(Des)Medidas

por Monique Burigo Marin às 4:50 PM 4 comentários

Imagem: Monique Burigo Marin
   Eu volto logo, meu amor. Espere por mim, que eu volto. Só vou até ali na cozinha, pegar um copo d’água, pra minha garganta não secar de espanto. Pros meus lábios quererem um pouco menos a tua saliva.
 Desculpe se demoro, é que na cozinha eu aprendo um punhado de coisas. Devo experimentar para não me faltar tempero. Para não nos faltar tempero. Para não nos faltar coisa alguma. Unto, para não grudar enquanto você cresce dentro de mim. Não economizo, para que renda mais do que o suficiente. Exercito minha paciência, para que as coisas não desandem. E até coloco uma colher de açúcar, só para quebrar a acidez.
   Eu tenho cuidado para não passar do ponto, mas erro. Quem sabe, se a gente tirar os pedaços queimados, ainda reste alguma coisa?

* Sei que a tua medida é diferente da minha, mas se der para dois, eu aceito.


Monique Burigo Marin

Coriolis

por Monique Burigo Marin às 2:58 PM 2 comentários

Imagem: Monique Burigo Marin   
   Eu ainda te procuro. Dentro e fora de mim.  Nos olhos e nos lábios do outro. Isso não me deixa dormir. Fico observando as sombras dentro do quarto com medo de que tomem a sua forma e venham repousar ao meu lado. Até que a luz atravessa a cortina.
   Quando o sol nasce, sinto uma força ridícula apoderar-se de mim, como se o astro fosse eu. Como se, todas as manhãs, eu pudesse ser quem te beija a face. Mas eu e você estamos em lados apostos do hemisfério, cada um gira para seu próprio lado, você horário, eu anti-horário. 

* E quando o dia vem, as trevas se recolhem para dentro de mim. Sou o esconderijo perfeito.

Monique Burigo Marin

Volátil

por Monique Burigo Marin às 4:06 PM 3 comentários

Queria agora uma desculpa para chorar, deveria ter bebido. É, deveria. Minha lucidez custa caro. Traumatiza. Depois, quem se lembra de tudo sou eu. Eu que te amo incondicionalmente e não quero mais saber do teu amor, que é volátil como o álcool.

Monique Burigo Marin

GraMÁtica

por Monique Burigo Marin às 2:09 PM 3 comentários
- Você não se sente mal?
- Por quê?
- Por me olhar assim.
- Assim como?
- Assim... Como se eu estivesse dentro de você tanto quanto você está dentro de mim.
- Você está!
- Tanto quanto você?
- Não, mais.


*A vírgula, para nós, foi tão longa que sumiu.


Monique Burigo Marin

Cisco

por Monique Burigo Marin às 7:00 PM 2 comentários

   Meu sonho é poder olhar teus olhos sem me enxergar. Salvar meu reflexo, enquanto algo em mim ainda tem salvação. Deixar teus olhos vazios como nunca estiveram, para depois preencher com as lágrimas da minha partida. Mas como? Se a minha chegada nunca foi sentida?
   Quero olhar teus olhos e dar de cara com um muro opaco e intransponível. Quero, depois, tirar você de mim como quem tira um cisco. Sem medo de perder a visão. 
   Você nunca se enxergou em mim, embora sempre tenha estado aqui. Mais visível do que deveria.


* Alguém aí poderia assoprar?
Monique Burigo Marin

Teimosia

por Monique Burigo Marin às 2:24 PM 4 comentários

Imagem: Monique Burigo Marin e Wiliam Koester

   Não quero dormir, nem conversar. Só quero ficar aqui, quieta, no meu lado da cama, lembrando de que já foi simples sentir a felicidade percorrer meu corpo com seus dedos leves.  Era só acreditar, e acreditar também era simples. Acredita?
   Ainda me lembro das estratégias da infância. Ao deitar, levava para a cama minha redoma invisível e impenetrável. Protegida por ela, eu deixava as pálpebras esconderem o mundo exterior. Ora, já tinha vivido nele o dia todo, queria agora aproveitar as delícias do meu mundo inventado. Sem interrupções.
   A felicidade morava do lado de dentro, facilitava a construção dos sonhos. E se algum pensamento ruim chegasse para ameaçar, sorvete de flocos consertava tudo. Espantava até o calor das noites de verão.
   Às vezes minha redoma me levava para passear, adquiria forma de robô e caminhava leve pelos campos. Nas minhas fantasias, tudo levitava. Foi num desses passeios que ultrapassei meus limites, quis tornar o mundo imaginário tangível e pulei para fora da redoma. Então, o robô oxidou e eu fiquei presa do lado de fora. Hoje estou nua. Sobrevivo. Indefinidamente. Não tenho talento e nem vocação para o perigo, mas sou teimosa, e insisto.

Monique Burigo Marin

Vermelho Morto

por Monique Burigo Marin às 4:21 PM 2 comentários

 Imagem: Monique Burigo Marin

  Noite passada eu tive o pior pesadelo do ano: Eu não era eu e não ser eu me consumia.
  As pontas dos meus cabelos formavam cachos perfeitamente loiros. Vestia branco e era difícil distinguir tecido e pele. Eu era frágil. Porcelana.
  A casa, onde meu corpo caído estava, era clara. Tons de branco em toda parte. Elegância e delicadeza. Meu corpo no chão em pose de bailarina. Olhos abertos e frios deixavam entrar qualquer um que desejasse. Coloração abstrata.
  De repente, o líquido escarlate me fugiu dos lábios, espalhando seu cheiro fétido pelos cômodos. Impregnando as cortinas, os tapetes, os lençóis. Tingindo a pureza com sua agonia.  Perfurando a alma. Eternamente.
  Minha transformação estava concluída. A natureza humana não era mais que os cacos com os quais tentei golpear a fera – sem perceber que os cacos era eu. Sei que, no fundo, errei propositalmente. Eu também quis provar teu sangue e teus riscos.

Monique Burigo Marin

Vestígio

por Monique Burigo Marin às 10:35 PM 3 comentários
Imagem: Brian M. Viveros <3

Meu indicador tem uma nova cicatriz em espiral, por tua causa. É que acompanhei as formas disformes do teu cabelo e acabei ferida. Atravessei tua armadura sem dificuldades e estou começando a compreender o porquê: Ela foi vestida do avesso.

Eu que gosto de inventar, inventei palavras para a nossa linguagem averbal, mas nem mesmo o meu vocabulário inventado foi o bastante para preencher tanto silêncio. Desculpe se te observo com estas mãos que nada esquecem. É meu jeito de tentar te entender. Acho que até senti teu grito passar pelos poros e veias. Fique ao meu lado.

Tua cicatriz sem história não me deixa partir, nem ficar, nem dormir. Há uma promessa não feita que estou devendo.  Dissolve-se enquanto o tempo corre. Enquanto o tempo corre. O tempo corre... Corre! Antes que tuas pernas esqueçam como era andar antes de mim.


Monique Burigo Marin

Elemental

por Monique Burigo Marin às 8:41 PM 3 comentários

  Imagem: Marcela Bolívar

  Já não sei como mergulhar nos teus olhos. Temo derramar o meu cloro na tua água cristalina. Represei tua beleza durante muito tempo, mas agora, estás livre para escorregar em cachoeiras. As pedras são tua acolhida.
  O lençol freático com o qual construímos nosso lar ameaça cair. Se acontecer, nossa lanterna queima, os desenhos feitos de sombras vão embora ou aprendem a nadar.
  Você é água; eu sou terra e avisei: não adianta tentar semear em terra seca. Sem você, nada mais cresce em mim.

Monique Burigo Marin

SOBRE JUJUBAS E ELEFANTES MURCHOS

por Monique Burigo Marin às 12:20 PM 2 comentários

Texto e desenho retirados do blog Oitocentos Gritos Mudos, autoria do gritador Dan Arsky, cujas palavras povoam meus pensamentos constantemente. 



Uma colega de caneta, dessas que a gente não conhece pessoalmente, mas já leu uma verdadeira antologia de produções da pessoa, sempre soltava sua máxima: "Jujubas e Elefantes Murchos".
Ora, diabos, se estes elefantes estão murchos, por que não comem as jujubas?
Na verdade, eles comiam, mas as jujubas eram pedriscos e aqueles paquidermes eram daltônicos.

- Hey, Sr. Elefôncio! Estas jujubas são pedras, não está vendo?
- Para mim são jujubas, e muito saborosas!
- São pedras, sua besta! Veja!

Foi aí que o elefante murcho secou de vez. A epifania forçada lhe fez mal. A verdade doía como agulhas debaixo da unha.
Mas num dia de seca, olhou para as pedras e sorrindo as alcançou com a tromba.
O velho ranzinza, aquele epifanista magro e nojento, já gritou de longe:

- E falam da memória do elefante! Já te disse que são pedras! Pedras!
- Não são, são jujubas! - e seguiu comendo. E ainda de boca cheia complementou para o velho:
- Você que sempre viu errado.

E o velho colocou umas pedras na boca e mastigando, perdendo dentes disse:

- E não é que são jujubas mesmo!?
 

Template e imagens do layout por Wiliam Jose Koester.