Assimétrico

por Monique Burigo Marin às 8:21 PM 7 comentários

                                                                                         Ilustração: Berk Öztürk
Tenho simetria bilateral. Não me dividirei em partes iguais se continuarem puxando de todos os lados.


Monique Burigo Marin

Justo Em Mim

por Monique Burigo Marin às 6:30 PM 4 comentários

Ilustração: Sandy


Por Rafael Menotti Mazini

Isabel acorda
Olhos semicerrados
Pensamentos ínfimos
Nada de novo

Já não tem certeza
Se os campos de morango
terão mesmo sabor
E as cores, o seu valor

Sem entender
Se lança ao mundo
Tenta abraçá-lo
Mas é grande para os seus braços
Diz que vai crescer e alterar tudo

No escuro da noite
Sons de lamúria
Outro pesadelo
Noite mal dormida

Isabel acorda
O mundo não a escolheu
Ela já esperava
Campos de morango
De sabor amargo
Sem entender
Escuta choros baixinhos
De uma gaita de boca

-
Incrível como às vezes, os outros interpretam nossos personagens melhor do que nós mesmos.

Oceano

por Monique Burigo Marin às 2:46 PM 9 comentários
                                                                                                   Ilustração: Nei Ruffino
Quando criança, era fácil irritá-la, bastava chamar-lhe Pinguinho de Gente. Seu vocabulário excluía os diminutivos. Queria ser um oceano inteiro. E é bem verdade que o era, de certo modo, com seus modos certos.
Há em suas profundezas mistérios bioluminescentes. E basta aproximar do ouvido a concha que repousa em sua praia para escutar a voz – inconfundivelmente dela – que canta e encanta quem se atreve a navegar.
Prendam-nos todos, um a um, firmemente neste mastro que é para não caírem em suas armadilhas cheias de primeiras e segundas e terceiras intenções.

Monique Burigo Marin

Ácido

por Monique Burigo Marin às 11:12 AM 8 comentários
                                                                                          Ilustração: Flavia Ceccarelli
Ainda não sei o quanto sei sobre a vida. Ainda não sei se quero saber. Não saber é tão bonito.
Sabe, lá no horizonte o sol que você vê ainda não nasceu. Nada tem isso de mágico. E é tão decepcionante não ter.
A chuva é sempre ácida. Descobri que dói crescer.


Monique Burigo Marin

Só

por Monique Burigo Marin às 12:09 AM 5 comentários
                                                                                                   Ilustração: Xiaomeimei
Não entenda mal, hoje quero ser só. E só.

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* Declaro oficialmente encerrado o luto que decretei (graças a um erro irreversível no HD que destruiu impiedosamente sete meses de pensamentos escritos). Hora de recomeçar!


Monique Burigo Marin

-

por Monique Burigo Marin às 6:12 PM 5 comentários

Perdeu o medo. Olhou diretamente para o sol e ficou cego.

Monique Burigo Marin

Cativa-me

por Monique Burigo Marin às 6:51 PM 4 comentários

                                                                                                         Ilustração: Bele
Se você vem às duas, desde o despertar começarei a ser feliz. Se você vem às quatro... Desde o despertar começarei a ser feliz. Se você vem, serei feliz de qualquer maneira, mesmo que os segundos teimem em passar lentamente, mesmo que eu roa até a carne de ansiedade, mesmo que você demore a chegar.
Se você vem a qualquer hora, sem aviso, e até sem a flor que é única no mundo: serei feliz. Basta que venhas uma vez por dia, por mês, ou por ano. Basta que venhas uma única vez na vida para que eu seja feliz para o resto dela.
Se você vier, serei sorrisos a noite inteira. Descobrirei sonhos além daqueles comestíveis.
Se você vier, não se perca pelo caminho, ainda que as cores os cheiros e os sons do mundo confundam seus sentidos. E então eu prometo ser o sentido que me dá, toda vez que chega; e fica.

* Esse tipo de felicidade – óbvia ainda que imprevisível –, nem a mais sábia das raposas conseguiu entender.

“Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música.”

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Quero agradecer por todo o carinho e apoio que tenho recebido. Sem vocês, leitores, nada seria tão doce.


Monique Burigo Marin

Presentes Ausentes

por Monique Burigo Marin às 10:01 PM 5 comentários

O porquê eu não sei, não. Simplesmente acordei com um nó difícil de desatar; ele dá voltas pelo meu corpo inteiro. Acho que tem algo a ver com a saudade que eu sinto de você, de vocês, de mim mesma.
É que não é fácil, não. Essa ausência abre e esvazia minha alma, depois costura e cicatriza. É perigosa e eficiente. Tenho medo que do lado de fora de mim esses pedaços meus não me reconheçam. Eu tenho medo de uma porção de coisas; e isso é tão desagradável.


Monique Burigo Marin

Ritmo (Final alternativo para "O tempo de uma Infância")

por Monique Burigo Marin às 9:23 PM 3 comentários

                                                                           Ilustração: Liz
Acho que desejei com tanta vontade que fui atendida. Abri os olhos ao ouvir as notas do piano de alguém em algum lugar perto de mim. A música cessou e então uma mão tocou-me no rosto. Fria, mórbida, gentil. Nada fazia sentido:
- Isabel! Pensei que não fosse acordar nunca. – Sorriso aberto. Olhos azuis sem fim. – Eu fiz uma música pra você. Coloquei seu sonho nela. Vê se não dorme mais, não. Minhas mãos estão cansadas, não podem mais acompanhar o ritmo frenético do seu pensamento.

* A confusão foi tamanha que ainda não sei dizer o que daquilo eu sonhei. E ainda posso sentir o gosto das jujubas azuis... É só fechar os olhos.


Monique Burigo Marin

O Tempo de uma Infância

por Monique Burigo Marin às 4:30 PM 4 comentários
Passara muito tempo desde a última vez em que senti o gosto, e não falo de um gosto qualquer, nem desse tipo de gosto imaginável que você possa ter imaginado. Nada disso. Falo de um gosto raro. Raríssimo. Único. Gosto que eu descobri cedo, não cedo de cedo demais, cedo de cedo o bastante para que eu o tenha descoberto antes. Logo eu, que nem estava procurando.


Por acaso, naquele dia decidi brincar na rua. Deixei quarto escuro, livros e amigos inanimados. Ouvi as preces dos meus pais e fui ser uma criança normal. Saí porta afora dizendo que brincaria, faria amigos e seria divertido. Sabendo da mentira, sabendo que só estava fazendo isso para alegrá-los, e para dizer a mim mesma que tentei. No entanto, só aconteceu na imaginação. Crianças normais não gostam de crianças sérias e monótonas, crianças normais não deixam crianças assim brincarem na rua delas.
Assim que pisei na rua, todos congelaram os olhos em mim. Normal a normal, do primeiro ao quarto, cada qual com seu próprio par de olhos azul-céticos. Azuis de todos os tons. Escondi os olhos meio amargos atrás do capuz e apertei fortemente as mangas do moletom:
- Posso brincar?
A voz saiu torturada, sem emoção. A interrogação ficou suspensa no nó de forca de uma corda frágil durante dez batidas do meu coração acelerado. Tempo necessário para que alguém processasse minha loucura:
- Não.
Tirei o capuz, afrouxei o aperto nas mangas, ergui a mão direita e mostrei aquele dedo para os abomináveis seres de olhos azuis. Todos congelaram outra vez, por inteiro. Dei as costas e voltei para casa, torcendo para que o sol derretesse todos eles. Normal a normal, do primeiro ao quarto. Celeste, marinho, anil e petróleo.
Entrei em casa de cabeça erguida. Meu pai entusiasmou-se ao ver-me:
- Então, pequena, como foi?
- Legal.
Antes de voltar para o meu refúgio escuro, forjei um sorriso raro de dentes de leite ao passar por ele. Tranquei a porta, deitei na cama, puxei o cobertor até a cabeça, apertei as pálpebras com força e torci para dormir e acordar em outro lugar. Não sei dizer o quanto isso durou; talvez o tempo de uma infância.

Monique Burigo Marin

Ilustração: Burton Saunders
 

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