
Parecia ruim demais para ser verdade. E era.
Finalmente, Isabel despertou. Estava chorando involuntariamente. Mas, quando sentiu as mãos formigarem e viu as estrelas grudadas no teto as lágrimas cessaram. Deu alguns beliscões no próprio braço – só por precaução – e sentiu doer. Sorriu. Fora só um pesadelo, toda a dor era ilusão. A mulher morta e a isca também. Desde então, tudo se tornou mais doce.
Durante algum tempo esteve presa em um universo de amargura. Angustiada, lutava contra a própria mente. Agora ela se libertou. Está de volta. Mais feliz do que nunca.
Aprendeu até a cozinhar sem colocar fogo nos panos de louça, cresceu um centímetro, visitou um velho amigo, abriu as janelas e disse olá ao sol – ela sempre o detestara, mas isso estava mudando também.
Descalçou os sapatos e pisou na grama, sujou as roupas no barro e os pés nas poças de chuva. Lavou a alma. Entrou em casa e deixou pegadas.
Descobriu-se viva e colocou o som de Beatles no último volume para confirmar suas suspeitas de que isso voltaria a fazê-la sentir o coração bater ritmado, como a bateria. Sem dores de cabeça. Sem o medo e sem a vontade de fugir que o som alto lhe provocara tempos atrás. Tudo em sincronia.
Andam dizendo por aí que ela enlouqueceu. Que anda conversando com formigas e abraçando árvores, que cortou o lindo cabelo na altura dos ombros. – quando Isabel decide mudar, começa sempre pelo cabelo.
E em meio a sua loucura de ser feliz, só por um instante pensou que talvez, com a força do pensamento pudesse fazer alguém lembrar-se dela. Mas lembrar-se dos outros já lhe pareceu suficientemente bom.
Mal sabia ela, que alguém do outro lado da rua, atrás de uma janela, lembrou-se que atrás da janela dela estava ela. Aliás, ele lembrava disso o tempo todo, principalmente quando tocava gaita de boca e aguardava ansioso sua aparição.
Mal sabia ela, que a vida além de bela, estava apenas começando.