Lado B

por Monique às 10:38 PM 6 comentários
Mãos quentes sempre é um sinal. Um mau sinal.
As vozes voltaram, eu não estou surpresa. Elas me falam de você. Fizeram promessas, cortaram os pulsos, sentiram cheiro de sangue. Subiram até o oitavo andar e saltaram gritando. Sobreviveram.
Estão aprendendo a sussurrar e isso é ainda pior. Intolerável o som da consciência em qualquer frequência. Desesperadamente procurando um lado B.

Monique.

Imaginário

por Monique às 4:39 PM 10 comentários

Sorri pra mim com esse teu sorriso de quem acabou de encontrar dinheiro nos bolsos da calça do inverno passado. Sorri e fica mudo. Teu sorriso sempre fala por ti.
Brinca comigo de "jogo do sério" que eu adoro ganhar. Mente dizendo que fiz careta, que sou trapaceira, que me beneficiei piscando durante um segundo longo demais. Pede revanche que eu concedo, mas ganho de novo. Até te deixar sem justificativas. Até tu admitires – pois é minha parte predileta – que não sabes me olhar sem sorrir. Sou muito, muito, muito engraçada.
Desenha página por página do meu bloquinho novo que precisei comprar porque rabiscaste no outro. Desenha aquela sequência tola do velho barbudo em uma canoa pescando botas no rio. Faz-me comprar outro, rabisca de novo. Pede desculpas e me presenteia com uma caixa de bloquinhos – só meus.
Respira com esse teu jeito de quem sente no ar, o tempo inteiro, cheiro de massinha de modelar. Diz-me que tenho cheiro de infância, que tens vontade de me apertar, que sou todas as cores ao mesmo tempo.
Acorda-me acendendo as luzes do quarto e atura com bom humor o meu mau humor até o fim do dia. No começo da noite ele passa. Passa porque eu canso de mim. Passa porque tu nunca cansas de mim.
Coloca a toalha na mesa e arruma os talheres no lado direito dos pratos enquanto eu tiro os biscoitos do forno. Conta uma piada sem graça no jantar de família que eu vou rir mesmo assim. Mesmo que ninguém entenda. Mesmo que eu odeie piadas.
Olha com esses teus olhos de abismo dentro dos meus, e me segura antes que eu caia. Emenda com um passo de dança. Ri enquanto resmunga alguns "ai meu pé".
Busca-me no trabalho e me leva para almoçar. Pede pro garçom dois sucos de morango e escreve no guardanapo algo bem clichê que dê a impressão de que nos apaixonamos ontem.
Só não se mude do meu balãozinho de pensamentos para um outro. Seja real para mim.

Monique.

Explosivos

por Monique às 10:05 PM 7 comentários

O cenário é cinza e só. Até que uma garotinha aparece na cena – o cabelo rebelde, os olhos brilhantes, a boca cheia de açúcar, nas mãos um pacote de jujubas.
Ela imagina a rua e a rua aparece. Trás com ela a faixa de pedestres, dois carros coloridos que parecem de brinquedo, casinhas que parecem de bonecas e um desafio. – chegar ao outro lado. Ela nunca foi desafiada. A imagem congela, ela quer pensar. E Pensa, pensa e pensa... Não sabe como começar.
A imagem descongela sem que ela ordene. Alguém está falando, alguém está falando com ela. É um garoto de olhos cor de anis. Ele a fez uma pergunta, mas ela não ouviu. Ele repete pacientemente:
- Você quer ajuda para atravessar? – Ela faz que sim com a cabeça, ele a pega pela mão. As bochechas dela ganham cor, as pernas dela ganham vida. Direita, esquerda, direita, esquerda, dir... Terra firme. As mãos se soltam.
- Estou acostumado, sabe, a atravessar ruas. Você pega o jeito com o tempo. - diz ele.
- Obrigada... Quer uma jujuba? – ela lhe oferece o pacotinho.
- Posso pegar uma amarela?
- É claro que sim, as amarelas são minhas prediletas.
- Por que as quer compartilhar comigo então?
- Você vai entender depois que comer uma.
Ele havia aprendido que é arriscado aceitar guloseimas de estranhos. Mas soube sem saber como sabia que ela não lhe faria mal. Comeu. Houve uma explosão repentina... Alegria. Ele estava certo, ela estava certa também. Ele entendeu.
Ela deu uma risadinha abafada e surpreendeu-se logo depois. O cenário mudou completamente. Olá, outro planeta. Era a vez dele de imaginar. Imaginou um planeta pequeno, mas suficientemente grande para os dois. Fora de foco havia uma rosa protegida de sabe-se lá o que por uma redoma. Um pão de mel fosforescente nascia no horizonte, provavelmente era equivalente ao sol na Terra. Ela havia perdido o controle. Impedida como estava de imaginar, só observou...
Muito tempo se passou... Infinitos segundos de felicidade. Até que precisaram se despedir.
De volta à Terra, o sol estava se pondo por conta própria. Os pés tocaram a grama, os ventos da mudança sopraram sobre os dois. Observaram suas sombras: elas ainda estavam de mãos dadas.
Assim como jujubas amarelas ele lhe traz alegria. Às vezes a alegria é tanta que chega a doer. Precisa ser compartilhada. Já.

Monique.

A Confusão de Nós

por Monique às 5:17 PM 9 comentários

Essa garota pensa que me conhece. Um dia ela tropeçou nos próprios pés e eu a segurei, nos tornamos amigas imediatamente.
Ela é tão encantadora que atrai todos os olhares para si, estes a transpassam como se não fosse mais do que um espectro, e enxergam através dela... Os corpos atrás dela. Nunca, nunca dentro dela.
Essa garota ri como se a vida fosse uma piada repisada que no entanto nunca perde a graça. Mas eu sei, há sempre algo se revirando incomodamente em seu estômago. Um gato, afofando a almofada que nunca fica fofa o bastante, porque no fundo ele quer mesmo é um novelo de lã para enroscar-se todo e não ter mais escapatória.
Nunca sabe explicar o motivo que a faz sentir tanta paz em momentos de guerra quando uma criança sorri, nem a serenidade que sente quando ouve o barulho das ondas quebrando no mar, nem o que lhe invade quando sente cheiro de baunilha e recebe beijos com gosto doce de hortelã. Não precisa de motivos... é só.
Quando a alegria se instala ela abre e fecha mãos e olhos simultaneamente, querendo pegar e guardar cada milésimo, perpetuamente. Há outro truque que ela usa para guardar e recordar os bons momentos, mas esse ela não revela, é segredo deles.
Sente impulsos de abraçar bem apertado, de afagar os cabelos bagunçados na cabeça daquele garoto que sempre a faz sorrir. Ele é como óleo, desenferruja os músculos da face. Mas ela se contém... Sempre se contém, é o maior defeito dela.
Vez ou outra ela se cala, jura para si mesma que não falará, e não fala. Então o medo cresce, mas ela está decida a vencê-lo. Conta os dedos das mãos trêmulas sempre começando da direita para a esquerda, depois para. O coração se aquieta, o medo se torna covarde e foge dela. O medo tem mais medo dela do que ela tem medo do medo. Patético.
E nesses dias em que absolutamente tudo é silêncio, ela responde em pensamento – tola – eles não a podem ouvir. Partem sem saber. E ela pensa – adeus.
Essa garota é tão parecida comigo que às vezes não sei quem de nós é ela.



Monique.


ps:
os comentários estão logo abaixo do título :)

O despertar.

por Monique às 4:54 PM 9 comentários
Parecia ruim demais para ser verdade. E era.

Finalmente, Isabel despertou. Estava chorando involuntariamente. Mas, quando sentiu as mãos formigarem e viu as estrelas grudadas no teto as lágrimas cessaram. Deu alguns beliscões no próprio braço – só por precaução – e sentiu doer. Sorriu. Fora só um pesadelo, toda a dor era ilusão. A mulher morta e a isca também. Desde então, tudo se tornou mais doce.
Durante algum tempo esteve presa em um universo de amargura. Angustiada, lutava contra a própria mente. Agora ela se libertou. Está de volta. Mais feliz do que nunca.
Aprendeu até a cozinhar sem colocar fogo nos panos de louça, cresceu um centímetro, visitou um velho amigo, abriu as janelas e disse olá ao sol – ela sempre o detestara, mas isso estava mudando também.
Descalçou os sapatos e pisou na grama, sujou as roupas no barro e os pés nas poças de chuva. Lavou a alma. Entrou em casa e deixou pegadas.
Descobriu-se viva e colocou o som de Beatles no último volume para confirmar suas suspeitas de que isso voltaria a fazê-la sentir o coração bater ritmado, como a bateria. Sem dores de cabeça. Sem o medo e sem a vontade de fugir que o som alto lhe provocara tempos atrás. Tudo em sincronia.
Andam dizendo por aí que ela enlouqueceu. Que anda conversando com formigas e abraçando árvores, que cortou o lindo cabelo na altura dos ombros. – quando Isabel decide mudar, começa sempre pelo cabelo.
E em meio a sua loucura de ser feliz, só por um instante pensou que talvez, com a força do pensamento pudesse fazer alguém lembrar-se dela. Mas lembrar-se dos outros já lhe pareceu suficientemente bom.
Mal sabia ela, que alguém do outro lado da rua, atrás de uma janela, lembrou-se que atrás da janela dela estava ela. Aliás, ele lembrava disso o tempo todo, principalmente quando tocava gaita de boca e aguardava ansioso sua aparição.
Mal sabia ela, que a vida além de bela, estava apenas começando.


Monique.

A Isca

por Monique às 12:54 PM 6 comentários

Foi aterrorizante estar ali; naquela praça no centro da cidade onde todas as flores estavam desbotadas, onde o silêncio doía e o vento cortava. Mas o pior, estava por vir.
Vi pessoas descascando igualzinho a papéis de parede envelhecidos. Revelando as imperfeições que escondiam. Tudo exposto. Uma delas tentava colar as partes que se desprendiam da testa, outro gritava, alguns xingavam, e todos tinham no rosto a mesma expressão de desespero.
Os bancos estavam cheios, as pessoas esforçavam-se para não se tocarem, percebi que não tinham escolha senão sentar e tentar entender, e tentar impedir, e tentar aceitar. Algumas resistiam bravamente caladas - talvez estas já tivessem aceitado.
Percebi então uma garotinha que tremia e escondia o rosto nas mãos, o vestido estava rasgado e como tudo naquele lugar estava desbotado, cinza, descascando. Senti um impulso repentino de abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Quis fugir levando-a nos braços. Ela era diferente, suas imperfeições eram perfeitas. Havia cor no cinza do corpo dela, eu sei.
Tentei me aproximar, mas não pude. Meus pés colaram no chão. Talvez fosse tarde demais. Quando dei por mim havia um garoto tocando minha mão esquerda. Branco e frio como a morte. Era diferente também, tinha passos firmes e nunca sentaria. Olhar vazio. Ele sorriu um sorriso triste e eu o abracei. Certamente era tarde demais.
Senti meu corpo mudar, a imagem provavelmente foi semelhante à morte de uma lula gigante. Perdendo a cor, perdendo a vida. Fisgada por uma falsa impressão.


Monique.

Que seja pleno o que será.

por Monique às 3:42 PM 6 comentários

Tenho inúmeras manias esquisitas, entre elas está a de imaginar rostos jovens (ou nem tanto) envelhecidos. Não sei quando foi que a adquiri, mas desde então não consigo livrar-me dela.
Um dia, me olhando no espelho imaginei-me daqui a trinta anos. Realizada pessoalmente e profissionalmente; inseparável de meus instrumentos musicais, alguns livros publicados, situação financeira estável, família feliz. Rugas marcavam meu rosto, mas eu estava orgulhosa de cada uma delas.
Um vento frio e agradável entrou pela janela da sala, onde eu conversava animada com o homem que eu amaria até o fim da vida. Reciprocamente. E se o tempo me permitisse, provavelmente morreria amando um homem careca – engraçado pensar nele assim.
A lareira estava acesa, a mesa lateral acomodava diversos porta-retratos que continham fotos de momentos felizes, em alguns deles eu estivera no Japão. Meu eu adulto vestia algo confortável e divertido, tinha nas mãos quatro pares de meias recém passadas, prontas para serem imediatamente calçadas em um dia frio de outono.
Ao olhar pela janela vi minha irmã e meus sobrinhos, sorriam e acenavam ao passarem pelo portão. Meus dois filhos correram ao encontro deles, os copiei, e nos envolvemos em um abraço coletivo. Pouco depois, meu melhor amigo apareceu por lá. Seu cabelo estava diferente, mais curto, menos escuro, mas naquele momento eu soube – seu olhar seria o mesmo para sempre.
Ao observar o exterior de minha casa, descobri com alegria que ela era amarela. Havia um carro de modelo antigo na garagem, o jardim estava bem cuidado, e os portões eram fantásticos, cheios de curvas e desenhos. Folhas secas caídas no chão atribuíam à sensação gostosa de pisá-las e ouvir os sons. Ao fazer isso, a fantasia quebrou-se com as folhas. Pela metade, interrompida.
A imagem no espelho voltou a entrar em foco, e lá estava eu – trinta anos antes, nenhuma ruga, com o futuro nas mãos.

É fato, todos os que sobreviverem ficarão velhos. Os jovens envelhecem, os velhos continuam envelhecendo, e até as crianças têm rugas invisíveis no rosto – precoces em quase tudo. O mundo está amarelando, há páginas quase ilegíveis e cabe a nós conservá-lo.
Sei que sentirei falta do que ficará na lembrança. Então, que a vida se renove todo dia. Que o futuro seja pleno como nunca.

Monique.

por Monique às 9:24 PM 10 comentários
Eu vi uma mulher morta. É verdade, as pessoas morrem o tempo todo, mas aquela estava caída perto demais. Ela parecia uma boneca de pano com olhos injetados, braços contorcidos e cabelos enrolados. Deveria estar sendo embalada, mas acabara de ser descartada - para sempre.

Monique...

Da Janela

por Monique às 3:44 PM 11 comentários

Isabel acordou cedo demais em pleno sábado, não conseguia dormir. Ela adorava pássaros e suas canções, mas naquele dia eles a estavam enlouquecendo. Decidiu abrir a janela e caçá-los. Encontrou um ou dois empoleirados em um galho esguio da árvore do vizinho. O vento soprou, a árvore balançou e os passarinhos voaram. Ela percebeu então que aquele era o mesmo galho que cutucava sua janela quando ventava, a criança dentro dela perdeu o medo de monstros e sorriu. Era só a natureza.
A garota ficou ali parada até que o céu se transformasse de um cinza escuro em um azul celeste. A luz invadiu seus olhos, ela sentiu-se subitamente cega e decidiu afastar-se. Fechou as cortinas, mas manteve a janela aberta. Era assim que ela gostava.
Foi então que escutou o som. Era uma harmonia macia que parecia ecoar em alto-falantes espalhados pela casa, deixou-se contagiar, deitou na cama e seus pensamentos voaram... Voaram... E voaram.
Pouco depois se levantou e olhou pela janela, no lado oposto da rua havia um garoto. Dentro de uma casa amarela, atrás de outra janela, ele tocava gaita de boca. Na verdade, ele sabia apenas quatro notas, mas isso não era importante. A harmonia cessou. Ela entristeceu. O garoto sem nome surpreendeu-se ao vê-la e corou. Ela não percebeu. Simultaneamente os dois fecharam as janelas.
Naquele dia multicolor algo se agitava dentro dela - borboletas no estômago.
Um imã invisível a atraiu para a rua banhada de sol e entulhada de carros e fumaça. Ela abriu a porta da frente, desceu os três degraus que a levavam ao jardim saltitando. Olhou em volta, tornou a ouvir a harmonia. O magnetismo enfraqueceu, desistiu da rua e deitou-se na grama, viu as nuvens mudarem de forma - uma gaita, notas musicais, uma janela e um olho azul que piscava. Por fim, ela sorriu com serenidade e as borboletas voaram.


Monique.

Chuva de Palavras

por Monique às 12:47 PM 16 comentários

Foi engraçado mesmo, estarmos ali nos olhando sem nada dizer, a metros de distância, nos tocando com o pensamento. Estava frio, o céu tinha cor de cimento, mas não queria chover, não para nós.
É um pouco estranho, e é tão normal ser quem se é. Você viu o que quis de mim, eu vi o que quis de você, e então descobrimos tudo o que não queríamos e nos despedaçamos em uma brincadeira de bem-me-quer-mal-me-quer.
Haviam correntes nos mantendo afastados, mas finalmente fomos mais fortes do que elas. E corremos em direções opostas até os corpos se recomporem em um abraço apertado. Eu não conseguia respirar, e eu não poderia ter me importado menos.
As nuvens se moveram no céu, eu senti as gotas, uma chuva de palavras falava por nós o que não poderíamos dizer. Nossos rostos adquiriam expressão. Você sorriu, eu ri, a felicidade era óbvia. Mas não sabíamos até quando.
Enfim, a paisagem ao nosso redor materializou-se, pudemos ver os sapatos molhados e as janelas se fechando. Ouvimos o plic-ploc da chuva, os passos apressados e o som dos nossos corações batendo como um só. Era a melhor música que já ouvi. Até as folhas dançavam...
Um arco-íris fugiu dos seus olhos e apareceu no céu, o transformamos em escorregador e escorregamos até a profundeza de nossos sonhos. Nunca mais fomos vistos na superfície.


Monique.
 

Template e imagens do layout por Wiliam Jose Koester.