Teimosia

por Monique Burigo Marin às 2:24 PM

Imagem: Monique Burigo Marin e Wiliam Koester

   Não quero dormir, nem conversar. Só quero ficar aqui, quieta, no meu lado da cama, lembrando de que já foi simples sentir a felicidade percorrer meu corpo com seus dedos leves.  Era só acreditar, e acreditar também era simples. Acredita?
   Ainda me lembro das estratégias da infância. Ao deitar, levava para a cama minha redoma invisível e impenetrável. Protegida por ela, eu deixava as pálpebras esconderem o mundo exterior. Ora, já tinha vivido nele o dia todo, queria agora aproveitar as delícias do meu mundo inventado. Sem interrupções.
   A felicidade morava do lado de dentro, facilitava a construção dos sonhos. E se algum pensamento ruim chegasse para ameaçar, sorvete de flocos consertava tudo. Espantava até o calor das noites de verão.
   Às vezes minha redoma me levava para passear, adquiria forma de robô e caminhava leve pelos campos. Nas minhas fantasias, tudo levitava. Foi num desses passeios que ultrapassei meus limites, quis tornar o mundo imaginário tangível e pulei para fora da redoma. Então, o robô oxidou e eu fiquei presa do lado de fora. Hoje estou nua. Sobrevivo. Indefinidamente. Não tenho talento e nem vocação para o perigo, mas sou teimosa, e insisto.

Monique Burigo Marin

4 comentários on "Teimosia"

Iguimarães on 11 de dezembro de 2011 15:20 disse...

A suposta aspereza se derrete no sorvete de flocos

Usnave on 12 de dezembro de 2011 21:01 disse...

Crianças devem ser executadas a sangue frio. Por onde elas andam - espaço inagarrável - TUDO é perigo. Mate!

Dan Arsky Lombardi on 15 de dezembro de 2011 22:45 disse...

Não me importo que o tempo envelheça meu rosto e meu corpo, me deixe de cabelo branco e cheio das dores de ser velho, contanto que não envelheça o meu coração de criança. É a única coisa bonita que me resta.

feя. on 21 de janeiro de 2012 12:12 disse...

Ainda que não para o perigo, talento e vocação você tem de sobra. Tanto tempo sem vir aqui só podia me prender nessa overdose de Monique e, como sempre, eu só consigo me maravilhar mais e mais. Parabéns!
"...onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão." (Pedro Bial, sobre a infância - roubo essas palavras para falar da fantasia que é ler-te).
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