Cedo

por Monique Burigo Marin às 8:41 PM 4 comentários

Queria que você pudesse ver os lugares por aonde tenho andado. Tão cheios de cores. Tão cheios de sol. Tão diferentes de mim. Ainda.
Não vai demorar muito. Aprendi com as reticências a me deixar levar. Se tropeço em pés sem corpos é por pura distração. É que ainda estou tateando no escuro pela parte de você que me cabe. Mesmo depois da vírgula que dorme com a gente embaixo das cobertas.
Nesta vida, em que toda fantasia é metade, meus sonhos despertam comigo todas as manhãs. Desculpe-me se é cedo demais para os sonhadores.

Monique Burigo Marin

Colheita

por Monique Burigo Marin às 11:25 PM 3 comentários

  Ela tinha cabelo castanho curto e cacheado e estendeu a mão aberta para mim. Eu olhei sem entender o que dizia aquela pequena jujuba cor-de-rosa. Todos aguardavam ansiosos. Então eu cometi o maior erro da minha vida.
  Se agora a pele dos outros derrete e os olhos caem, a culpa é minha. Se crianças estão saltando da janela em direção à piscina de bolinhas, a culpa é minha. Se o riso que escuto é falso e não há água no mundo capaz de lavar o veneno em seus lábios, eu sei que o doce é assassino e está entrando mais rápido nos corações do que eu saio.
  Aqui o sangue é rosa e me faz escorregar pelas escadas enquanto tento grudar agulhas de costura no corrimão. Todos precisam de remendo. Todos menos eu. Eu corri o mais rápido que pude para fora do buraco na maçã, mas permaneci estática. Foi assim que entendi: a semente de todo o mal sou eu.

Monique Burigo Marin

CFA

por Monique Burigo Marin às 3:10 PM 9 comentários

   Antes de dormir, sei que tu estás sentado perto de mim, ouvindo o monólogo que acabei de inventar. Sinto o cheiro do café que está em tuas mãos e prevejo um borrão na palavra mais bonita do texto. A luz fraca do abajur lança tua sombra sobre mim e ela me aquece. Ah, como adoro as noites de inverno na tua companhia!
   Tu estás vivo em mim e tens juventude eterna. Não que eu não goste das rugas marcando tuas mãos habilidosas, é só que não te vejo preso nos limites do tempo. É que te quero livre e por perto. É que tenho medo de me empolgar demais e ler todas as páginas de uma só vez.
   Imagino teu riso modesto e teus olhos bondosos. Teu corpo coberto por roupas sutilmente amassadas, do tempo em que era moda usar a calça na altura do umbigo, por isso as tuas ficam onde bem entenderem. Mas, eu sei que o suspensório caído é displicência forjada, pois já te vi organizar até os cigarros. Nem você é perfeito.
   Ainda não estou preparada para conhecer tua verdadeira forma. Prefiro rir da tua mania de não querer o que é necessário. E te escrever como quem escreve para si. E endireitar teus óculos tortos e mandar as vírgulas passearem junto com as colocações pronominais. Prefiro sentir tua presença amenizar o meu medo de fechar os olhos. Só mais cinco minutinhos.

Monique Burigo Marin

Açúcar Invertido

por Monique Burigo Marin às 9:23 PM 6 comentários
Ilustração: Vania Zouravliov

Há, no seu jeito de querer o meu sangue, e querer a minha paz, e querer a minha dor; algo de doce. Há, no silêncio do seu riso um som que perfura meus tímpanos, e perfura minhas veias, e consome minha alegria. Algo que no último instante me faria implorar pela morte, pois a eternidade seria pior.

* Há, nesse ódio recíproco, algo de amor. 




Monique Burigo Marin

Oculto

por Monique Burigo Marin às 7:57 PM 5 comentários
                                                                                               Ilustração: Camilla Derrico


Sentei aqui para escrever, mas minhas mãos já não se movem. Tenho a mente vazia de inspirações. Já não psicografo minhas próprias mensagens ocultas. Já não entendo nada. E nada; é tudo. Vazio. Cru. Interminável.
Há uma linha tênue e invisível prendendo meus punhos à cama. Não consigo levantar. Os olhos não abrem. A paisagem é nuvem cinza de tempestade violenta. Formigueiro de sentimentos consumindo o açúcar do algodão que já não é doce e está sujo demais para limpar feridas. Os remédios estão sempre na cabeceira, não há outra maneira de sobreviver.
É que quando as palavras calam surge em mim uma vontade louca de chorar. Chorar os pensamentos fugidios que sei que estão em algum lugar onde não alcanço. Talvez passem por mim acelerados sem que eu possa capturá-los, pois meus movimentos são lentos, fruto da vida sedentária que venho levando.
Só me saem essas lágrimas secas e invisíveis. O que guardo é mais salgado. Mais profundo. Mais doloroso. O que guardo já não quero guardar, mas não tem jeito. O que guardo sou eu protegida por uma cápsula de gelatina bamba em cima de uma mesa torta.


Monique Burigo Marin

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por Monique Burigo Marin às 10:58 PM 10 comentários
                                                                              Ilustração: Viet-My Bui 

Dia desses, vi teu sorriso sorrir pra mim olhando em outra direção.
Eu estou aqui.
Estou aqui.
Aqui.
.


* Minha presença é tão ausência que em você sobrou apenas um ponto final.


Monique Burigo Marin

De tanto sentir.

por Monique Burigo Marin às 5:11 PM 7 comentários
                                                                                                                 Ilustração: Gure

 Quando eu morrer, desejo estar errada, abrir os olhos fora de mim e receber o abraço aconchegante de uma boa alma. Quero sentir a textura das nuvens sobre os pés, reencontrar pessoas queridas pelas quais meus olhos derramaram pesadas gotas de saudade. Dizer as coisas não ditas que pensei nunca mais poder dizer.
 E até nessa de acreditar em vidas passadas – e principalmente em futuras – eu entrei. Já não consigo explicar de outra maneira essa ligação tão dolorosamente permanente. Quando eu morrer, quero não querer voltar a um mundo sem água e sem amor nem por você.
 Quero morar em uma humilde casa, feita dos tijolos que ergui com minhas bondades terrenas. Não precisar trancar as portas e poder admirar, através da janela aberta, as estrelas que passeiam na rua. Acabar me apaixonando por algum desses seres notívagos ou por todos eles.
 Quero finalmente escutar ao vivo os ídolos que morreram antes de mim, ainda que isso soe irônico. Ainda que a minha nuvem seja a mais turbulenta e distante.
 Quando eu morrer, quero sentir nascer um par de asas furadas. Aprender a voar apesar de tudo. Aprender a cair apesar de tudo.
 Quero ser útil a alguém, fazer enxergar quem não pôde admirar as belezas de um mundo imperfeito.
 Quando eu morrer, não quero lágrimas. Quero só a dorzinha boa de quem, em algum momento, sorriu por mim. Quando eu morrer, digam que sinto muito e de tanto sentir meu coração parou.

Monique Burigo Marin


Acordada

por Monique Burigo Marin às 1:49 PM 5 comentários
                                                                     Ilustração: Candice Madsen
 Eu cresci enquanto você sumia. Ainda penso em você sem pensar...
 Será que deixou a barba crescer e fez trancinhas coloridas? Será que correu pelado na universidade e já casou com uma designer ou com uma jornalista ou... Por amor?  Talvez tenha um carro antigo na garagem e já tenha parado de desenhar tragédias em todo lugar.
 Será que ainda anda como quem se recupera de uma queda feia? Será que ainda fica feio de azul? Será, meu Deus, que ainda é ateu?
 Dia desses assisti aquele filme sobre você e eu, desejei que tivesse me presenteado com uma máquina de voltar no tempo também. Será que do jeito que o tempo passa rápida aquele pelo branco na sua sobrancelha já se multiplicou?
 Será que eu, algum dia, terei respostas para o enigma que é você?

Monique Burigo Marin

Um Pouco de Liberdade

por Monique Burigo Marin às 12:26 PM 1 comentários

Inanição

por Monique Burigo Marin às 7:26 PM 5 comentários
Ilustração: Gina Wetzel

Mas ainda dói pensar no teu sorriso, cujas fases eu conheço de cor, esperando ansiosamente por outro  alguém. Vestido branco. Nesse momento sei que escutarei a marcha fúnebre. Sei que vou chorar as lágrimas que segurei por todos esses anos. Sei que cada passo ao teu encontro será sentido no meu coração.
Essa morte lenta e dolorosa não será esquecida. Começou discreta, um leve incomodo no estômago. Imagens distorcidas. Evoluiu para uma bulimia nojenta e incurável. A verdade nua e crua é essa: O nosso amor morreu de inanição.
Eu queria poder te vomitar inteiro, mesmo, da cabeça aos pés. Para que não me sobre nenhum vestígio teu que te faça ressurgir como um câncer maligno.


Monique Burigo Marin
 

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