Luzes da Cidade

por Monique Burigo Marin às 4:21 PM 14 comentários
Fotografia: Joanna

  Há um lugar aonde vou depois que o sol puxa o cobertor fresco de estrelas. De lá posso ver as luzes da cidade, que não são menos interessantes do que as luzes do céu. São apenas manias inocentes e incuráveis. Tente entender.
  É que sei que as luzes da cidade iluminam seu caminhar na volta para casa. Quando já estás cansado de todas as luzes do mundo e só o que precisas é deitar logo a cabeça na cama cheia de travesseiros.
  Então eu venho até aqui, apoio a cabeça nas mãos e procuro por você no meio dessa confusão. Aliás, hoje procurei por você o dia todo na rosa que guardei entre as páginas de algum livro meu. Ela não estava lá. Você não estava lá.
 Sinto saudades das suas manias de organizar do seu jeito a minha organização e acabar bagunçando tudo, sem intenção. Sinto falta da sua falta de cuidados com as coisas e do seu excesso de zelo para comigo. Sinto, às vezes, que estamos os dois em lados opostos do globo; e você está bem aqui, ao meu lado. Sinto saudades até dos seus batimentos cardíacos que sempre me deprimiam. Eles nunca deveriam parar.
  Então a cidade apaga. Abandona-me. Deixo minha luz acesa que é para não me perder também. Depois faço meu casulo com o edredom e cubro até a cabeça, pois quando tudo fica deserto assim, temo que os vazios preencham o mundo.

Monique Burigo Marin

Cacos

por Monique Burigo Marin às 5:44 AM 4 comentários
  Você tirou a toalha da mesa antes dos pratos. Tudo está caindo em câmera lenta desde às três e quarenta e oito da manhã. De ontem.

Monique Burigo Marin

Monocromático

por Monique Burigo Marin às 4:08 PM 10 comentários
  Ilustração: Beatriz 

  Tenho mania de inverter a ordem das coisas e sei que o teu sorriso em branco e preto jamais voltará a ter as cores que eu enxerguei. Você é meu ciclo. Minha inércia. Minha agonia. Você é a parte de mim que ainda amo. E está em tudo.
  Você está nas rugas que surgem a cada dia e na profundidade das olheiras que emolduram meus olhos. Está no desenho abstrato que eu fiz na janela embaçada do carro e também na luz que vem na contramão. Está na primeira estrela que imaginei nascendo no céu da minha boca e no pedido que ela recebe. Principalmente no pedido.
  Você está nestas palavras que sussurro, de olhos fechados, no meio da madrugada. É que quero que você acorde, mas você está hibernando há quilômetros de distância e não há nada que eu possa fazer. Mesmo assim, deixo um bilhete para quando você acordar. Se você acordar para mim algum dia.
  Só não quero mais passar as noites procurando pelas tuas mãos embaixo do meu travesseiro. Não enquanto elas não estiverem lá. Não enquanto você não quiser que elas estejam. Não enquanto você ignorar o quanto eu quero.
   Mas não importa. Foge do meu controle. Já estou amando tuas novas cores.

Monique Burigo Marin

Hipoglicemia

por Monique Burigo Marin às 5:20 PM 7 comentários

  Eu fui quebrando as portas como se quebrasse medos. Mas no fim das contas, só estava quebrando os ossos. E me diziam para ficar calma, e me diziam para estender o braço, e me pediam para não chorar. Quando eu desse por mim estaria feito.
  Todos diziam que eu não sentiria, sem saber que era esse meu medo maior. Só fiquei tranquila quando vi aqueles olhos. Olhos negros, quem diria. Tão bondosos. Usando agulhas para espantar meus medos. Mas não importava o quão fundo entrassem em minha carne, novas portas cresciam mais fortes. Mais altas. Mais intransponíveis. E eu ia percebendo que estava atravessando sozinha por dentro dos meus medos, guiada por uma loira sem sal.
  Enquanto eu pensava, ressentida, na ilusão da beleza interior, aqueles olhos iam ficando distantes... Mas ainda vigiavam minha consciência. Tiravam minha roupa, monitoravam meus batimentos, diziam que os pesadelos não poderiam me perturbar. Então, quando as luzes pararam sobre o meu corpo, já não me importava.  Eu estava entregue à minha última torta de brigadeiro preto com morangos. Sentindo a glicose correndo pelas veias. Até não sentir mais.

Monique Burigo Marin

3 Anos!

por Monique Burigo Marin às 1:23 PM 1 comentários
Hoje o blog completa três anos, abandoná-lo não faz parte dos planos. Escrever me ajuda a construir quem quero ser. E se me desconstruo, desabo, não volto mais. Colocar nestas linhas, abrir aspas e parentes para quem quiser ler, expande meus horizontes. Muito obrigada, leitores! Digo e repito: sem vocês, nada seria tão doce.

Monique Burigo Marin

Cedo

por Monique Burigo Marin às 8:41 PM 4 comentários

Queria que você pudesse ver os lugares por aonde tenho andado. Tão cheios de cores. Tão cheios de sol. Tão diferentes de mim. Ainda.
Não vai demorar muito. Aprendi com as reticências a me deixar levar. Se tropeço em pés sem corpos é por pura distração. É que ainda estou tateando no escuro pela parte de você que me cabe. Mesmo depois da vírgula que dorme com a gente embaixo das cobertas.
Nesta vida, em que toda fantasia é metade, meus sonhos despertam comigo todas as manhãs. Desculpe-me se é cedo demais para os sonhadores.

Monique Burigo Marin

Colheita

por Monique Burigo Marin às 11:25 PM 3 comentários

  Ela tinha cabelo castanho curto e cacheado e estendeu a mão aberta para mim. Eu olhei sem entender o que dizia aquela pequena jujuba cor-de-rosa. Todos aguardavam ansiosos. Então eu cometi o maior erro da minha vida.
  Se agora a pele dos outros derrete e os olhos caem, a culpa é minha. Se crianças estão saltando da janela em direção à piscina de bolinhas, a culpa é minha. Se o riso que escuto é falso e não há água no mundo capaz de lavar o veneno em seus lábios, eu sei que o doce é assassino e está entrando mais rápido nos corações do que eu saio.
  Aqui o sangue é rosa e me faz escorregar pelas escadas enquanto tento grudar agulhas de costura no corrimão. Todos precisam de remendo. Todos menos eu. Eu corri o mais rápido que pude para fora do buraco na maçã, mas permaneci estática. Foi assim que entendi: a semente de todo o mal sou eu.

Monique Burigo Marin

CFA

por Monique Burigo Marin às 3:10 PM 9 comentários

   Antes de dormir, sei que tu estás sentado perto de mim, ouvindo o monólogo que acabei de inventar. Sinto o cheiro do café que está em tuas mãos e prevejo um borrão na palavra mais bonita do texto. A luz fraca do abajur lança tua sombra sobre mim e ela me aquece. Ah, como adoro as noites de inverno na tua companhia!
   Tu estás vivo em mim e tens juventude eterna. Não que eu não goste das rugas marcando tuas mãos habilidosas, é só que não te vejo preso nos limites do tempo. É que te quero livre e por perto. É que tenho medo de me empolgar demais e ler todas as páginas de uma só vez.
   Imagino teu riso modesto e teus olhos bondosos. Teu corpo coberto por roupas sutilmente amassadas, do tempo em que era moda usar a calça na altura do umbigo, por isso as tuas ficam onde bem entenderem. Mas, eu sei que o suspensório caído é displicência forjada, pois já te vi organizar até os cigarros. Nem você é perfeito.
   Ainda não estou preparada para conhecer tua verdadeira forma. Prefiro rir da tua mania de não querer o que é necessário. E te escrever como quem escreve para si. E endireitar teus óculos tortos e mandar as vírgulas passearem junto com as colocações pronominais. Prefiro sentir tua presença amenizar o meu medo de fechar os olhos. Só mais cinco minutinhos.

Monique Burigo Marin

Açúcar Invertido

por Monique Burigo Marin às 9:23 PM 6 comentários
Ilustração: Vania Zouravliov

Há, no seu jeito de querer o meu sangue, e querer a minha paz, e querer a minha dor; algo de doce. Há, no silêncio do seu riso um som que perfura meus tímpanos, e perfura minhas veias, e consome minha alegria. Algo que no último instante me faria implorar pela morte, pois a eternidade seria pior.

* Há, nesse ódio recíproco, algo de amor. 




Monique Burigo Marin

Oculto

por Monique Burigo Marin às 7:57 PM 5 comentários
                                                                                               Ilustração: Camilla Derrico


Sentei aqui para escrever, mas minhas mãos já não se movem. Tenho a mente vazia de inspirações. Já não psicografo minhas próprias mensagens ocultas. Já não entendo nada. E nada; é tudo. Vazio. Cru. Interminável.
Há uma linha tênue e invisível prendendo meus punhos à cama. Não consigo levantar. Os olhos não abrem. A paisagem é nuvem cinza de tempestade violenta. Formigueiro de sentimentos consumindo o açúcar do algodão que já não é doce e está sujo demais para limpar feridas. Os remédios estão sempre na cabeceira, não há outra maneira de sobreviver.
É que quando as palavras calam surge em mim uma vontade louca de chorar. Chorar os pensamentos fugidios que sei que estão em algum lugar onde não alcanço. Talvez passem por mim acelerados sem que eu possa capturá-los, pois meus movimentos são lentos, fruto da vida sedentária que venho levando.
Só me saem essas lágrimas secas e invisíveis. O que guardo é mais salgado. Mais profundo. Mais doloroso. O que guardo já não quero guardar, mas não tem jeito. O que guardo sou eu protegida por uma cápsula de gelatina bamba em cima de uma mesa torta.


Monique Burigo Marin
 

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