritando. Sobreviveram.
Estão aprendendo a sussurrar e isso é ainda pior. Intolerável o som da consciência em qualquer frequência. Desesperadamente procurando um lado B.

Monique.

Imaginário

por Monique às 4:39 PM 10 comentários

Sorri pra mim com esse teu sorriso de quem acabou de encontrar dinheiro nos bolsos da calça do inverno passado. Sorri e fica mudo. Teu sorriso sempre fala por ti.
Brinca comigo de "jogo do sério" que eu adoro ganhar. Mente dizendo que fiz careta, que sou trapaceira, que me beneficiei piscando durante um segundo longo demais. Pede revanche que eu concedo, mas ganho de novo. Até te deixar sem justificativas. Até tu admitires – pois é minha parte predileta – que não sabes me olhar sem sorrir. Sou muito, muito, muito engraçada.
Desenha página por página do meu bloquinho novo que precisei comprar porque rabiscaste no outro. Desenha aquela sequência tola do velho barbudo em uma canoa pescando botas no rio. Faz-me comprar outro, rabisca de novo. Pede desculpas e me presenteia com uma caixa de bloquinhos – só meus.
Respira com esse teu jeito de quem sente no ar, o tempo inteiro, cheiro de massinha de modelar. Diz-me que tenho cheiro de infância, que tens vontade de me apertar, que sou todas as cores ao mesmo tempo.
Acorda-me acendendo as luzes do quarto e atura com bom humor o meu mau humor até o fim do dia. No começo da noite ele passa. Passa porque eu canso de mim. Passa porque tu nunca cansas de mim.
Coloca a toalha na mesa e arruma os talheres no lado direito dos pratos enquanto eu tiro os biscoitos do forno. Conta uma piada sem graça no jantar de família que eu vou rir mesmo assim. Mesmo que ninguém entenda. Mesmo que eu odeie piadas.
Olha com esses teus olhos de abismo dentro dos meus, e me segura antes que eu caia. Emenda com um passo de dança. Ri enquanto resmunga alguns "ai meu pé".
Busca-me no trabalho e me leva para almoçar. Pede pro garçom dois sucos de morango e escreve no guardanapo algo bem clichê que dê a impressão de que nos apaixonamos ontem.
Só não se mude do meu balãozinho de pensamentos para um outro. Seja real para mim.

Monique.

Explosivos

por Monique às 10:05 PM 8 comentários

O cenário é cinza e só. Até que uma garotinha aparece na cena – o cabelo rebelde, os olhos brilhantes, a boca cheia de açúcar, nas mãos um pacote de jujubas.
Ela imagina a rua e a rua aparece. Trás com ela a faixa de pedestres, dois carros coloridos que parecem de brinquedo, casinhas que parecem de bonecas e um desafio. – chegar ao outro lado. Ela nunca foi desafiada. A imagem congela, ela quer pensar. E Pensa, pensa e pensa... Não sabe como começar.
A imagem descongela sem que ela ordene. Alguém está falando, alguém está falando com ela. É um garoto de olhos cor de anis. Ele a fez uma pergunta, mas ela não ouviu. Ele repete pacientemente:
- Você quer ajuda para atravessar? – Ela faz que sim com a cabeça, ele a pega pela mão. As bochechas dela ganham cor, as pernas dela ganham vida. Direita, esquerda, direita, esquerda, dir... Terra firme. As mãos se soltam.
- Estou acostumado, sabe, a atravessar ruas. Você pega o jeito com o tempo. - diz ele.
- Obrigada... Quer uma jujuba? – ela lhe oferece o pacotinho.
- Posso pegar uma amarela?
- É claro que sim, as amarelas são minhas prediletas.
- Por que as quer compartilhar comigo então?
- Você vai entender depois que comer uma.
Ele havia aprendido que é arriscado aceitar guloseimas de estranhos. Mas soube sem saber como sabia que ela não lhe faria mal. Comeu. Houve uma explosão repentina... Alegria. Ele estava certo, ela estava certa também. Ele entendeu.
Ela deu uma risadinha abafada e surpreendeu-se logo depois. O cenário mudou completamente. Olá, outro planeta. Era a vez dele de imaginar. Imaginou um planeta pequeno, mas suficientemente grande para os dois. Fora de foco havia uma rosa protegida de sabe-se lá o que por uma redoma. Um pão de mel fosforescente nascia no horizonte, provavelmente era equivalente ao sol na Terra. Ela havia perdido o controle. Impedida como estava de imaginar, só observou...
Muito tempo se passou... Infinitos segundos de felicidade. Até que precisaram se despedir.
De volta à Terra, o sol estava se pondo por conta própria. Os pés tocaram a grama, os ventos da mudança sopraram sobre os dois. Observaram suas sombras: elas ainda estavam de mãos dadas.
Assim como jujubas amarelas ele lhe traz alegria. Às vezes a alegria é tanta que chega a doer. Precisa ser compartilhada. Já.

Monique.

A Confusão de Nós

por Monique às 5:17 PM 9 comentários

Essa garota pensa que me conhece. Um dia ela tropeçou nos próprios pés e eu a segurei, nos tornamos amigas imediatamente.
Ela é tão encantadora que atrai todos os olhares para si, estes a transpassam como se não fosse mais do que um espectro, e enxergam através dela... Os corpos atrás dela. Nunca, nunca dentro dela.
Essa garota ri como se a vida fosse uma piada repisada que no entanto nunca perde a graça. Mas eu sei, há sempre algo se revirando incomodamente em seu estômago. Um gato, afofando a almofada que nunca fica fofa o bastante, porque no fundo ele quer mesmo é um novelo de lã para enroscar-se todo e não ter mais escapatória.
Nunca sabe explicar o motivo que a faz sentir tanta paz em momentos de guerra quando uma criança sorri, nem a serenidade que sente quando ouve o barulho das ondas quebrando no mar, nem o que lhe invade quando sente cheiro de baunilha e recebe beijos com gosto doce de hortelã. Não precisa de motivos... é só.
Quando a alegria se instala ela abre e fecha mãos e olhos simultaneamente, querendo pegar e guardar cada milésimo, perpetuamente. Há outro truque que ela usa para guardar e recordar os bons momentos, mas esse ela não revela, é segredo deles.
Sente impulsos de abraçar bem apertado, de afagar os cabelos bagunçados na cabeça daquele garoto que sempre a faz sorrir. Ele é como óleo, desenferruja os músculos da face. Mas ela se contém... Sempre se contém, é o maior defeito dela.
Vez ou outra ela se cala, jura para si mesma que não falará, e não fala. Então o medo cresce, mas ela está decida a vencê-lo. Conta os dedos das mãos trêmulas sempre começando da direita para a esquerda, depois para. O coração se aquieta, o medo se torna covarde e foge dela. O medo tem mais medo dela do que ela tem medo do medo. Patético.
E nesses dias em que absolutamente tudo é silêncio, ela responde em pensamento – tola – eles não a podem ouvir. Partem sem saber. E ela pensa – adeus.
Essa garota é tão parecida comigo que às vezes não sei quem de nós é ela.



Monique.


ps:
os comentários estão logo abaixo do título :)

O despertar.

por Monique às 4:54 PM 9 comentários
Parecia ruim demais para ser verdade. E era.

Finalmente, Isabel despertou. Estava chorando involuntariamente. Mas, quando sentiu as mãos formigarem e viu as estrelas grudadas no teto as lágrimas cessaram. Deu alguns beliscões no próprio braço – só por precaução – e sentiu doer. Sorriu. Fora só um pesadelo, toda a dor era ilusão. A mulher morta e a isca também. Desde então, tudo se tornou mais doce.
Durante algum tempo esteve presa em um universo de amargura. Angustiada, lutava contra a própria mente. Agora ela se libertou. Está de volta. Mais feliz do que nunca.
Aprendeu até a cozinhar sem colocar fogo nos panos de louça, cresceu um centímetro, visitou um velho amigo, abriu as janelas e disse olá ao sol – ela sempre o detestara, mas isso estava mudando também.
Descalçou os sapatos e pisou na grama, sujou as roupas no barro e os pés nas poças de chuva. Lavou a alma. Entrou em casa e deixou pegadas.
Descobriu-se viva e colocou o som de Beatles no último volume para confirmar suas suspeitas de que isso voltaria a fazê-la sentir o coração bater ritmado, como a bateria. Sem dores de cabeça. Sem o medo e sem a vontade de fugir que o som alto lhe provocara tempos atrás. Tudo em sincronia.
Andam dizendo por aí que ela enlouqueceu. Que anda conversando com formigas e abraçando árvores, que cortou o lindo cabelo na altura dos ombros. – quando Isabel decide mudar, começa sempre pelo cabelo.
E em meio a sua loucura de ser feliz, só por um instante pensou que talvez, com a força do pensamento pudesse fazer alguém lembrar-se dela. Mas lembrar-se dos outros já lhe pareceu suficientemente bom.
Mal sabia ela, que alguém do outro lado da rua, atrás de uma janela, lembrou-se que atrás da janela dela estava ela. Aliás, ele lembrava disso o tempo todo, principalmente quando tocava gaita de boca e aguardava ansioso sua aparição.
Mal sabia ela, que a vida além de bela, estava apenas começando.


Monique.

A Isca

por Monique às 12:54 PM 6 comentários

Foi aterrorizante estar ali; naquela praça no centro da cidade onde todas as flores estavam desbotadas, onde o silêncio doía e o vento cortava. Mas o pior, estava por vir.
Vi pessoas descascando igualzinho a papéis de parede envelhecidos. Revelando as imperfeições que escondiam. Tudo exposto. Uma delas tentava colar as partes que se desprendiam da testa, outro gritava, alguns xingavam, e todos tinham no rosto a mesma expressão de desespero.
Os bancos estavam cheios, as pessoas esforçavam-se para não se tocarem, percebi que não tinham escolha senão sentar e tentar entender, e tentar impedir, e tentar aceitar. Algumas resistiam bravamente caladas - talvez estas já tivessem aceitado.
Percebi então uma garotinha que tremia e escondia o rosto nas mãos, o vestido estava rasgado e como tudo naquele lugar estava desbotado, cinza, descascando. Senti um impulso repentino de abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Quis fugir levando-a nos braços. Ela era diferente, suas imperfeições eram perfeitas. Havia cor no cinza do corpo dela, eu sei.
Tentei me aproximar, mas não pude. Meus pés colaram no chão. Talvez fosse tarde demais. Quando dei por mim havia um garoto tocando minha mão esquerda. Branco e frio como a morte. Era diferente também, tinha passos firmes e nunca sentaria. Olhar vazio. Ele sorriu um sorriso triste e eu o abracei. Certamente era tarde demais.
Senti meu corpo mudar, a imagem provavelmente foi semelhante à morte de uma lula gigante. Perdendo a cor, perdendo a vida. Fisgada por uma falsa impressão.


Monique.

Que seja pleno o que será.

por Monique às 3:42 PM 6 comentários

Tenho inúmeras manias esquisitas, entre elas está a de imaginar rostos jovens (ou nem tanto) envelhecidos. Não sei quando foi que a adquiri, mas desde então não consigo livrar-me dela.
Um dia, me olhando no espelho imaginei-me daqui a trinta anos. Realizada pessoalmente e profissionalmente; inseparável de meus instrumentos musicais, alguns livros publicados, situação financeira estável, família feliz. Rugas marcavam meu rosto, mas eu estava orgulhosa de cada uma delas.
Um vento frio e agradável entrou pela janela da sala, onde eu conversava animada com o homem que eu amaria até o fim da vida. Reciprocamente. E se o tempo me permitisse, provavelmente morreria amando um homem careca – engraçado pensar nele assim.
A lareira estava acesa, a mesa lateral acomodava diversos porta-retratos que continham fotos de momentos felizes, em alguns deles eu estivera no Japão. Meu eu adulto vestia algo confortável e divertido, tinha nas mãos quatro pares de meias recém passadas, prontas para serem imediatamente calçadas em um dia frio de outono.
Ao olhar pela janela vi minha irmã e meus sobrinhos, sorriam e acenavam ao passarem pelo portão. Meus dois filhos correram ao encontro deles, os copiei, e nos envolvemos em um abraço coletivo. Pouco depois, meu melhor amigo apareceu por lá. Seu cabelo estava diferente, mais curto, menos escuro, mas naquele momento eu soube – seu olhar seria o mesmo para sempre.
Ao observar o exterior de minha casa, descobri com alegria que ela era amarela. Havia um carro de modelo antigo na garagem, o jardim estava bem cuidado, e os portões eram fantásticos, cheios de curvas e desenhos. Folhas secas caídas no chão atribuíam à sensação gostosa de pisá-las e ouvir os sons. Ao fazer isso, a fantasia quebrou-se com as folhas. Pela metade, interrompida.
A imagem no espelho voltou a entrar em foco, e lá estava eu – trinta anos antes, nenhuma ruga, com o futuro nas mãos.

É fato, todos os que sobreviverem ficarão velhos. Os jovens envelhecem, os velhos continuam envelhecendo, e até as crianças têm rugas invisíveis no rosto – precoces em quase tudo. O mundo está amarelando, há páginas quase ilegíveis e cabe a nós conservá-lo.
Sei que sentirei falta do que ficará na lembrança. Então, que a vida se renove todo dia. Que o futuro seja pleno como nunca.

Monique.

por Monique às 9:24 PM 10 comentários
Eu vi uma mulher morta. É verdade, as pessoas morrem o tempo todo, mas aquela estava caída perto demais. Ela parecia uma boneca de pano com olhos injetados, braços contorcidos e cabelos enrolados. Deveria estar sendo embalada, mas acabara de ser descartada - para sempre.

Monique...

Da Janela

por Monique às 3:44 PM 11 comentários

Isabel acordou cedo demais em pleno sábado, não conseguia dormir. Ela adorava pássaros e suas canções, mas naquele dia eles a estavam enlouquecendo. Decidiu abrir a janela e caçá-los. Encontrou um ou dois empoleirados em um galho esguio da árvore do vizinho. O vento soprou, a árvore balançou e os passarinhos voaram. Ela percebeu então que aquele era o mesmo galho que cutucava sua janela quando ventava, a criança dentro dela perdeu o medo de monstros e sorriu. Era só a natureza.
A garota ficou ali parada até que o céu se transformasse de um cinza escuro em um azul celeste. A luz invadiu seus olhos, ela sentiu-se subitamente cega e decidiu afastar-se. Fechou as cortinas, mas manteve a janela aberta. Era assim que ela gostava.
Foi então que escutou o som. Era uma harmonia macia que parecia ecoar em alto-falantes espalhados pela casa, deixou-se contagiar, deitou na cama e seus pensamentos voaram... Voaram... E voaram.
Pouco depois se levantou e olhou pela janela, no lado oposto da rua havia um garoto. Dentro de uma casa amarela, atrás de outra janela, ele tocava gaita de boca. Na verdade, ele sabia apenas quatro notas, mas isso não era importante. A harmonia cessou. Ela entristeceu. O garoto sem nome surpreendeu-se ao vê-la e corou. Ela não percebeu. Simultaneamente os dois fecharam as janelas.
Naquele dia multicolor algo se agitava dentro dela - borboletas no estômago.
Um imã invisível a atraiu para a rua banhada de sol e entulhada de carros e fumaça. Ela abriu a porta da frente, desceu os três degraus que a levavam ao jardim saltitando. Olhou em volta, tornou a ouvir a harmonia. O magnetismo enfraqueceu, desistiu da rua e deitou-se na grama, viu as nuvens mudarem de forma - uma gaita, notas musicais, uma janela e um olho azul que piscava. Por fim, ela sorriu com serenidade e as borboletas voaram.


Monique.

Chuva de Palavras

por Monique às 12:47 PM 16 comentários

Foi engraçado mesmo, estarmos ali nos olhando sem nada dizer, a metros de distância, nos tocando com o pensamento. Estava frio, o céu tinha cor de cimento, mas não queria chover, não para nós.
É um pouco estranho, e é tão normal ser quem se é. Você viu o que quis de mim, eu vi o que quis de você, e então descobrimos tudo o que não queríamos e nos despedaçamos em uma brincadeira de bem-me-quer-mal-me-quer.
Haviam correntes nos mantendo afastados, mas finalmente fomos mais fortes do que elas. E corremos em direções opostas até os corpos se recomporem em um abraço apertado. Eu não conseguia respirar, e eu não poderia ter me importado menos.
As nuvens se moveram no céu, eu senti as gotas, uma chuva de palavras falava por nós o que não poderíamos dizer. Nossos rostos adquiriam expressão. Você sorriu, eu ri, a felicidade era óbvia. Mas não sabíamos até quando.
Enfim, a paisagem ao nosso redor materializou-se, pudemos ver os sapatos molhados e as janelas se fechando. Ouvimos o plic-ploc da chuva, os passos apressados e o som dos nossos corações batendo como um só. Era a melhor música que já ouvi. Até as folhas dançavam...
Um arco-íris fugiu dos seus olhos e apareceu no céu, o transformamos em escorregador e escorregamos até a profundeza de nossos sonhos. Nunca mais fomos vistos na superfície.


Monique.

7

por Monique às 4:53 PM 10 comentários

Sete é o número natural que segue o seis e antecede o oito, está presente em nosso cotidiano de diferentes maneiras. Para os músicos, sete notas musicais da Escala Base. Para os crentes, sete dias foram usados na criação do mundo. Para as crianças, sete anões da Branca de Neve. Para os matemáticos, sete algarismos romanos. Para os historiadores, sete rainhas na história foram chamadas de Cleópatra. Para os rotineiros, sete dias da semana. Para os apaixonados, sete cores do arco-íris. Para os curiosos, o sete inicia o código de barra nacional brasileiro. Para os pecadores, sete pecados capitais. É sobre eles que falarei. Afinal, todos - músicos, crentes, crianças, matemáticos, historiadores, rotineiros, apaixonados, curiosos ou não - temos isso em comum. Somos pecadores.
Os sete pecados capitais foram inseridos na sociedade pela igreja católica que pretendia intimidar a manifestação dos desejos. Estes, porém, após trancafiados nos corpos humanos agravaram suas proporções.
O tempo passou e os sete pecados libertaram-se dos corpos. Exemplo disso, foi o lançamento da linha de sorvetes Magnum 7 pecados no ano de 2003 – que circulou por tempo limitado – vinha acompanhada de campanhas publicitárias, instruções para consumo, jogos e outras formas de estimular a venda explícita do sorvete. Até eu comi, e gostei.
Apresento-lhes a gula. Ela é desequilibrada, quer mais do que pode ter, dá água na boca e faz a barriga crescer. Combate a ansiedade e coopera com a celulite.
A avareza, não divide suas riquezas e por isso está sempre pobre de espírito.
A inveja despreza seu reflexo, e usa máscaras com o rosto de outro alguém.
A ira é descontrolada, furiosa, intolerante, suicida e homicida, quando acompanhada do til é também um país asiático do Oriente Médio.
A soberba é arrogante, considera-se auto-suficiente, e acha que o mundo gira em torno do próprio umbigo.
A luxúria enxerga por toda parte corpos de Juliana Paes e lábios de Angelina Jolie, quando batem nela escuta-se o som oco.
A preguiça não apareceu para se apresentar, estava confortável demais em sua cama para fazê-lo.
Todas juntas formam um grupo traiçoeiro e (in)evitável. Hoje, a preguiça e a gula foram mais fortes do que eu. Qual delas derrotou você hoje?

Monique.


Comercial Magnum 7 pecados:
http://www.youtube.com/watch?v=xw6XgS__IH0

E a natureza, muda?

por Monique às 12:35 PM 10 comentários

Eu estive pensando em falar com você, mesmo que fosse sobre o tempo. Aliás, você nem imagina a instabilidade do tempo aqui, bem aqui, dentro e fora de mim.
Eu deveria ter construído um mundo mais frágil, sem amortecedores para abalos sísmicos, abrigos contra furacão, e alarmes que anunciassem o perigo se aproximando. Eu lembrei dos guardas, dos portões, dos muros, e até dos cadeados e cercas elétricas. Mas, eu esqueci de me proteger contra a solidão, eu esqueci de abrir os portões de vez em quando, de dar férias aos guardas, de pular o muro. Eu esqueci de estabelecer contato com o mundo exterior, e esqueci de convidá-los a conhecer o meu. Quero esquecer do que esqueci.
Já não suporto suportar essa proximidade que nos distância. E eu não vou me adaptar a estar distante, por mais que eu estude a natureza de um camaleão ela nunca será a minha. E a minha natureza está cheia de flores secas e ervas daninhas, grama morta e barro ressecado, nada de cores exuberantes, nada de chuvas refrescantes; nunca mais.
Só há a vida latente e por natureza temporária. Essa condição temporária para tudo é o que me enfraquece, sufoca, entristece. O tempo é curto demais, e minhas pretensões são colossais. Estou à deriva no oceano, em um barco furado, prestes a naufragar.
E o mais ridículo de tudo, é que hoje - rodando, girando, rodopiando, contornando... Acompanhando a rotação do meu mundo – eu só queria um sorriso, um só. Eu só queria um abraço, só um. Mas eu estava sozinha atrás dos meus escudos.

Monique.

Procura-se uma Estrada de Tijolos Amarelos

por Monique às 3:41 PM 5 comentários

Eu havia sonhado com bombas e mortes, com olhares se encontrando, com meias sujas e amor.
Foi logo após fechar os olhos que o garoto-estátua apareceu, sentado no meio dos escombros – perplexo. Um milésimo de distração, e ele desapareceu. No lugar dos escombros ergueu-se um lar risonho e solitário, com uma chaminé de tijolinhos que mais pareciam peças de um quebra-cabeça. No quintal: os duendes brincavam sem serem vistos.
Havia uma porta falsa na entrada da casa, estava ali só para disfarçar a anormalidade, qualquer um que tentasse abrí-la toparia com uma parede descascada do outro lado. Os moradores da casa entravam e saíam pelos fundos, como ladrões, como empregados, como filhos fujões. Eles gostavam do desgostoso e de frases no interrogativo.
Lá dentro, uma mulher ruiva de dedos longos e cabelos quebradiços dividia a cama com seus dois filhos adotivos, intercalando cabeça com pés. Cobertores? Eles tinham de sobra – adoravam sentir os dedos enregelados aquecerem-se embaixo deles.
Vez ou outra quando o céu estava cinzento, a mulher contava histórias para os filhos, eles flutuavam dez palmos acima do chão. No final, caiam com um baque surdo.
Quando chovia, saiam de casa para lavar a alma, pular em poças de água e correr de braços abertos. Lavavam, pulavam e corriam... até não aguentarem mais.
Em dias de sol, colocavam meias e pisavam na terra, faziam acampamentos no quintal com caixas de papelão, e só saiam lá de dentro na hora do crepúsculo para admirarem a mistura dos dias no céu.
Amavam uns aos outros como tudo o que tinham na vida – e realmente tinham apenas uns aos outros, mas isso bastava. Até o momento.
Em um dia de sol, o filho mais velho antecipou-se com sua caixa de papelão até o quintal. Foi então, que algo imprevisto aconteceu: um barulho ensurdecedor vindo de todas as direções atingiu o lar, destruiu a magia, e libertou a dor. A destruição chegou para uma visita, e quando foi embora deixou tudo em pedaços. O último suspiro para os que morriam, o desespero para o sobrevivente.
O garoto levantou cada peça do quebra-cabeça desfeito em busca de tudo o que tinha. Só encontrou fios alaranjados do cabelo da mãe, e a as meias sujas do irmão.
Sentado em cima dos escombros, ele era uma estátua, me olhando, suplicando o fim das interrogações que ele adorara um dia. Mas eu... não tinha as respostas.
Eu era uma intrusa sendo carregada pelo vento, igualzinho a Dorothy de O Mágico de Oz - percorrendo terras desconhecidas, sustentando olhares desconhecidos... amando o desconhecido. Procurando uma estrada de tijolos amarelos que trará a solução para tudo.


Monique.

L.E.R (Lesão por Esforço Repetitivo)

por Monique às 9:49 PM 4 comentários

Eu passei a noite inteira rolando na cama, olhando para o teto enfeitado de estrelinhas falsas e fluorescentes - contando-as. - Pensando em banalidades, pensando em parar de cometê-las, pensando em não falar mais sobre elas – é à noite, antes de dormir, que eu penso em tudo.
Lembrei das ovelhinhas e parei de contar as estrelas. Uma por uma elas saltavam cercas de madeira branca, e iam crescendo com o tempo, até completarem dois mil anos e ficarem grandes e pesados demais para o meu pensamento - era chegada a hora de esquecê-las.
Mas, ovelhinhas em ordem crescente me lembram infância - época em que eu calçava sapatos número quarenta e dois e encontrava felicidade escondida embaixo das palmilhas.
Sapatos e palmilhas me levam até à sapataria que fica na esquina da rua onde eu morava. Ela tem portões e uma garagem, uma porta de madeira, um chão de madeira, paredes de madeira, e atrás do balcão – de madeira - o sapateiro mais simpático e sorridente que eu já conheci exerce seu oficio. Ali estão à venda iridescentes cadarços de diversos tamanhos, suspensos por suportes que cheiram a cola e serragem – aliás, tudo ali tem esse cheiro.
Serragem me traz saudades e lembranças de um avô que não conheci - ele fabricava móveis – ele ficava zangado com buracos no queijo, acordava os filhos aos gritos e tinha passos pesados que ecoavam por toda a casa – mas ainda assim alcançava o mais alto patamar de carinhoso e brincalhão - fazia serenatas para minha avó e prendia dedos infantis em buracos de alicates.
Alicates me lembram martelos que eu usava para martelar pregos em um toco de árvore no quintal de casa. Casa me lembra abrigo, que me lembra conforto, que me lembra quarto, que me lembra cama, que me lembra sono.
E assim é feita a descoberta: não posso parar de banalizar, é um ciclo vicioso, e a cada novo recomeço mais banais as banalidades se tornam para você.

Monique.

...

por Monique às 1:05 AM 9 comentários

Tudo começou com mãos se tocando sem querer querendo, depois, um cafuné. Não que eu esteja surpresa, é sempre assim que o tudo começa e se expande dentro de mim. Mas, é claro que há os outros começos de que não me esqueço, nem menos importantes, nem mais surpreendentes.
E, há algo imutável. Um rosto insuportavelmente perfeito, aquele andar de quem não tem nada a perder, misturado ao quase-sorriso que se abre aos poucos e então reluz, sem cogitar a possibilidade de esquecer a profundeza do olhar daquele eterno garoto.
Ele tem a respiração mais suave que já ouvi, uma risada macia como veludo, pronuncia palavras que se tornam ecos, tem um bolso cheio de sonhos que chacoalham, e rugas de expressão invisíveis quando adormece. Eu queria dizer que amava vê-lo despertar, que era como vê-lo renascer - uma fênix azul, terrivelmente permanente.
Que droga de molduras eram aquelas nos olhos dele? Como se fosse necessário realçá-los ainda mais. Egoístas, como dois faróis de néon em uma noite escura. Como uma tempestade em uma tarde de verão.
Eu fico contornando aquele rosto até minhas mãos formigarem, até o sangue ter dificuldades para circular. Tentando decorá-lo para não esquecê-lo, tentando disfarçar que ainda não o sei de cor, de trás para frente, de ponta-cabeça, de olhos vendados. Sentindo a dor de vê-lo partir, sentindo o medo de que ele não retorne, sentindo o tudo se esvair... Derrotado.
Ele é um paradoxo cheio de cicatrizes, ligeiramente fora de alcance. Logo ali, dobrando a esquina, sua alma repousa em um banco solitário da pracinha, lendo livros com cara de lidos, com o coração pulsando na cabeça. Ele é uma farsa, uma ilusão de óptica, igualzinho a reticências seguidas de um ponto final.

Monique.


http://www.youtube.com/watch?v=8_kFK6d5p6o&feature=related

 

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