Insônia

por Monique às 11:31 AM 9 comentários

Como olhos cansados as últimas luzes apagam. A cidade está adormecida. Posso ver e ouvir os sonhos da vizinhança, todos misturados causando confusão. O garotinho do andar de baixo recém puxou as cobertas mais para cima, são elas que fazem peso sobre o corpo para que ele não levite de entusiasmo.
Enquanto todos dormem, eu sussurro ao silêncio tudo o que não ouso dizer para mais ninguém. Ando pela casa no escuro. Meus passos são ecos, não cessam, seguem todas as direções compulsivamente. Gostam especialmente de voltar.
Tentei sonhar acordada e senti meu corpo correr e o vento bater no rosto. Enxerguei um campo repleto de sonhos compactados dentro de garrafas flutuantes de todos os formatos, ergui a rede feito Bob Esponja no campo de águas vivas, e cogitei capturar os sonhos de alguém. Não o fiz. Os sonhos dos outros não fazem sentido quando estão dentro de nós, assim como os nossos não fazem sentido quando estão dentro dos outros. Não somos receptáculos de sonhos.

Monique.

Plenitude

por Monique às 6:17 PM 5 comentários
Ele a chama por inteiro. É como gosta que ela esteja, com todos os pedaços encaixados, com todos os vazios preenchidos, completa. É, curiosamente, como fica quando está com ele, é como gosta de estar.

Monique.

Sobre o Medo

por Monique às 3:07 PM 10 comentários
Eu queria, juro que sim, mas não sei como. Tenho medo de pisar muito forte no telhado e quebrar as telhas. Melhor ficarmos aqui, onde a terra é firme, onde o peso do meu corpo é quase nada. Melhor ficarmos assim, juntos, protegendo um ao outro dos perigos que criamos. Ora, encontrar tomate na lasanha é uma tragédia.
Por favor, não esqueça mais a torneira aberta, um dia você inunda a casa inteira e morre afogado. Para! Não me faz cócegas, você sabe que de tanto rir eu quase morro. E, viver rindo porque não há outra saída é quase morte.
Não me deixe dormir, vai que eu acordo em outro lugar e no meu lado tem alguém que diz bom dia, vai que o bom dia é pra mim.
Eu tenho medo, sim. Medo de perder-me e de perder os outros. Medo do real e do faz de conta. Medo do fim do mundo, de o céu cair, de ser presa por engano, de luz e de promessas. Tenho medo até do medo. Eu, que acreditava ser corajosa...
Pensando bem, esqueça o que te falei sobre proteção, deixe que eu vá enfrentar os meus monstros. Se o mundo acabar com teu abraço... Dane-se, melhor assim.

Monique.


P.S: Peço desculpas pela minha ausência, o tempo foge e eu não o alcanço.

Por Todos os Quases

por Monique às 1:25 PM 11 comentários

Por tudo o que poderia ter sido e não foi, quero dizer que não sinto muito. Quero dizer que não sinto mais. Confesso que foi difícil, perdi tempo monitorando meus pensamentos para que não se aproximassem de ti. Até troquei o telefone porque não suportava mais aquele fio tão parecido com o seu cabelo. Parei de assistir TV para evitar lembrar da sua mania irritante de trocar o canal a cada segundo. Cortei quase todos os veículos de comunicação, com medo de que você aparecesse aqui e ali, em alguma palavra, em alguma imagem, em algum ponto final disfarçado de reticências. E, o mais ridículo de tudo é que lembrar de não lembrar não me permitia esquecer. Eu não percebia, quase deixei de ser. Foi um período de existência efêmera. Mera transição de um eu para outro desconhecido. Mas, agora, nem a sua síndrome de pernas inquietas atrapalha minha quietude.

... Eu continuo aqui, querendo dizer e, por vezes dizendo através dessas palavras que você nunca escuta.


Monique.

Que seja assim - Parte II

por Monique às 12:52 PM 13 comentários
Ficaram parados ali, olhando um para o outro, em silêncio. Ela gosta de observar o silêncio porque ele não reclama. Deixa-se admirar.
Cada detalhe que enxergava parecia lhe preencher os vazios que acumulara ao longo dos dias. Tudo novo e sublime, até as cores se reinventavam.
De repente ele parou de sorrir e ficou muito sério. Observava os traços do rosto dela com tanta atenção que a fez sentir-se como a modelo que posa para o artista. Permaneceu favorável — não se movia —, assim ficava mais fácil capturar sua essência. Assim ficava mais fácil capturar a essência dele.
- Lembro de você — disse ele e a voz soou macia, doce, como tudo —, sei que gostas de cortinas fechadas e janelas abertas. Tento ler o que escreves no vidro da janela nos dias frios. — E o sorriso tornou a aparecer.
- São só bobagens, coisas que faço para passar o tempo e organizar os pensamentos. — Quis dizer que também lembrava dele, que adorava quando reproduzia os sons do mundo com sua gaita de boca, não disse. — Mas, então, do que ria quando o encontrei?
- Ria de mim e para mim. Veja você mesma. — Puxou a garota para mais perto fazendo-a ficar de frente para o espelho. Então, lá estava ela, no lado virtual. O nariz no lugar dos olhos, os olhos no lugar do nariz, as mãos invertidas, os pés também. E o pior: estava careca.
- Não olhe para mim — disse ela entre risadas —, estou horrível.
- Está mesmo! — Caçoou ele misturando o próprio riso ao riso dela, sabendo em seu intimo que de horrível ela não tinha absolutamente nada. — Vem comigo?
- Para aonde?
- Para o outro lado. — Respondeu apontando para a extremidade esquerda.
- Por quê?
- Quero lhe mostrar uma coisa. — Ela pareceu confusa, mas ele insistiu. — Você vem?
- Sim... vou.
Ela o acompanhou, o fundo da loja forrado de espelhos bizarros até a outra extremidade, o garoto decidido a lhe puxar pela mão, ela decidida a não soltá-la. Até que chegaram
- Olhe nesse espelho — pediu, e ela olhou. Lá estava ela outra vez, no lado virtual. Mas, não era como antes, agora estava sorrindo, os cabelos ruivos trançavam-se sozinhos em pequenas mechas, quando pararam haviam formado quatro, duas em cada lado. Os sapatos barulhentos foram substituídos por um tênis amarelo-bebê. O vestido encurtava um palmo e perdia as mangas, mas não a estampa. O cenário no lado virtual era real. É verdade, nesse lugar tudo se confunde.
O garoto da casa amarela aproximou-se e apareceu no espelho, os cabelos foram soprados com força por um vento abstrato, desorganizaram-se emprestando a ele um ar de rebeldia, os cadarços do tênis dele amarraram-se aos dela, o moletom azul escuro tingiu-se de amarelo-girassol. Inesperadamente, palavras escreveram-se no espelho: que seja doce, diziam elas.

Monique.

* trecho de um talvez-futuro-livro. :))

Que seja assim - Parte I

por Monique às 8:11 PM 13 comentários

Encontrava-se ali a mais bela vitrine de doces do planeta. Rios de chocolate quente serpenteavam alegres por entre montanhas de sorvete que nunca derretiam, a grama de chocolate granulado convidava os biscoitos-garotos a um passeio. Tudo era doce, tudo era alegria. Até mesmo os mais distraídos e apressados pararam para admirá-la. Isabel também parou, vestia-se com um vestido que era um verdadeiro campo de girassóis, calçava um sapato do tipo que faz barulho ao andar, e o mais importante é que trazia consigo um sorriso que lhe iluminava todo o semblante. Uma cena era admirada enquanto a outra era admirável.
Passado algum tempo, a garota decidiu que entraria na confeitaria para comprar o doce mais bonito e saboroso que encontrasse. Empurrou a porta que bateu em um sino, que tocou. Parecia ter acabado de obter sucesso em suas tentativas fracassadas de atravessar a tela da televisão. — Aquilo tudo só podia ser ficção. — De alta definição.
Mal conseguia enxergar o fim daquele lugar extenso. Prateleiras em tom pastel atapetavam as paredes, em cada uma delas havia tipos diferentes de doces separados por cores que vibravam. — Não tanto a ponto de doer os olhos. — Mal podia acreditar que tamanha maravilha ficasse à apenas noventa passos de sua casa...
Uma risada a despertou e guiou-a até onde estava. — No fundo da loja, próxima aos espelhos que refletem de ponta cabeça. — Aquela risada tinha dono. Um dono que parou de rir ao vê-la, que transformou o riso em um sorriso surpreso. Reconheceram um ao outro como quem reconhece o próprio reflexo. Eram vizinhos. Estavam mais perto do que estiveram à vida inteira, tão perto quanto gostariam de estar. Enfim, perto.

Monique.

.em-acifidoceD

por Monique às 9:38 PM 15 comentários

Quando finalmente entenderes as mensagens subliminares que te envio, terás descoberto o primeiro dos números infinitos do código de mim. É que sou assim, uma porção de dúvidas escondida em boas respostas. É que cada sorriso cerrado é para que os sentimentos não me saltem pela boca. É que cada rabisco feito no papel é para amenizar a ansiedade, e quase todas as minhas manias servem para distrair a solidão. É que tudo o que em mim é secreto eu guardo bem.

...Decodifica-me.

Monique.

Re-lembrar.

por Monique às 8:40 PM 9 comentários

A caixa de lembranças ficou pequena para todas elas e transbordou. Arremessou a tampa para o lado oposto do quarto. Fez pessoas ressuscitarem do passado, e agora, elas querem ficar. Não podem. Não devem. Isabel não as quer mais. Estão fora do tempo, ultrapassadas e mofadas. Mofo não lhe faz bem, ela é alérgica.
Travou uma batalha contra as próprias lembranças até que todas estivessem devidamente rasgadas – o som de lembranças rasgando lhe soa ainda pior que o de dedos estalando – e separadas na lata de lixo reciclável. Assim, existe o risco de retornarem – de novo – ela adora arriscar.
Batalha vencida, hora de recomeçar. Repetição é praxe em sua vida desde a infância – nunca trocava as figurinhas repetidas. – Ao acordar, o pé direito toca o chão primeiro. É assim desde seus cinco anos de idade. Será assim para sempre. Sempre é muito tempo.

Monique.


P.S. Imagem das minhas lembranças.

Frio

por Monique às 5:27 PM 11 comentários
Faz frio. As pessoas estão congelando – de dentro para fora – as estradas estão escorregadias e a vida também – impossível mantê-la segura nas mãos.

Monique.

Arte

por Monique às 3:33 PM 8 comentários

Ele não se move, sequer pisca os olhos. Mora em um quadro na estante bege da sala de estar da casa de minha avó, terceira prateleira do lado direito. Está sempre sentado atrás de uma mesa de madeira escura, escrevendo na máquina de escrever com ar de velho sábio. Uma cartola na cabeça. Uma história materializando-se no papel.
Todo o figurino indica que ele vive eternamente no século XIX. E eu aqui, presa no século XXI. E ele ali, preso na tela que alguém pintou. Tinta seca.
Tentei estabelecer contato algumas vezes, foi tudo inútil. Ele não responde. Não quer saber de mim. E eu continuo perdendo meu tempo o observando, dia após dia, intermitentemente. Desejando muito profundamente ouvir o barulho que faz a máquina de escrever quando ele escreve. Desejando secretamente ser a obra de arte de alguém.
Talvez algum dia, eu o roube da estante. Ninguém iria notar. Talvez eu o leve para a minha casa e o pendure na parede da cozinha e faça um chá com açúcar para nós dois.
Dia desses, passei tanto tempo o observando que adormeci no sofá que fica defronte a ele. Quando acordei ele havia desaparecido, a máquina de escrever estava solitária e eu também. Encontrei um bilhete ao lado do quadro:
"Você babou no sofá. Adoro o som dos seus sonhos."

Monique.
 

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