Às vezes me pergunto se também irei, um dia, separar na foto os nossos corpos. Ou se farei uma fogueira com as lembranças de nós dois.
Suspeito que depois eu tentaria, em desespero, concertar com fita adesiva até aquilo que não tem mais jeito.
Monique Burigo Marin
Descanse em Paz
O dono da camisa fora um homem triste, amargurado, incompreendido. Seu único momento de paz era quando pintava.
As mãos sujas de tinta apanhavam no ar as imagens mais sinceras. Denunciavam as mentirosas e puniam as criminosas. Era o juiz do próprio mundo, dono das próprias mãos. Autor das mais sombrias histórias.
Tingia de cores intensas os quadros e as paredes. Sua angustia era arte e nem sabia. Não queria saber. Sabia o bastante e, de fato, melhor seria se não soubesse.
Hoje penduro a camisa dele no armário, reparo as manchas que não reparei quando a comprei no brechó. Essas manchas alaranjadas são a paz de um homem morto. Agora eu sei.
As mãos sujas de tinta apanhavam no ar as imagens mais sinceras. Denunciavam as mentirosas e puniam as criminosas. Era o juiz do próprio mundo, dono das próprias mãos. Autor das mais sombrias histórias.
Tingia de cores intensas os quadros e as paredes. Sua angustia era arte e nem sabia. Não queria saber. Sabia o bastante e, de fato, melhor seria se não soubesse.
Hoje penduro a camisa dele no armário, reparo as manchas que não reparei quando a comprei no brechó. Essas manchas alaranjadas são a paz de um homem morto. Agora eu sei.
Monique Burigo Marin
Prisioneira

Imagem: Brian M Viveros
Sentou naquela escada de madeira que fica em frente ao mar só para torturar-se com a areia entrando nos olhos. Mergulhada em sua própria nuvem de fumaça, pensou em desistir de tudo. Tudo mesmo. Até agora suas insistências só aprofundaram os cortes.
Entorpecida pelas ilusões da vida, caiu inúmeras vezes em teias invisíveis. Apoiou-se em pernas bambas. Tentou, a todo custo, desvencilhar-se das amarras. Enroscou-se ainda mais.
Tragou profundamente as lembranças mais amargas e soprou devagar. Uma por uma.
...Mas é difícil libertar-se daquilo que se é.
Monique Burigo Marin
Secreto
A Moça e a Poça

Há nessa mistura de cores dos teus olhos uma poça de maré onde gosto de brincar. Esse habitat é tão seguro! Dispenso guelras, escamas, cilindro e escafandro. A correnteza não me afeta. Aceita-me do jeito que sou. Nadando cachorrinho ou com bóias de golfinho.
Essa poça que ilumina o teu rosto muda de cor de acordo com o que está sendo refletido. E pode ter as cores mais coloridas, dignas de sonhos infantis. Mas também pode ser profunda e fria e dura e escura como o céu antes da chuva. Intransponível.
Não analise com olhos clínicos essas minhas palavras. Eu não sei escrever artigos científicos. E o que sei só pode ser compreendido com a imaginação. Sei também que você lembra-se de todos os medos que inventei só para dormir segura nas tuas mãos.
A tua presença é calmaria. É som de ondas quebrando no mar. É brisa secando as lágrimas teimosas.
Nessas minhas brincadeiras, tomo cuidado. Só toco com o coração, pois as mãos também ferem e sufocam. As tuas águas são perenes como o meu amor por ti. E todo o carinho que eu possa oferecer ainda será pouco.
Feliz aniversário, minha irmã.
Monique Burigo Marin
Anônimo

Ilustração: Vasylissa
Se já não importa, já não entendo por que senti as mãos formigarem e o nó apertar quando li teu nome. A cada nova palavra, a pergunta muda perguntando para onde foram os rabiscos e as dobras e as manchas de Toddy. Os teus livros não têm cara de lidos! Isso apagou um dos teus traços mais bonitos.
Se já não importa, já não entendo por que senti as mãos formigarem e o nó apertar quando li teu nome. A cada nova palavra, a pergunta muda perguntando para onde foram os rabiscos e as dobras e as manchas de Toddy. Os teus livros não têm cara de lidos! Isso apagou um dos teus traços mais bonitos.
Fiz de ti meu personagem predileto e agora te tornas realidade. Nunca me pertenceu. Foge deixando minhas páginas em branco.
A verdade é que eu li tua mão e tuas cicatrizes e tuas reticências tantas vezes que te envelheci. Aumentei a nitidez das tuas rugas invisíveis.
Espero que um dia você me perdoe, espero quase desesperançada que um dia eu me perdoe por não conseguir me livrar desse sentimento tão sem nome e sem razão.
Monique Burigo Marin
Primavera
A primavera me entristece. Coisa estranha de se dizer. O despertar é também o morrer.
A flor seca no vaso floresce. Tem pressa de viver. Não sabe que é fugaz o seu dever.

A primavera me expulsa para fora de mim. Confidencia ao mundo meu segredo mais secreto: Não estou pronta. Perdi os espinhos tentando prolongar o inverno.
Amanda não manda

Ilustração: Cybergranny
Amanda gosta de andar por becos escuros em noites frias. Solidão e silêncio são tudo o que precisa. Engana-se.
Amanda gosta de andar por becos escuros em noites frias. Solidão e silêncio são tudo o que precisa. Engana-se.
O medo é fiel companhia. Acompanha os passos firmes do coturno trinta e sete. Só ele acelera os batimentos. Só ele. Engana-se.
Sacode os pés tentando afastar a própria sombra. Não pode ser livre desse jeito. Não enquanto estiver presa a esse borrão moldável e indeciso. Essa mancha instável e inconstante que denuncia sua chegada e acompanha sua partida. Ímpio defeito de fabricação.
Tudo o que vê parece sujo. O cheiro dos bueiros impregnando as roupas, entrando pelos poros, contaminando a alma. Escuta: o som da violência fere os tímpanos. Moedas no chapéu para quem ousar tentar povoar o mundo com música. Tapinha no ombro vem de brinde. Abraço sincero para quem arrancar, permanentemente, esse gosto amargo, e podre, e mofo de quem nunca provou a doçura da vida.
Amanda é pura sinestesia, e não manda, nem nos próprios sentidos.
Monique Burigo Marin
Assimétrico

Ilustração: Berk Öztürk
Tenho simetria bilateral. Não me dividirei em partes iguais se continuarem puxando de todos os lados.
Monique Burigo Marin
Justo Em Mim
Ilustração: SandyPor Rafael Menotti Mazini
Isabel acorda
Olhos semicerrados
Pensamentos ínfimos
Nada de novo
Já não tem certeza
Se os campos de morango
terão mesmo sabor
E as cores, o seu valor
Sem entender
Se lança ao mundo
Tenta abraçá-lo
Mas é grande para os seus braços
Diz que vai crescer e alterar tudo
No escuro da noite
Sons de lamúria
Outro pesadelo
Noite mal dormida
Isabel acorda
O mundo não a escolheu
Ela já esperava
Campos de morango
De sabor amargo
Sem entender
Escuta choros baixinhos
De uma gaita de boca
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Incrível como às vezes, os outros interpretam nossos personagens melhor do que nós mesmos.
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