Vermelho Morto

por Monique Burigo Marin às 4:21 PM 2 comentários

 Imagem: Monique Burigo Marin

  Noite passada eu tive o pior pesadelo do ano: Eu não era eu e não ser eu me consumia.
  As pontas dos meus cabelos formavam cachos perfeitamente loiros. Vestia branco e era difícil distinguir tecido e pele. Eu era frágil. Porcelana.
  A casa, onde meu corpo caído estava, era clara. Tons de branco em toda parte. Elegância e delicadeza. Meu corpo no chão em pose de bailarina. Olhos abertos e frios deixavam entrar qualquer um que desejasse. Coloração abstrata.
  De repente, o líquido escarlate me fugiu dos lábios, espalhando seu cheiro fétido pelos cômodos. Impregnando as cortinas, os tapetes, os lençóis. Tingindo a pureza com sua agonia.  Perfurando a alma. Eternamente.
  Minha transformação estava concluída. A natureza humana não era mais que os cacos com os quais tentei golpear a fera – sem perceber que os cacos era eu. Sei que, no fundo, errei propositalmente. Eu também quis provar teu sangue e teus riscos.

Monique Burigo Marin

Vestígio

por Monique Burigo Marin às 10:35 PM 2 comentários
Imagem: Brian M. Viveros <3

Meu indicador tem uma nova cicatriz em espiral, por tua causa. É que acompanhei as formas disformes do teu cabelo e acabei ferida. Atravessei tua armadura sem dificuldades e estou começando a compreender o porquê: Ela foi vestida do avesso.

Eu que gosto de inventar, inventei palavras para a nossa linguagem averbal, mas nem mesmo o meu vocabulário inventado foi o bastante para preencher tanto silêncio. Desculpe se te observo com estas mãos que nada esquecem. É meu jeito de tentar te entender. Acho que até senti teu grito passar pelos poros e veias. Fique ao meu lado.

Tua cicatriz sem história não me deixa partir, nem ficar, nem dormir. Há uma promessa não feita que estou devendo.  Dissolve-se enquanto o tempo corre. Enquanto o tempo corre. O tempo corre... Corre! Antes que tuas pernas esqueçam como era andar antes de mim.


Monique Burigo Marin

Elemental

por Monique Burigo Marin às 8:41 PM 3 comentários

  Imagem: Marcela Bolívar

  Já não sei como mergulhar nos teus olhos. Temo derramar o meu cloro na tua água cristalina. Represei tua beleza durante muito tempo, mas agora, estás livre para escorregar em cachoeiras. As pedras são tua acolhida.
  O lençol freático com o qual construímos nosso lar ameaça cair. Se acontecer, nossa lanterna queima, os desenhos feitos de sombras vão embora ou aprendem a nadar.
  Você é água; eu sou terra e avisei: não adianta tentar semear em terra seca. Sem você, nada mais cresce em mim.

Monique Burigo Marin

SOBRE JUJUBAS E ELEFANTES MURCHOS

por Monique Burigo Marin às 12:20 PM 2 comentários

Texto e desenho retirados do blog Oitocentos Gritos Mudos, autoria do gritador Dan Arsky, cujas palavras povoam meus pensamentos constantemente. 



Uma colega de caneta, dessas que a gente não conhece pessoalmente, mas já leu uma verdadeira antologia de produções da pessoa, sempre soltava sua máxima: "Jujubas e Elefantes Murchos".
Ora, diabos, se estes elefantes estão murchos, por que não comem as jujubas?
Na verdade, eles comiam, mas as jujubas eram pedriscos e aqueles paquidermes eram daltônicos.

- Hey, Sr. Elefôncio! Estas jujubas são pedras, não está vendo?
- Para mim são jujubas, e muito saborosas!
- São pedras, sua besta! Veja!

Foi aí que o elefante murcho secou de vez. A epifania forçada lhe fez mal. A verdade doía como agulhas debaixo da unha.
Mas num dia de seca, olhou para as pedras e sorrindo as alcançou com a tromba.
O velho ranzinza, aquele epifanista magro e nojento, já gritou de longe:

- E falam da memória do elefante! Já te disse que são pedras! Pedras!
- Não são, são jujubas! - e seguiu comendo. E ainda de boca cheia complementou para o velho:
- Você que sempre viu errado.

E o velho colocou umas pedras na boca e mastigando, perdendo dentes disse:

- E não é que são jujubas mesmo!?

Clara.mente

por Monique Burigo Marin às 1:53 PM 3 comentários

Imagem: Kmye-chan 

  Amo teu lado obscuro de um jeito insensato. Quero conhecer o teu mundo do lado de dentro. Não temo tuas cordas ameaçando meu corpo. Há tempos fugi do teatro de marionetes.
  Não há por que vasculhar minha mente, meus olhos denunciam antes e mais claramente. Há uma porção de coisas sem explicação que vou varrendo para debaixo do meu próprio chão. O subterrâneo ficará pequeno para tanta falta.
 Despida de toda e qualquer armadura, entregue aos perigos do desconhecido, sozinha tentando tapar o sol com dedos pequenos. No final, quem morre sou eu.
  Enquanto isso, quero repousar no teu pensamento. Até entender esse medo de te perder para o passado, e de me perder entre as tuas lembranças até desaparecer.


Monique Burigo Marin

Mimetismo

por Monique Burigo Marin às 11:18 AM 4 comentários
Fotografia: MBM

  Tijolo é uma palavra feia. Estou rodeada delas neste lugar. Forram as paredes como ataduras. Firmes. Escondem a fragilidade do outro lado. Ninguém vê.
  Eu sou ninguém e me sento nesta cadeira que range a qualquer mínimo movimento. Tento brincar de estátua, fingir de morto, descansar os olhos. Aos quarenta anos ainda tento. Eu, que nunca consegui.
  Talvez eu deva abandonar os tijolos... Pois há dias sinto o coração solidificar, tentando a todo custo camuflar-se. Pulo a janela do segundo andar.
  As poças d’água são novos objetos de reflexão, literalmente falando. O rosto líquido e inexpressivo me encara sem entender. A poça vira onda e me engole. Inunda os cômodos. Desconstrói tudo que construí.

Monique Burigo Marin

Luzes da Cidade

por Monique Burigo Marin às 4:21 PM 14 comentários
Fotografia: Joanna

  Há um lugar aonde vou depois que o sol puxa o cobertor fresco de estrelas. De lá posso ver as luzes da cidade, que não são menos interessantes do que as luzes do céu. São apenas manias inocentes e incuráveis. Tente entender.
  É que sei que as luzes da cidade iluminam seu caminhar na volta para casa. Quando já estás cansado de todas as luzes do mundo e só o que precisas é deitar logo a cabeça na cama cheia de travesseiros.
  Então eu venho até aqui, apoio a cabeça nas mãos e procuro por você no meio dessa confusão. Aliás, hoje procurei por você o dia todo na rosa que guardei entre as páginas de algum livro meu. Ela não estava lá. Você não estava lá.
 Sinto saudades das suas manias de organizar do seu jeito a minha organização e acabar bagunçando tudo, sem intenção. Sinto falta da sua falta de cuidados com as coisas e do seu excesso de zelo para comigo. Sinto, às vezes, que estamos os dois em lados opostos do globo; e você está bem aqui, ao meu lado. Sinto saudades até dos seus batimentos cardíacos que sempre me deprimiam. Eles nunca deveriam parar.
  Então a cidade apaga. Abandona-me. Deixo minha luz acesa que é para não me perder também. Depois faço meu casulo com o edredom e cubro até a cabeça, pois quando tudo fica deserto assim, temo que os vazios preencham o mundo.

Monique Burigo Marin

Cacos

por Monique Burigo Marin às 5:44 AM 4 comentários
  Você tirou a toalha da mesa antes dos pratos. Tudo está caindo em câmera lenta desde às três e quarenta e oito da manhã. De ontem.

Monique Burigo Marin

Monocromático

por Monique Burigo Marin às 4:08 PM 10 comentários
  Ilustração: Beatriz 

  Tenho mania de inverter a ordem das coisas e sei que o teu sorriso em branco e preto jamais voltará a ter as cores que eu enxerguei. Você é meu ciclo. Minha inércia. Minha agonia. Você é a parte de mim que ainda amo. E está em tudo.
  Você está nas rugas que surgem a cada dia e na profundidade das olheiras que emolduram meus olhos. Está no desenho abstrato que eu fiz na janela embaçada do carro e também na luz que vem na contramão. Está na primeira estrela que imaginei nascendo no céu da minha boca e no pedido que ela recebe. Principalmente no pedido.
  Você está nestas palavras que sussurro, de olhos fechados, no meio da madrugada. É que quero que você acorde, mas você está hibernando há quilômetros de distância e não há nada que eu possa fazer. Mesmo assim, deixo um bilhete para quando você acordar. Se você acordar para mim algum dia.
  Só não quero mais passar as noites procurando pelas tuas mãos embaixo do meu travesseiro. Não enquanto elas não estiverem lá. Não enquanto você não quiser que elas estejam. Não enquanto você ignorar o quanto eu quero.
   Mas não importa. Foge do meu controle. Já estou amando tuas novas cores.

Monique Burigo Marin

Hipoglicemia

por Monique Burigo Marin às 5:20 PM 7 comentários

  Eu fui quebrando as portas como se quebrasse medos. Mas no fim das contas, só estava quebrando os ossos. E me diziam para ficar calma, e me diziam para estender o braço, e me pediam para não chorar. Quando eu desse por mim estaria feito.
  Todos diziam que eu não sentiria, sem saber que era esse meu medo maior. Só fiquei tranquila quando vi aqueles olhos. Olhos negros, quem diria. Tão bondosos. Usando agulhas para espantar meus medos. Mas não importava o quão fundo entrassem em minha carne, novas portas cresciam mais fortes. Mais altas. Mais intransponíveis. E eu ia percebendo que estava atravessando sozinha por dentro dos meus medos, guiada por uma loira sem sal.
  Enquanto eu pensava, ressentida, na ilusão da beleza interior, aqueles olhos iam ficando distantes... Mas ainda vigiavam minha consciência. Tiravam minha roupa, monitoravam meus batimentos, diziam que os pesadelos não poderiam me perturbar. Então, quando as luzes pararam sobre o meu corpo, já não me importava.  Eu estava entregue à minha última torta de brigadeiro preto com morangos. Sentindo a glicose correndo pelas veias. Até não sentir mais.

Monique Burigo Marin
 

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