Você sabe o endereço

por Monique Burigo Marin às 3:52 PM 3 comentários

Volte pra casa. Hoje tem bolo e diz na previsão do tempo que vai chover. Eu vou te esperar pra gente assistir um filme debaixo das cobertas enquanto o mundo desaba lá fora. A gente pode dormir na sala, se você quiser. E eu posso te fazer carinho até a sua consciência fechar os olhos.
Volte pra casa. Até a garrafa de refrigerante está esperando por você. Prometo não implicar com os seus vícios e manias. A gente pode cantar enquanto você dirige pra cá. E eu posso admitir que o meu armário precisa da sua ajuda tanto quanto eu.
Volte pra casa. Eu li todos os livros da minha estante. Fotografei todos os detalhes da cidade. Escrevi tudo o que havia pra escrever. E já não há mais nada que eu queira fazer, a não ser te ver chegar. 

Monique Burigo Marin

Distância Focal

por Monique Burigo Marin às 1:53 PM 2 comentários


Há dias em que minha vontade de estar perto de você é tão grande que saio por aí, a esmo, esperando sentir a sua presença em algum lugar. Qualquer um. Quando eu me canso e, finalmente me dou conta de que a sua presença está em toda parte, fecho os olhos e penso em você com tanta urgência que as imagens passam aceleradas pela minha cabeça e eu mal tenho tempo de focalizar você.
Você sempre esteve meio fora de foco, como se fosse pequeno demais para os meus olhos de peixe. E mesmo assim eu sempre insisti em olhar e me aproximar de você. Em tentar ver o que era impossível. E, por vezes, eu vi.

* Demorei pra descobrir que estava te observando com as objetivas erradas.

Monique Burigo Marin

Trilha Sonora

por Monique Burigo Marin às 2:42 PM 0 comentários


Fecho os olhos e vejo o teu reflexo na janela do bar, balançando os cabelos e a guitarra, como quem se desprende do mundo. Teus olhos profundos se fecham com força, me abandonam do lado de cá. Eu me isolo dentro de mim para te escutar melhor. Tua voz se propaga aqui dentro feito o vento que assovia entre os prédios.
Estico os braços para te tocar, mas você é tão intangível para mim quanto a música é para o surdo. Sinto a tua vibração nos meus ossos e no meu coração, mas você não me sente. Eu te atravesso como um fantasma. A música acaba. Nossos olhos se abrem depressa, como se de repente nossos sonhos se transformassem no mesmo pesadelo.
Eu te olho com meus olhos de Raio X e enxergo teus órgãos forrados por partituras. A música toca dentro de ti e, quando permites, ressoa. Amplifica. Tua caixa torácica é o lar de um milhão de notas musicais que saem pela tua boca em escala e depois voltam a nascer dentro de ti. Tua anatomia é incomum e atraente. Tua pele deveria ser translúcida.
Tento ler a partitura que te reveste e me descubro analfabeta. Teus códigos são difíceis de decifrar e, por isso, ainda mais interessantes. Tua voz oscila dentro de mim feito asas de borboleta. 

Monique Burigo Marin

(In)concretismo

por Monique Burigo Marin às 11:06 AM 0 comentários

Abstrai-se do concreto.
Descasca as paredes, fura o teto.

No teto, um céu de goteiras goteja aquarela.
O balde transforma em suco de frutas.

Da arte ela bebe sem filtro.
Sem filtração, sem frustrações.







Alguém vem e
cobre tudo com cimento.


Monique Burigo Marin

Epifania no café da tarde

por Monique Burigo Marin às 2:59 PM 3 comentários
   Você me atrai como a rachadura no copo de vidro atrai meus lábios: acidentalmente. Não ligo se me cortar, minha sede é maior que meu medo.


Monique Burigo Marin

Sem imagem (porque o sorriso nos teus olhos ficou sério quando eu te fotografei)

por Monique Burigo Marin às 2:30 AM 2 comentários
   Ela está sempre se escondendo – pensou ele – atrás de livros, no meio dos cabelos, embaixo do cobertor, dentro de si. Deve ser por isso que ela despreza o verão. Até o sorriso, tão bonito e raro, ela esconde com as mãos. Cobre os lábios, mas felizmente se esquece dos olhos. Os olhos contêm o pedaço mais bonito do sorriso.
   Quanto mais ela se esconde, tanto mais ele deseja encontrá-la, mas sua especialidade sempre foi perder. Perdeu-se em pensamentos pensando nela e o que ia dizer agora se escondeu também.

(aqui)

    Alegra-se toda vez que revela um centímetro dela, assim por acaso, quando ela se esquece do mundo. Seu corpo é um filme fotográfico trancado em uma sala escura. Essas coisas levam tempo. E do tempo dependem. Não abra a porta ainda.

Monique Burigo Marin
 

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