
Se ao menos ela pudesse dar-se ao luxo da incerteza. Não podia, o amava, era certo. Certo? Não, não, não. Era errado.
Monique.
Como olhos cansados as últimas luzes apagam. A cidade está adormecida. Posso ver e ouvir os sonhos da vizinhança, todos misturados causando confusão. O garotinho do andar de baixo recém puxou as cobertas mais para cima, são elas que fazem peso sobre o corpo para que ele não levite de entusiasmo.
Enquanto todos dormem, eu sussurro ao silêncio tudo o que não ouso dizer para mais ninguém. Ando pela casa no escuro. Meus passos são ecos, não cessam, seguem todas as direções compulsivamente. Gostam especialmente de voltar.
Tentei sonhar acordada e senti meu corpo correr e o vento bater no rosto. Enxerguei um campo repleto de sonhos compactados dentro de garrafas flutuantes de todos os formatos, ergui a rede feito Bob Esponja no campo de águas vivas, e cogitei capturar os sonhos de alguém. Não o fiz. Os sonhos dos outros não fazem sentido quando estão dentro de nós, assim como os nossos não fazem sentido quando estão dentro dos outros. Não somos receptáculos de sonhos.
Monique.
Quando finalmente entenderes as mensagens subliminares que te envio, terás descoberto o primeiro dos números infinitos do código de mim. É que sou assim, uma porção de dúvidas escondida em boas respostas. É que cada sorriso cerrado é para que os sentimentos não me saltem pela boca. É que cada rabisco feito no papel é para amenizar a ansiedade, e quase todas as minhas manias servem para distrair a solidão. É que tudo o que em mim é secreto eu guardo bem.
...Decodifica-me.
Monique.
Monique.
Tenho inúmeras manias esquisitas, entre elas está a de imaginar rostos jovens (ou nem tanto) envelhecidos. Não sei quando foi que a adquiri, mas desde então não consigo livrar-me dela.
Um dia, me olhando no espelho imaginei-me daqui a trinta anos. Realizada pessoalmente e profissionalmente; inseparável de meus instrumentos musicais, alguns livros publicados, situação financeira estável, família feliz. Rugas marcavam meu rosto, mas eu estava orgulhosa de cada uma delas.
Um vento frio e agradável entrou pela janela da sala, onde eu conversava animada com o homem que eu amaria até o fim da vida. Reciprocamente. E se o tempo me permitisse, provavelmente morreria amando um homem careca – engraçado pensar nele assim.
A lareira estava acesa, a mesa lateral acomodava diversos porta-retratos que continham fotos de momentos felizes, em alguns deles eu estivera no Japão. Meu eu adulto vestia algo confortável e divertido, tinha nas mãos quatro pares de meias recém passadas, prontas para serem imediatamente calçadas em um dia frio de outono.
Ao olhar pela janela vi minha irmã e meus sobrinhos, sorriam e acenavam ao passarem pelo portão. Meus dois filhos correram ao encontro deles, os copiei, e nos envolvemos em um abraço coletivo. Pouco depois, meu melhor amigo apareceu por lá. Seu cabelo estava diferente, mais curto, menos escuro, mas naquele momento eu soube – seu olhar seria o mesmo para sempre.
Ao observar o exterior de minha casa, descobri com alegria que ela era amarela. Havia um carro de modelo antigo na garagem, o jardim estava bem cuidado, e os portões eram fantásticos, cheios de curvas e desenhos. Folhas secas caídas no chão atribuíam à sensação gostosa de pisá-las e ouvir os sons. Ao fazer isso, a fantasia quebrou-se com as folhas. Pela metade, interrompida.
A imagem no espelho voltou a entrar em foco, e lá estava eu – trinta anos antes, nenhuma ruga, com o futuro nas mãos.
É fato, todos os que sobreviverem ficarão velhos. Os jovens envelhecem, os velhos continuam envelhecendo, e até as crianças têm rugas invisíveis no rosto – precoces em quase tudo. O mundo está amarelando, há páginas quase ilegíveis e cabe a nós conservá-lo.
Sei que sentirei falta do que ficará na lembrança. Então, que a vida se renove todo dia. Que o futuro seja pleno como nunca.
Monique.
Monique.
Tudo começou com mãos se tocando sem querer querendo, depois, um cafuné. Não que eu esteja surpresa, é sempre assim que o tudo começa e se expande dentro de mim. Mas, é claro que há os outros começos de que não me esqueço, nem menos importantes, nem mais surpreendentes.
E, há algo imutável. Um rosto insuportavelmente perfeito, aquele andar de quem não tem nada a perder, misturado ao quase-sorriso que se abre aos poucos e então reluz, sem cogitar a possibilidade de esquecer a profundeza do olhar daquele eterno garoto.
Ele tem a respiração mais suave que já ouvi, uma risada macia como veludo, pronuncia palavras que se tornam ecos, tem um bolso cheio de sonhos que chacoalham, e rugas de expressão invisíveis quando adormece. Eu queria dizer que amava vê-lo despertar, que era como vê-lo renascer - uma fênix azul, terrivelmente permanente.
Que droga de molduras eram aquelas nos olhos dele? Como se fosse necessário realçá-los ainda mais. Egoístas, como dois faróis de néon em uma noite escura. Como uma tempestade em uma tarde de verão.
Eu fico contornando aquele rosto até minhas mãos formigarem, até o sangue ter dificuldades para circular. Tentando decorá-lo para não esquecê-lo, tentando disfarçar que ainda não o sei de cor, de trás para frente, de ponta-cabeça, de olhos vendados. Sentindo a dor de vê-lo partir, sentindo o medo de que ele não retorne, sentindo o tudo se esvair... Derrotado.
Ele é um paradoxo cheio de cicatrizes, ligeiramente fora de alcance. Logo ali, dobrando a esquina, sua alma repousa em um banco solitário da pracinha, lendo livros com cara de lidos, com o coração pulsando na cabeça. Ele é uma farsa, uma ilusão de óptica, igualzinho a reticências seguidas de um ponto final.
Monique.
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