Albinismo

por Monique Burigo Marin às 10:00 PM


O nascer do sol é uma criança maldosa que nunca envelhece. Nasce rasgando a cortina e o silêncio. Revela os segredos que eu jamais quis. Ilumina entre os destroços teu nome: nítido como uma flor no asfalto, resistente como o próprio asfalto.  Este inferno é o mesmo todos os dias. O sol manchando minha pele – e minhas convicções. Rotina. Minha retina exposta encara minha solidão.
À luz do dia, revivo teus dedos pesados tocando delicadamente meu rosto. Meus lábios. Minha alma. Tuas unhas querem distância dos teus dentes, mas a distância não existe. Tua pele tem o gosto das lágrimas que não derramamos. Teu cabelo é a floresta escura onde eu me perco. Teus braços oferecem abraços irrecusáveis, abraços que são como deitar na própria cama depois de anos insone.
Vi tua pupila crescer junto com a tua necessidade de mim. Mas eu jamais serei tua. Nós jamais seremos. E antes que eu me entregue, meus dedos leves encontram uma brecha na tua armadura, perfuram tua pele, removem teus órgãos vitais. Já não sei como acabar com esta maldita agonia.
 Ontem eu fui embora da tua vida, mas cometi o erro de olhar pra trás. Pra te esquecer, preciso dar sonífero pra essa coisa que você desperta em mim, cada dia uma dose maior e mais forte.

Monique Burigo Marin

8 comentários on "Albinismo"

Lika on 8 de junho de 2012 22:24 disse...

Seus textos são sempre lindos!!!! Tantos já serviram de inspiração para mim e não acho que esse vá ser diferente! teu blog é o meu favorito! =)

Dan Arsky Lombardi on 14 de junho de 2012 17:19 disse...

Sonífero não serve, ou damos veneno, ou nada. Mata de uma vez.


“Sem muita idéia.
Traz esse bicho aqui.
Traz ele vivo que eu quero comê-lo gritando.
Grudar meus dentes na jugular.
Arrancar as tripas com os dedos.
Me traz esse bicho agora.
Quero misturar a saliva de minha boca com seu sangue.
Quero que a sujeira de meus dentes infeccione sua alma.
Me traz esse demônio desgraçado.
Vou cortar as porras de suas pernas
Me deixa esmagar com as mãos, sentir explodir e escorrer pelos braços.
Preciso disso.
Me deixa acabar com ele.
Me deixa engolir e cuspir.
Deixa mostrar pra esse filho de uma puta quem manda aqui porra.
Deixa fazer sentir toda força desse vazio.
Todo desespero de um homem num ponto perdido dentro da casca de um corpo que navega a meia noite num barquinho no breu de um oceano sem fim.
Me traz esse bicho Amor.
Quero acabar com ele.
Quero parar a dor.”

do livro
O DIABO SEMPRE VEM PRA MAIS UM DRINK - Nene Altro

Dan Arsky Lombardi on 14 de junho de 2012 17:20 disse...

A propósito, música muito boa. Gostei de como mudou a forma de ler o texto.

gui on 16 de junho de 2012 20:30 disse...

só lembrando que sonífero demais também mata. (sendo essa a intenção ou não).

Iguimarães on 18 de junho de 2012 23:29 disse...

O sol é legal, o problema é olhar para trás,e nunca mais vê-lo.

RITA PACHECO on 25 de junho de 2012 00:41 disse...

Adorei seu blog!
Visite-me!!!
Bj
RITA
Www.olharesedetalhes.blogspot.com

RITA PACHECO on 25 de junho de 2012 00:41 disse...

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Kênnia Méleus on 24 de julho de 2012 00:06 disse...

A despeito de outros talentos (habilidades, dons, aptidões ou whatever) que possua, atrevo-me a dizer que você nasceu para escrever, escrever e encantar.

 

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