Pedra, Papel e Tesoura.

por Monique Burigo Marin às 4:48 AM 8 comentários
Imagem: Elsa Mora


Sei que você não sabe e nem quer saber quantas vezes desejei encontrar-te no meio das suas reflexões. Eu ficaria quieta, invisível, observando de longe para não atrapalhar. Prometo.
Eu queria tanto conhecer o seu sorriso e presenciar os seus momentos de inspiração e abrir as janelas da casa para libertar a fumaça dos cigarros que eu jogaria fora. Eu queria até aturar a sua fúria e aprender a tolerar os seus vícios que um dia vão acabar matando você.
Eu queria, mais do que tudo, poder salvá-lo. Mas não tenho forças nem para fazer curativos nos joelhos que eu ralei. Eu não vou me curar. Nem você. A gente vai acabar morrendo de overdose e ninguém nunca mais duvidará da nossa química.
Eu tenho medo das suas histórias e frases e palavras, de cada sílaba. Veio para atormentar-me a vida, preenchendo a minha insônia com sua presença. Talvez algum dia, alguém encontre os nossos manuscritos espalhados pela casa abandonada e queira nos ressuscitar.
Eu preciso, urgentemente, recuperar a segurança dos meus vazios e manhãs mal humoradas. Trazer de volta a sanidade dos meus sentimentos.
É tudo em vão, meu amor. Mas no vão das coisas cotidianas eu sei que nos preencheríamos. E que a presença do outro seria a certeza de que ainda há algo pra viver.
Minhas mentiras ruins não toleram a verdade: sou objeto do seu verbo, eu nunca soube conjugar. A sua presença é o que me falta agora. É o que me falta sempre. E se o seu sorriso parar de sorrir pra mim, meu bem, eu nem sei.


... Sei que esse amor de papel não durará. Somos como tesouras que tiraram férias.

Monique Burigo Marin

Pixels

por Monique Burigo Marin às 3:43 AM 7 comentários
                                                                 Ilustração: Vanesa Aguilar
Você é tão calada, Karen. Isso me enche de pensamentos malucos que me fazem gostar ainda mais de você.
Eu também gosto do som das ondas quebrando no mar. Faz com que eu pense na insignificância de uma lágrima. Sei que para você as coisas desse mundo não fazem sentido, mas quando vejo o mar, existe algo que diz – e tem a voz do Renato Russo – que a vida continua e se entregar é uma bobagem.
Você é tão cheia de pixels, Karen. Os outros mortais acham estranho eu achar isso atraente. Mas não há alguém de carne e osso mais bonita na face da terra. Eles não vêm isso: sua beleza é tão maior do que seus pixels!

Monique Burigo Marin

Soma

por Monique Burigo Marin às 10:57 PM 7 comentários
Ilustração: Odessa Sawyer
A insônia é concreto tapando o sol que insiste em nascer todas as manhãs. Poupa-me do sofrimento que é adormecer em mãos inimigas. Mas ela é vencida pela fadiga das tardes cheias.  É má perdedora e volta depois que o sol se põe.
A insônia é fria e inaconchegável. Digna de palavras novas que nunca deveriam nascer. É posição impossível de encontrar. Sensação de que se está envelhecendo rápido demais.
A insônia é cheia de silêncios criativos. Inventa monstros nos objetos do quarto. Apresenta amores passados que eu nunca tive. É uma ilusão difícil de abandonar. Faz sangrar os sentimentos bonitos.
A insônia é companhia da solidão, e as duas, sou eu.

Monique Burigo Marin

Dueto

por Monique Burigo Marin às 3:38 PM 4 comentários
Todos os adultos estavam perfeitamente alinhados em suas poltronas, mas um barulho vindo da primeira fileira fazia rasgos no sossego da plateia. Lá estava a garotinha mais feliz do dia a cortar o silencio com risinhos ansiosos. Nunca entenderam, nunca entenderiam: rir era um efeito espontâneo de seu nervosismo.
Em alguns minutos, aquele cara sério e elegante entraria no palco segurando a cartola preta nas mãos. Então, após sentar-se no banco de madeira, tiraria o smoking que faria uma espécie de cortina retangular em torno do banco. Repousaria a cartola na cabeça do piano e começaria a tocar. Para ela, esse era o ritual mais bonito do universo.
Saber que isso aconteceria fazia seus pés balançarem freneticamente. Para frente. Para trás. A pipoca que comprou estava quase no fim: logo começaria a comer os próprios dedos.
Ele tinha um estilo peculiar, um quê de fragilidade que não transparecia na força de seus sentimentos. Nos olhos escuros, um brilho secreto. Segredo dele, segredo dela. Havia magia movimentando a engrenagem, algo de sobrenatural no som que entrava pelos ouvidos e se alojava em seu coração.

* Para ela, ele era uma orquestra inteira. Para ele, ela era a regente.


Monique Burigo Marin

Já que sou, o jeito é ser.

por Monique Burigo Marin às 12:03 AM 8 comentários

Ah, Clarice. Se eu tivesse essas cores suas. Esses seus jeitos e manhas e defeitos. Eu seria talvez plena em minha melancolia partida.
Ah, Clarice. Se eu pudesse descrever desse seu jeito ímpar e verdadeiro os acontecimentos dos mundos. Eu seria talvez, mesmo que infimamente, compreendida.
Clarice, Clarice. Se eu tivesse essas suas dores e essas suas lembranças agridoces. Eu seria talvez, menos contida, menos muda, menos apagada e sem sal.
Você inunda meus olhos de água com uma única vogal, Clarice. Como pode alguém tão profunda estar sempre na superfície, transbordando nos olhos, meu deus!
E eu estou tão longe de você... eu nem me compreendo.

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever."

* O título e a frase final foram respeitosamente emprestados do livro A Hora da Estrela de Clarice Lispector.

Monique Burigo Marin

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por Monique Burigo Marin às 1:34 PM 9 comentários

                               Só faço essa dor doer ainda mais, tento matá-la, mas ela não morre.

                                                                                                                      Monique Burigo Marin

Prisão cadavérica

por Monique Burigo Marin às 1:44 AM 4 comentários
Você era tão amável, Miguel. Enchia meus sonhos de efeitos especiais. Orientava os meus passos no mundo real. Pena que se apaixonou por mim.
Você surgiu na tempestade de areia e folhas. Você era ela. Sempre mantinha distância. Enxergava nos meus olhos tudo o que eu tentava, urgentemente, esconder. Não conseguia.
Não sei como pôde continuar me amando mesmo depois de saber de tudo. De cada pensamento moribundo e sujo que eu trancafiei.

Monique Burigo Marin

Desnaturado

por Monique Burigo Marin às 6:53 PM 6 comentários
Você desnaturou. Grudou no fundo da panela. Evaporou as suas propriedades mais importantes. E esse processo, meu amor, é irreversível.

* Eu sabia, o calor nunca faz bem.

Monique Burigo Marin

Por um natal mais festivo

por Monique Burigo Marin às 3:19 PM 8 comentários
Ilustração: Diniece
Barbudo,

Sei que já passei da idade de escrever cartas pro senhor, sei que puxei a barba dos teus assistentes e não acreditei em ti. Mas hoje, eu fecho os olhos e torço tanto, tanto, para que a magia do natal não se perca.
Sabe, Noel, eu sei que existe uma porção de crianças que foram boas a vida inteira e ficarão sem presente neste natal. Como posso, então, acreditar na tua existência?
Há relatos de que fizeste milagres, não acredito, para mim, a tua simples existência já seria por si só um milagre. Um milagre lindo e aconchegante que traria esperança ao mundo.
Então eu ignoro o meu ceticismo e não quero nem saber se foste inventado pela Coca-Cola ou se és mero símbolo do cristianismo. Não quero saber.  Eu tento acreditar, porque preciso, que o bom velhinho está em algum lugar lendo esta carta enquanto os duendes empacotam os presentes.
Se eu fosse você, Barbudo, deixaria doces embaixo do meu pinheiro – pode ser até um sonho, ou dois – junto com a máquina de fazer nuvens de algodão. E não me esqueceria das crianças sem endereço, pois são as que mais precisam daquele embrulho mágico que guarda os sonhos realizados. E faria isso sem demora, antes que o teu trenó movido à esperança pare de funcionar.

                                                                                       Isso É uma ameaça,

                                                                                                                     Boa Menina


*E para você que está cansado de esperar por um milagre: Doe, doe-se.

Monique Burigo Marin

Cadê?

por Monique Burigo Marin às 9:36 PM 8 comentários
As indecisões das cores do teu cabelo acompanhavam o teu humor, que também era meu. Contigo, eu fui tão bem humorada! Foi a tua mão que segurou a minha quando fiquei sozinha sem querer estar.
...Tenho uma notícia triste: Eu não consigo mais te imaginar. Quando tento, dói. Mas me recuso a te esquecer.
O que foi que aconteceu com a gente? Éramos tão completos e indivisíveis. Fomos teoria atômica hoje ultrapassada. Mas que fazer da saudade que, ao contrário, não passa?
Será que adquiri uma cegueira específica? É,talvez seja isso. Como na cegueira dos que já enxergaram: o tempo foi se encarregando de apagar os traços daqueles que sumiram, fazendo esquecer, mesmo sem querer.
Nig é Ninguém, afinal. Não preciso mais abreviar teu nome para que não te ofendas.



* Sabe, Nig (não preciso, mas insisto). Eu sinto saudades. Tua existência ainda vive em mim, em cada sorriso teimoso. Não me abandone.


Monique Burigo Marin
 

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