Motivos

por Monique às 11:42 PM 4 comentários

                                                                         Ilustração: Kubcia
Para o avesso de mim.

Não preciso de motivos, embora agora eu saiba que os tenho aos montes. Quando você balança a cabeça assim, eu compreendo. Compreendo porque é tão simples e óbvio. Tão simples e tão óbvio quanto estalar os dedos. Eu compreendo, sem prestar muita atenção naquilo que compreendi, pois é exatamente o tipo de coisa que é um bilhão quinhentas e quarenta e quatro vezes mais fascinante quando não compreendemos. É por isso que dispenso os motivo e os porquês. É por isso que os escondo tão bem escondidos que nem eu mesma lembro onde escondi. Minha memória é um mecanismo seletivo e às vezes fica tão inundada com o azul dos teus olhos que acaba pifando. Mas aí você aparece no lado mais bonito do meu mundo, aquele que também é seu, e arranca a tampa que eu coloquei no ralo, então tudo fica claro e simples e óbvio outra vez. O ar deixa de parecer estranhamente líquido e eu não me afogo, pelo contrário, chego à superfície muito antes do que supus. Antes mesmo de tentar gritar por socorro. Antes até do medo. De tudo o que conheço, o teu amor é o único mais veloz e intenso. É o único que eu quero ter.


Monique.

Pseudo-engano

por Monique às 9:12 PM 8 comentários
     
                                                                    Imagem: Jimmie Lundström
Façamos de conta que você ainda não bateu a porta na minha cara, e as luzes do cômodo estão acesas porque precisamos dela para ler as frases escritas nas paredes. Façamos de conta que você escreveu algo bonito sobre o dia que passamos juntos e me fez sorrir mostrando os dentes. Façamos de conta que este cômodo é grande o bastante para comportar as frases de uma vida inteira, de uma vida que é nossa. Façamos de conta que acordamos com a neve caindo atrás das janelas e atravessamos a porta que nos separa de nós mesmos. Façamos de conta que isso não mudou tudo. Façamos de conta que nada mudou. Façamos de conta que somos os mesmos de ontem, e ainda seremos os mesmos amanhã. Façamos de conta que curei meu vício e parei de me entupir com o morangos de Caio e com os morangos de Paul, Ringo, George e John. Façamos de conta que não me engano mais com os pseudo-frutos nem com os pseudo-amores nem com a tua pseudo-alegria. Façamos de conta já que, por enquanto, é só o que podemos fazer.

Monique Burigo Marin

Sorriso

por Monique às 7:07 PM 7 comentários
Ela abriu o álbum de fotografias bem na página onde ele sorria, e imediatamente foi afetada por uma onda de nostalgia e dor. Mas, não perdeu o controle, precisava superar isso. Continuou atenta ao sorriso dele, encarando-o com seriedade, como se isso pudesse murchar sua expressão absurda. No entanto, ele permaneceu impassível. Tentou imitá-lo, mas seu sorriso não sorria como o dele... Sequer sorria.
Se ao menos ela pudesse dar-se ao luxo da incerteza. Não podia, o amava, era certo. Certo? Não, não, não. Era errado.


Monique.

Fim

por Monique às 7:47 PM 10 comentários

Viu tudo fugir de si em um vídeo acelerado. Casa, escola, amigos, diversão. Até as palavras lhe fugiam dos lábios terminando em um grito abafado de socorro...! Ninguém ouviu.
O trem, o trilho, a menina e o resto da vida pela frente. As lembranças correndo e o corpo estático. Lágrimas congeladas na face. A alma clamando por um pouco de paz. Anteciparam seu fim do mundo para 2009.


Monique.

A Roda

por Monique às 4:57 PM 6 comentários

Seu cabelo estava diferente, algo em seu rosto havia mudado também. Arrisco-me a dizer que foram os olhos – eles brilhavam mais que o normal.
Estávamos em algum lugar no centro do infinito, completamente perdidos. E nos encontrávamos um no outro o tempo todo. A superfície terrestre girava. Até que senti tontura e medo, e antes que eu pudesse cair ele me segurou:
- Não se preocupe Isabel, é só a roda viva que é a vida. Feche os olhos e sinta o vento.
Não pensei duas vezes.


Monique.

O Primeiro Vôo

por Monique às 12:46 PM 8 comentários
Você, que carrega pelas ruas esse balão que não tem o ar dos meus pulmões, esse balão que me angustia. Você, que não se cala nem quando está dormindo e gosta de contar histórias para quem quiser – e para quem não quiser – ouvir. Você, que brinca com a comida e bebe a água que cai do céu, que rala os joelhos na estrada e ri da própria dor. Você, que ainda não sentiu dores piores, mostra para mim o seu sorriso de menina que tem as janelas mais vivas que já vi na vida. Você, que ri só de pensar em cócegas e esconde-esconde o próprio esconderijo para ninguém mais encontrá-lo. Você, que está sempre tão presente, não voe para tão longe de mim com seu balão de gás.


Monique.

Pensamento Derretido

por Monique às 6:09 PM 7 comentários
Minha mente adquiriu forma de queijo suíço, os pensamentos derretem e escorrem antes que eu tenha tempo de escrevê-los. Fico desesperada, colocando baldes embaixo de todas as goteiras que encontro. Haja balde para tanto pensamento derretido!

Se ao menos sobrasse algo bom para contar...


Monique.

(Des)encontros

por Monique às 4:13 PM 9 comentários
Andar arrastado, olhos cansados, cabelos descoloridos pelo tempo; foi a primeira imagem que tive do velho homem entrando no metrô onde eu estava. Levantei do meu lugar para que ele sentasse e ofereci-lhe um sorriso tímido e sem graça ao qual ele não correspondeu, apenas sentou-se como quem deposita no banco o peso de mil mundos.
Antes que o metrô partisse, apoiei as mãos no metal frio suspenso no teto, segurei com força para sobreviver à inércia. Tenho vivido para sobreviver. Congelei em meu lugar, tudo o que está parado tende a permanecer assim. No entanto, descongelei com o passar do tempo e de estações. Descongelei porque ficar na mesma posição por muito tempo dói e cansa.
Fechei os olhos e concentrei-me nos sons. Alguém abria o zíper da bolsa, alguém bocejava baixinho, alguém tamborilava com os dedos na superfície lisa de um caderno, e alguém escutava música com fones de ouvido. O som do metrô deslizando ruidosamente pelos trilhos abriu meus olhos, que olharam por debaixo da porta e viram as luzes, surgiam e sumiam. Tudo isso em segundos. Que tipo de pessoa fecha os olhos para acordar?
Com os olhos abertos encontrei primeiro a dona da bolsa, procurava desesperadamente lá dentro por algo que fugia dela. Depois, o garoto entediado que tamborilava os dedos e não iria parar tão cedo. Vi a dona do bocejo apoiar delicadamente a cabeça no ombro do desconhecido que estava ao seu lado. O desconhecido, por sua vez, não pareceu incomodar-se, pelo contrário. Por ultimo e não menos importante, vi o garoto com os fones de ouvido. Pena que a música não estivesse alta o bastante para que eu pudesse, quem sabe, reconhecê-la.
Última estação, hora da despedida. Despedida estranha em que os personagens saíram apressados sem direcionar-me um único breve olhar. Despedida que a gente dá àquilo que só encontra uma vez na vida.

- Ah, se toda despedida fosse simples assim...

Monique.

Insônia

por Monique às 11:31 AM 9 comentários

Como olhos cansados as últimas luzes apagam. A cidade está adormecida. Posso ver e ouvir os sonhos da vizinhança, todos misturados causando confusão. O garotinho do andar de baixo recém puxou as cobertas mais para cima, são elas que fazem peso sobre o corpo para que ele não levite de entusiasmo.
Enquanto todos dormem, eu sussurro ao silêncio tudo o que não ouso dizer para mais ninguém. Ando pela casa no escuro. Meus passos são ecos, não cessam, seguem todas as direções compulsivamente. Gostam especialmente de voltar.
Tentei sonhar acordada e senti meu corpo correr e o vento bater no rosto. Enxerguei um campo repleto de sonhos compactados dentro de garrafas flutuantes de todos os formatos, ergui a rede feito Bob Esponja no campo de águas vivas, e cogitei capturar os sonhos de alguém. Não o fiz. Os sonhos dos outros não fazem sentido quando estão dentro de nós, assim como os nossos não fazem sentido quando estão dentro dos outros. Não somos receptáculos de sonhos.

Monique.

Plenitude

por Monique às 6:17 PM 5 comentários
Ele a chama por inteiro. É como gosta que ela esteja, com todos os pedaços encaixados, com todos os vazios preenchidos, completa. É, curiosamente, como fica quando está com ele, é como gosta de estar.

Monique.
 

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