
A garota ficou ali parada até que o céu se transformasse de um cinza escuro em um azul celeste. A luz invadiu seus olhos, ela sentiu-se subitamente cega e decidiu afastar-se. Fechou as cortinas, mas manteve a janela aberta. Era assim que ela gostava.
Foi então que escutou o som. Era uma harmonia macia que parecia ecoar em alto-falantes espalhados pela casa, deixou-se contagiar, deitou na cama e seus pensamentos voaram... Voaram... E voaram.
Pouco depois se levantou e olhou pela janela, no lado oposto da rua havia um garoto. Dentro de uma casa amarela, atrás de outra janela, ele tocava gaita de boca. Na verdade, ele sabia apenas quatro notas, mas isso não era importante. A harmonia cessou. Ela entristeceu. O garoto sem nome surpreendeu-se ao vê-la e corou. Ela não percebeu. Simultaneamente os dois fecharam as janelas.
Naquele dia multicolor algo se agitava dentro dela - borboletas no estômago.
Um imã invisível a atraiu para a rua banhada de sol e entulhada de carros e fumaça. Ela abriu a porta da frente, desceu os três degraus que a levavam ao jardim saltitando. Olhou em volta, tornou a ouvir a harmonia. O magnetismo enfraqueceu, desistiu da rua e deitou-se na grama, viu as nuvens mudarem de forma - uma gaita, notas musicais, uma janela e um olho azul que piscava. Por fim, ela sorriu com serenidade e as borboletas voaram.










