Explosivos

por Monique às 10:05 PM 8 comentários

O cenário é cinza e só. Até que uma garotinha aparece na cena – o cabelo rebelde, os olhos brilhantes, a boca cheia de açúcar, nas mãos um pacote de jujubas.
Ela imagina a rua e a rua aparece. Trás com ela a faixa de pedestres, dois carros coloridos que parecem de brinquedo, casinhas que parecem de bonecas e um desafio. – chegar ao outro lado. Ela nunca foi desafiada. A imagem congela, ela quer pensar. E Pensa, pensa e pensa... Não sabe como começar.
A imagem descongela sem que ela ordene. Alguém está falando, alguém está falando com ela. É um garoto de olhos cor de anis. Ele a fez uma pergunta, mas ela não ouviu. Ele repete pacientemente:
- Você quer ajuda para atravessar? – Ela faz que sim com a cabeça, ele a pega pela mão. As bochechas dela ganham cor, as pernas dela ganham vida. Direita, esquerda, direita, esquerda, dir... Terra firme. As mãos se soltam.
- Estou acostumado, sabe, a atravessar ruas. Você pega o jeito com o tempo. - diz ele.
- Obrigada... Quer uma jujuba? – ela lhe oferece o pacotinho.
- Posso pegar uma amarela?
- É claro que sim, as amarelas são minhas prediletas.
- Por que as quer compartilhar comigo então?
- Você vai entender depois que comer uma.
Ele havia aprendido que é arriscado aceitar guloseimas de estranhos. Mas soube sem saber como sabia que ela não lhe faria mal. Comeu. Houve uma explosão repentina... Alegria. Ele estava certo, ela estava certa também. Ele entendeu.
Ela deu uma risadinha abafada e surpreendeu-se logo depois. O cenário mudou completamente. Olá, outro planeta. Era a vez dele de imaginar. Imaginou um planeta pequeno, mas suficientemente grande para os dois. Fora de foco havia uma rosa protegida de sabe-se lá o que por uma redoma. Um pão de mel fosforescente nascia no horizonte, provavelmente era equivalente ao sol na Terra. Ela havia perdido o controle. Impedida como estava de imaginar, só observou...
Muito tempo se passou... Infinitos segundos de felicidade. Até que precisaram se despedir.
De volta à Terra, o sol estava se pondo por conta própria. Os pés tocaram a grama, os ventos da mudança sopraram sobre os dois. Observaram suas sombras: elas ainda estavam de mãos dadas.
Assim como jujubas amarelas ele lhe traz alegria. Às vezes a alegria é tanta que chega a doer. Precisa ser compartilhada. Já.

Monique.

A Confusão de Nós

por Monique às 5:17 PM 9 comentários

Essa garota pensa que me conhece. Um dia ela tropeçou nos próprios pés e eu a segurei, nos tornamos amigas imediatamente.
Ela é tão encantadora que atrai todos os olhares para si, estes a transpassam como se não fosse mais do que um espectro, e enxergam através dela... Os corpos atrás dela. Nunca, nunca dentro dela.
Essa garota ri como se a vida fosse uma piada repisada que no entanto nunca perde a graça. Mas eu sei, há sempre algo se revirando incomodamente em seu estômago. Um gato, afofando a almofada que nunca fica fofa o bastante, porque no fundo ele quer mesmo é um novelo de lã para enroscar-se todo e não ter mais escapatória.
Nunca sabe explicar o motivo que a faz sentir tanta paz em momentos de guerra quando uma criança sorri, nem a serenidade que sente quando ouve o barulho das ondas quebrando no mar, nem o que lhe invade quando sente cheiro de baunilha e recebe beijos com gosto doce de hortelã. Não precisa de motivos... é só.
Quando a alegria se instala ela abre e fecha mãos e olhos simultaneamente, querendo pegar e guardar cada milésimo, perpetuamente. Há outro truque que ela usa para guardar e recordar os bons momentos, mas esse ela não revela, é segredo deles.
Sente impulsos de abraçar bem apertado, de afagar os cabelos bagunçados na cabeça daquele garoto que sempre a faz sorrir. Ele é como óleo, desenferruja os músculos da face. Mas ela se contém... Sempre se contém, é o maior defeito dela.
Vez ou outra ela se cala, jura para si mesma que não falará, e não fala. Então o medo cresce, mas ela está decida a vencê-lo. Conta os dedos das mãos trêmulas sempre começando da direita para a esquerda, depois para. O coração se aquieta, o medo se torna covarde e foge dela. O medo tem mais medo dela do que ela tem medo do medo. Patético.
E nesses dias em que absolutamente tudo é silêncio, ela responde em pensamento – tola – eles não a podem ouvir. Partem sem saber. E ela pensa – adeus.
Essa garota é tão parecida comigo que às vezes não sei quem de nós é ela.



Monique.


ps:
os comentários estão logo abaixo do título :)

O despertar.

por Monique às 4:54 PM 9 comentários
Parecia ruim demais para ser verdade. E era.

Finalmente, Isabel despertou. Estava chorando involuntariamente. Mas, quando sentiu as mãos formigarem e viu as estrelas grudadas no teto as lágrimas cessaram. Deu alguns beliscões no próprio braço – só por precaução – e sentiu doer. Sorriu. Fora só um pesadelo, toda a dor era ilusão. A mulher morta e a isca também. Desde então, tudo se tornou mais doce.
Durante algum tempo esteve presa em um universo de amargura. Angustiada, lutava contra a própria mente. Agora ela se libertou. Está de volta. Mais feliz do que nunca.
Aprendeu até a cozinhar sem colocar fogo nos panos de louça, cresceu um centímetro, visitou um velho amigo, abriu as janelas e disse olá ao sol – ela sempre o detestara, mas isso estava mudando também.
Descalçou os sapatos e pisou na grama, sujou as roupas no barro e os pés nas poças de chuva. Lavou a alma. Entrou em casa e deixou pegadas.
Descobriu-se viva e colocou o som de Beatles no último volume para confirmar suas suspeitas de que isso voltaria a fazê-la sentir o coração bater ritmado, como a bateria. Sem dores de cabeça. Sem o medo e sem a vontade de fugir que o som alto lhe provocara tempos atrás. Tudo em sincronia.
Andam dizendo por aí que ela enlouqueceu. Que anda conversando com formigas e abraçando árvores, que cortou o lindo cabelo na altura dos ombros. – quando Isabel decide mudar, começa sempre pelo cabelo.
E em meio a sua loucura de ser feliz, só por um instante pensou que talvez, com a força do pensamento pudesse fazer alguém lembrar-se dela. Mas lembrar-se dos outros já lhe pareceu suficientemente bom.
Mal sabia ela, que alguém do outro lado da rua, atrás de uma janela, lembrou-se que atrás da janela dela estava ela. Aliás, ele lembrava disso o tempo todo, principalmente quando tocava gaita de boca e aguardava ansioso sua aparição.
Mal sabia ela, que a vida além de bela, estava apenas começando.


Monique.
 

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