Noctívago

por Monique Burigo Marin às 2:30 PM

   
   Como um inseto, você sobe pelos meus dedos. Leve. Lento. Objetivo. Rasteja sobre o meu corpo frio e desnudo a procura de um calor que não te pertence. Persegue meus lábios sem perceber que continuo imóvel, entorpecida. Provoca arrepios, mas não me entrego. Sou resistente como o seu desejo.
   Penso em te esmagar, em te soprar pra longe, em gritar por socorro. Mas aí você me morde e todos os pensamentos se perdem e se partem... A resistência também. Farelos de lembranças caem sobre a barriga – lar de borboletas imortais – e eu me pergunto quando foi a última vez em que senti meu corpo tremer assim.
   Você atravessa minha pele e envenena minha corrente sanguínea. Quebra meus ossos e confunde meu cérebro. Você me invade de um jeito maligno e ainda me arranca um sorriso dos lábios. Sorriso sádico.
   Os sentidos se misturam na sinestesia dos seus olhos. Minhas mãos desistem de te alcançar, já não te querem longe. Seu olfato fareja o sabor do medo se distanciando. Seu tato tateia meus poros e eles se fecham pra que você não se vá. Mas você se foi.

Monique Burigo Marin

3 comentários on "Noctívago"

Matt Córdoba on 29 de dezembro de 2012 15:58 disse...

Fez meus olhos correrem cada vez mais rápidos e ansiosos lendo seu texto. Parabéns!

Fernando Castro on 19 de janeiro de 2013 01:56 disse...

Eu já tinha lido esse texto e, apesar de tê-lo achado lindo, não tive o que comentar.
Agora eu tenho: LINDO!
E acabei de me dar conta que sempre relaciono os seus textos com os meus...
Ler-te continua a enriquecer meus sentimentos, Monique.
Um abraço.

Dan Arsky Lombardi on 6 de fevereiro de 2013 19:05 disse...

Eu gosto dessa invasão maligna que te domina. Gosto porque sei que ela que faz suas palavras pularem para o papel.

 

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