Rabisco

por Monique às 9:01 PM 5 comentários

Eu que sempre fui plano de fundo, não sei como estar no centro do teu mundo. Sequer tenho cara de detalhe especial. Sou rabisco monocromático e tímido: meu lugar é nas orelhas do teu papel.

Monique.
por Monique às 12:11 AM 8 comentários
Esperei, e não esperava inícios. O fim do horário de verão foi a única maneira que encontrei de voltar no tempo. Lá, nada mudou.

Monique.

Motivos

por Monique às 11:42 PM 4 comentários

                                                                         Ilustração: Kubcia
Para o avesso de mim.

Não preciso de motivos, embora agora eu saiba que os tenho aos montes. Quando você balança a cabeça assim, eu compreendo. Compreendo porque é tão simples e óbvio. Tão simples e tão óbvio quanto estalar os dedos. Eu compreendo, sem prestar muita atenção naquilo que compreendi, pois é exatamente o tipo de coisa que é um bilhão quinhentas e quarenta e quatro vezes mais fascinante quando não compreendemos. É por isso que dispenso os motivo e os porquês. É por isso que os escondo tão bem escondidos que nem eu mesma lembro onde escondi. Minha memória é um mecanismo seletivo e às vezes fica tão inundada com o azul dos teus olhos que acaba pifando. Mas aí você aparece no lado mais bonito do meu mundo, aquele que também é seu, e arranca a tampa que eu coloquei no ralo, então tudo fica claro e simples e óbvio outra vez. O ar deixa de parecer estranhamente líquido e eu não me afogo, pelo contrário, chego à superfície muito antes do que supus. Antes mesmo de tentar gritar por socorro. Antes até do medo. De tudo o que conheço, o teu amor é o único mais veloz e intenso. É o único que eu quero ter.


Monique.

Pseudo-engano

por Monique às 9:12 PM 8 comentários
     
                                                                    Imagem: Jimmie Lundström
Façamos de conta que você ainda não bateu a porta na minha cara, e as luzes do cômodo estão acesas porque precisamos dela para ler as frases escritas nas paredes. Façamos de conta que você escreveu algo bonito sobre o dia que passamos juntos e me fez sorrir mostrando os dentes. Façamos de conta que este cômodo é grande o bastante para comportar as frases de uma vida inteira, de uma vida que é nossa. Façamos de conta que acordamos com a neve caindo atrás das janelas e atravessamos a porta que nos separa de nós mesmos. Façamos de conta que isso não mudou tudo. Façamos de conta que nada mudou. Façamos de conta que somos os mesmos de ontem, e ainda seremos os mesmos amanhã. Façamos de conta que curei meu vício e parei de me entupir com o morangos de Caio e com os morangos de Paul, Ringo, George e John. Façamos de conta que não me engano mais com os pseudo-frutos nem com os pseudo-amores nem com a tua pseudo-alegria. Façamos de conta já que, por enquanto, é só o que podemos fazer.

Monique Burigo Marin

Sorriso

por Monique às 7:07 PM 7 comentários
Ela abriu o álbum de fotografias bem na página onde ele sorria, e imediatamente foi afetada por uma onda de nostalgia e dor. Mas, não perdeu o controle, precisava superar isso. Continuou atenta ao sorriso dele, encarando-o com seriedade, como se isso pudesse murchar sua expressão absurda. No entanto, ele permaneceu impassível. Tentou imitá-lo, mas seu sorriso não sorria como o dele... Sequer sorria.
Se ao menos ela pudesse dar-se ao luxo da incerteza. Não podia, o amava, era certo. Certo? Não, não, não. Era errado.


Monique.

Fim

por Monique às 7:47 PM 10 comentários

Viu tudo fugir de si em um vídeo acelerado. Casa, escola, amigos, diversão. Até as palavras lhe fugiam dos lábios terminando em um grito abafado de socorro...! Ninguém ouviu.
O trem, o trilho, a menina e o resto da vida pela frente. As lembranças correndo e o corpo estático. Lágrimas congeladas na face. A alma clamando por um pouco de paz. Anteciparam seu fim do mundo para 2009.


Monique.

A Roda

por Monique às 4:57 PM 6 comentários

Seu cabelo estava diferente, algo em seu rosto havia mudado também. Arrisco-me a dizer que foram os olhos – eles brilhavam mais que o normal.
Estávamos em algum lugar no centro do infinito, completamente perdidos. E nos encontrávamos um no outro o tempo todo. A superfície terrestre girava. Até que senti tontura e medo, e antes que eu pudesse cair ele me segurou:
- Não se preocupe Isabel, é só a roda viva que é a vida. Feche os olhos e sinta o vento.
Não pensei duas vezes.


Monique.

O Primeiro Vôo

por Monique às 12:46 PM 8 comentários
Você, que carrega pelas ruas esse balão que não tem o ar dos meus pulmões, esse balão que me angustia. Você, que não se cala nem quando está dormindo e gosta de contar histórias para quem quiser – e para quem não quiser – ouvir. Você, que brinca com a comida e bebe a água que cai do céu, que rala os joelhos na estrada e ri da própria dor. Você, que ainda não sentiu dores piores, mostra para mim o seu sorriso de menina que tem as janelas mais vivas que já vi na vida. Você, que ri só de pensar em cócegas e esconde-esconde o próprio esconderijo para ninguém mais encontrá-lo. Você, que está sempre tão presente, não voe para tão longe de mim com seu balão de gás.


Monique.

Pensamento Derretido

por Monique às 6:09 PM 7 comentários
Minha mente adquiriu forma de queijo suíço, os pensamentos derretem e escorrem antes que eu tenha tempo de escrevê-los. Fico desesperada, colocando baldes embaixo de todas as goteiras que encontro. Haja balde para tanto pensamento derretido!

Se ao menos sobrasse algo bom para contar...


Monique.

(Des)encontros

por Monique às 4:13 PM 9 comentários
Andar arrastado, olhos cansados, cabelos descoloridos pelo tempo; foi a primeira imagem que tive do velho homem entrando no metrô onde eu estava. Levantei do meu lugar para que ele sentasse e ofereci-lhe um sorriso tímido e sem graça ao qual ele não correspondeu, apenas sentou-se como quem deposita no banco o peso de mil mundos.
Antes que o metrô partisse, apoiei as mãos no metal frio suspenso no teto, segurei com força para sobreviver à inércia. Tenho vivido para sobreviver. Congelei em meu lugar, tudo o que está parado tende a permanecer assim. No entanto, descongelei com o passar do tempo e de estações. Descongelei porque ficar na mesma posição por muito tempo dói e cansa.
Fechei os olhos e concentrei-me nos sons. Alguém abria o zíper da bolsa, alguém bocejava baixinho, alguém tamborilava com os dedos na superfície lisa de um caderno, e alguém escutava música com fones de ouvido. O som do metrô deslizando ruidosamente pelos trilhos abriu meus olhos, que olharam por debaixo da porta e viram as luzes, surgiam e sumiam. Tudo isso em segundos. Que tipo de pessoa fecha os olhos para acordar?
Com os olhos abertos encontrei primeiro a dona da bolsa, procurava desesperadamente lá dentro por algo que fugia dela. Depois, o garoto entediado que tamborilava os dedos e não iria parar tão cedo. Vi a dona do bocejo apoiar delicadamente a cabeça no ombro do desconhecido que estava ao seu lado. O desconhecido, por sua vez, não pareceu incomodar-se, pelo contrário. Por ultimo e não menos importante, vi o garoto com os fones de ouvido. Pena que a música não estivesse alta o bastante para que eu pudesse, quem sabe, reconhecê-la.
Última estação, hora da despedida. Despedida estranha em que os personagens saíram apressados sem direcionar-me um único breve olhar. Despedida que a gente dá àquilo que só encontra uma vez na vida.

- Ah, se toda despedida fosse simples assim...

Monique.
 

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