Consequência
Tenho medo de sair de casa e encontrar você. Tenho medo de sair de casa e não te encontrar. Pela rua, seus olhos me sorriem em rostos estranhos. Seus passos me seguem na direção errada. É que eu deixei pistas falsas pelo caminho. Sinto muito. Pensei que eu estivesse lá, mas eu não estava. Pensei que eu estivesse aqui, mas não.
Eu ando precisando esquecer de tudo isso que a gente não foi juntos. Do seu jeito de conversar comigo dentro de ti. Desta minha mania de querer te escutar, de querer te entender, de querer viver pra sempre aí dentro. Eu ando.
Quem me vê passar, assim despreocupada, não me reconhece. Não vê, no meu jeito de andar, os buracos e as pedras e as guerras que enfrentei. Não vê porque a juventude oculta a alma em decomposição. E quem me vê andar, assim leve, não imagina o peso que é carregar você no pensamento.
Eu estou contigo, e não vou embora. Nem que pra isso eu tenha que ficar sem mim.
Monique Burigo Marin
Albinismo
O nascer do
sol é uma criança maldosa que nunca envelhece. Nasce rasgando a cortina e o
silêncio. Revela os segredos que eu jamais quis. Ilumina entre os destroços teu
nome: nítido como uma flor no asfalto, resistente como o próprio asfalto. Este inferno é o mesmo todos os dias. O sol
manchando minha pele – e minhas convicções. Rotina. Minha retina exposta encara
minha solidão.
À luz do dia,
revivo teus dedos pesados tocando delicadamente meu rosto. Meus lábios. Minha
alma. Tuas unhas querem distância dos teus dentes, mas a distância não existe. Tua
pele tem o gosto das lágrimas que não derramamos. Teu cabelo é a floresta
escura onde eu me perco. Teus braços oferecem abraços irrecusáveis, abraços que
são como deitar na própria cama depois de anos insone.
Vi tua pupila
crescer junto com a tua necessidade de mim. Mas eu jamais serei tua. Nós jamais
seremos. E antes que eu me entregue, meus dedos leves encontram uma brecha na
tua armadura, perfuram tua pele, removem teus órgãos vitais. Já não sei como
acabar com esta maldita agonia.
Ontem eu fui embora da tua vida, mas cometi o
erro de olhar pra trás. Pra te esquecer, preciso dar sonífero pra essa coisa
que você desperta em mim, cada dia uma dose maior e mais forte.
Monique Burigo Marin
245
Que bom que
você está aqui. Preciso te contar que atravessei meu peito com a faca de
churrasco – prometa nunca mais usar uma. Desculpe se manchei o tapete, o sofá,
as almofadas, a parede. Meu sangue deve estar por toda parte. Eu sempre fui
incompatível mesmo.
Desculpe por toda a bagunça que eu deixei. Mas
já estava na hora de trocar a mobília. Já estava mais do que na hora de
seguirmos em frente. Tive uma overdose de Elliott Smith e tomei coragem. Não
estou arrependida, nada pode ser pior que este lugar. Por favor, não se culpe. Nem
o seu amor poderia me salvar de mim. A sensação da lâmina fria perfurando a
pele foi a melhor que tive em anos.
“Been pushed away and I'll never go back”
Monique Burigo Marin
É isto
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| Imagem: Monique Burigo Marin |
Felicidade é ver nossas toalhas
enfileiradas feito sorvete Napolitano. É olhar pela janela e te ver chegar,
fazendo florescer as flores do jardim, que eu desajeitadamente plantei.
Felicidade é estarmos juntos, mesmo que longe das flores. É aspirar o próprio
aroma na pele do outro, como se fosse um frasco cheio da mais incrível criação
de Grenoille. E, no entanto, consumir o outro sem reduzi-lo.
Felicidade é descascar tomates
enquanto você me beija. É gelo que você conduz com as mãos em chama sobre a minha
pele. É o hálito fresco fugindo dos teus lábios para a minha nuca. É o contato
que nos funde num único ser e o som que pulsa cada vez mais forte, cada vez
mais rápido.
Felicidade é embaçar as lentes
dos teus óculos. É ver tua íris de corredeira congelada descongelar na
primavera, produzindo energia suficiente para abastecer o nosso mundo para
sempre. E sempre que você fechar os olhos, eu espero que o mundo seja bonito do
lado de lá.
Felicidade é a cortina da tua
janela fazendo tatuagens no corpo da gente. É a atração que a tua escova de
dente tem pela minha, e vice-versa. É a vibração das nossas guitarras – e dos
nossos corações – em sincronia. É encontrar as tuas pantufas no meu armário.
Felicidade é saber que você escuta as minhas palavras não ditas. São os nossos passos no silêncio. São as tuas mãos aquecendo as minhas. E todas as coisas que ainda faremos juntos.
Felicidade
é dividir contigo o cobertor e a vida.
Monique Burigo Marin
Alô?
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| Imagem: Monique Burigo Marin |
Esta cidade é vazia sem vocês. Até minha casa ficou mais
triste. Não há mais disputas para limpar a mesa, nem pelo último pedaço de
pizza. Os lixeiros automáticos não me obedecem mais – por outro lado, o
elevador ficou obediente. O sofá da sala ficou um tempo na sacada e depois se
foi também.
Sem vocês, esse mundo é mais imundo. Aqui, as borboletas não
saem do casulo, assim como eu. Nos estacionamentos, só restou fumaça. As
árvores e o mar se escondem no concreto. Aqui, não há mais piqueniques. A vizinhança
está cada vez mais vazia – até a poesia abandonou as casas abandonas. Sinto falta da música, da
música e do seu sorriso de ponto e vírgula, do seu sorriso e do meu sorriso que
sorria para os seus. Sinto saudades do contraste que éramos juntos. Da nossa
unidade.
Tem noites em que fico pensando na gente e a saudade derrama
lágrimas pelo travesseiro, lágrimas que ainda estão molhadas pela manhã. A
distância faz o tempo parecer mais longo. Faz o elo parecer mais frágil. Faz a
lembrança parecer mais distante também, como se tudo tivesse acontecido numa
outra vida.
Eu estou ficando cada vez mais velha, e faz tempo que não
dou uma de mãe, que não ligo assim que nos despedimos, só para me certificar de
que tudo está bem – mesmo que não. Essa despedida parece não ter fim. Os
telefones estão fora de área.
Monique Burigo Marin
Obrigada
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| Imagem: Monique Burigo Marin |
Pensei em escrever sobre o teu jeito de desenhar sorrisos
dentro de mim, nesses dias em que estou morta por causa dos tantos outros que
se passaram. Pensei até em te contar, mas sei que te assustaria. E, de qualquer modo,
meu silêncio contém pensamentos que não consigo decifrar, passeiam pelo teu
caderno e por lá ficam, sorrindo sorrisos de desenho animado.
Eu poderia escrever uma porção – e uma porção é o tamanho
ideal para tudo, sabia? – de histórias para os teus personagens assimétricos,
mas tenho medo de acabar distorcendo tudo. Eu queria saber descrever aquele
olhar ensolarado que você soube desenhar, mas para alguém como
eu, o sol chora gotas de chuva.
Eu só queria, enfim,
te agradecer por colorir com hidrocor esses dias secos e opacos, além de apagar
as bigornas que ameaçam cair sobre mim. São inúteis, eu já não posso ser
moldada – Estou pronta. E torta.
Monique Burigo Marin
Expiração
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| Imagem: Monique Burigo Marin |
Melhor eu permanecer isolada neste aquário, como um Beta de
hábitos solitários. Como uma mancha de tinta diluída. Melhor você não tentar
respirar no meu mundo, ele te sufocaria como um saco plástico. Mantenha
distância. Quero teus pulmões cheios de ar, não de água.
Monique Burigo Marin
Muito prazer
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| Imagem: Monique Burigo Marin |
Você desconhece a minha vontade de ter os pés descalços
sobre a grama, viver entre as árvores, fluir como líquido pelas corredeiras.
Desconhece meu ódio ao ver os animais condenados no campo e minha vontade de
inverter os papéis. Quero aprisionar os responsáveis com arame farpado.
Você desconhece esse meu lado cigano, esse meu lado
bucólico, esse meu lado rebelde. Não crê na minha força por culpa da minha
aparência frágil. Você nunca olhou, verdadeiramente, dentro dos meus olhos.
Nunca viu a mulher atrás do rosto infantil. Aliás, você sempre esteve olhando para outro lado.
A flor que caiu ontem daquela árvore, era eu. Eu, que um dia quis viver entre as páginas do seu livro empoeirado.
Monique Burigo Marin
Retalho
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| Imagem: Brian M. Viveros |
Não pense que te esqueci. Eu prometi: não esquecerei, nem
poderia. Se me afasto, é porque te quero bem. Não desejo quebrar sequer um fio de
cabelo teu. E agora, quando penso nos teus cachos caídos sobre os olhos, sei
que não me cabe afastá-los, porque tenho mãos de tesoura.
Mas, querido, se precisar de retalhos para remendar os
estragos, eu providencio imediatamente.
Monique Burigo Marin
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