Um dia, a descoberta

por Monique Burigo Marin às 9:55 PM 8 comentários

É tempo de descobertas. Não sou quem eu achava que fosse, tampouco sou quem achavam que eu era. Sei que eu não tinha esse sorriso parado, e morto, e frágil. Que desmancha só de olhar. E não eram minhas essas olheiras tão fundas nem esses olhos tão rasos.
Eu escrevia para compartilhar alegria, não para encontrá-la.
O equilíbrio que eu tinha cansou-se, escolheu um dos lados do muro, depois descobriu que era o lado errado. Não pôde voltar. Tudo em mim é caos e está por um triz. Tudo em mim é esperança que morre todo dia. Acho que tive pressa e acabei vestindo a alma do avesso.
Entendo que tudo se transforma e se recicla, só não sei como receber o novo, só não sei ainda como aceitá-lo, não sei e não quero, e não querer me faz temer que o dia chegue. Temo que chegue o dia. Temo que ele nasça sorrateiro com um sol camuflado de lua por trás das nuvens pesadas de um céu azul petróleo. Temo que um dia seja o dia em que minhas mãos não serão necessárias para tapar os teus bocejos, nem para afagar os teus cabelos, nem para acenar pro teu passado. Temo que morra sem ser notado, como se fosse um dia qualquer.


Monique Burigo Marin

Eu, tu e ele

por Monique Burigo Marin às 6:49 PM 9 comentários
                                                                        Ilustração: Sindia
Ela o olhou, só para ter certeza de que ele também a estava olhando, - com aquele sorriso que se curva mais para a direita do que para a esquerda - e estava. O sorriso dele tem cor de Danoninho e sabor de eternidade. Nenhum outro sorriso no mundo lhe dói tanto.
Sua existência, mesmo que latente, me faz querer existir. Assim mesmo, desse jeito meio torto, com os pronomes e os sentimentos no lugar errado.


* Um muitíssimo obrigada ao Wiliam que fez as modificações especiais - em mim e - em meu blog.


Monique Burigo Marin

Rabisco

por Monique às 9:01 PM 5 comentários

Eu que sempre fui plano de fundo, não sei como estar no centro do teu mundo. Sequer tenho cara de detalhe especial. Sou rabisco monocromático e tímido: meu lugar é nas orelhas do teu papel.

Monique.
por Monique às 12:11 AM 8 comentários
Esperei, e não esperava inícios. O fim do horário de verão foi a única maneira que encontrei de voltar no tempo. Lá, nada mudou.

Monique.

Motivos

por Monique às 11:42 PM 4 comentários

                                                                         Ilustração: Kubcia
Para o avesso de mim.

Não preciso de motivos, embora agora eu saiba que os tenho aos montes. Quando você balança a cabeça assim, eu compreendo. Compreendo porque é tão simples e óbvio. Tão simples e tão óbvio quanto estalar os dedos. Eu compreendo, sem prestar muita atenção naquilo que compreendi, pois é exatamente o tipo de coisa que é um bilhão quinhentas e quarenta e quatro vezes mais fascinante quando não compreendemos. É por isso que dispenso os motivo e os porquês. É por isso que os escondo tão bem escondidos que nem eu mesma lembro onde escondi. Minha memória é um mecanismo seletivo e às vezes fica tão inundada com o azul dos teus olhos que acaba pifando. Mas aí você aparece no lado mais bonito do meu mundo, aquele que também é seu, e arranca a tampa que eu coloquei no ralo, então tudo fica claro e simples e óbvio outra vez. O ar deixa de parecer estranhamente líquido e eu não me afogo, pelo contrário, chego à superfície muito antes do que supus. Antes mesmo de tentar gritar por socorro. Antes até do medo. De tudo o que conheço, o teu amor é o único mais veloz e intenso. É o único que eu quero ter.


Monique.

Pseudo-engano

por Monique às 9:12 PM 8 comentários
     
                                                                    Imagem: Jimmie Lundström
Façamos de conta que você ainda não bateu a porta na minha cara, e as luzes do cômodo estão acesas porque precisamos dela para ler as frases escritas nas paredes. Façamos de conta que você escreveu algo bonito sobre o dia que passamos juntos e me fez sorrir mostrando os dentes. Façamos de conta que este cômodo é grande o bastante para comportar as frases de uma vida inteira, de uma vida que é nossa. Façamos de conta que acordamos com a neve caindo atrás das janelas e atravessamos a porta que nos separa de nós mesmos. Façamos de conta que isso não mudou tudo. Façamos de conta que nada mudou. Façamos de conta que somos os mesmos de ontem, e ainda seremos os mesmos amanhã. Façamos de conta que curei meu vício e parei de me entupir com o morangos de Caio e com os morangos de Paul, Ringo, George e John. Façamos de conta que não me engano mais com os pseudo-frutos nem com os pseudo-amores nem com a tua pseudo-alegria. Façamos de conta já que, por enquanto, é só o que podemos fazer.

Monique Burigo Marin

Sorriso

por Monique às 7:07 PM 7 comentários
Ela abriu o álbum de fotografias bem na página onde ele sorria, e imediatamente foi afetada por uma onda de nostalgia e dor. Mas, não perdeu o controle, precisava superar isso. Continuou atenta ao sorriso dele, encarando-o com seriedade, como se isso pudesse murchar sua expressão absurda. No entanto, ele permaneceu impassível. Tentou imitá-lo, mas seu sorriso não sorria como o dele... Sequer sorria.
Se ao menos ela pudesse dar-se ao luxo da incerteza. Não podia, o amava, era certo. Certo? Não, não, não. Era errado.


Monique.

Fim

por Monique às 7:47 PM 10 comentários

Viu tudo fugir de si em um vídeo acelerado. Casa, escola, amigos, diversão. Até as palavras lhe fugiam dos lábios terminando em um grito abafado de socorro...! Ninguém ouviu.
O trem, o trilho, a menina e o resto da vida pela frente. As lembranças correndo e o corpo estático. Lágrimas congeladas na face. A alma clamando por um pouco de paz. Anteciparam seu fim do mundo para 2009.


Monique.

A Roda

por Monique às 4:57 PM 6 comentários

Seu cabelo estava diferente, algo em seu rosto havia mudado também. Arrisco-me a dizer que foram os olhos – eles brilhavam mais que o normal.
Estávamos em algum lugar no centro do infinito, completamente perdidos. E nos encontrávamos um no outro o tempo todo. A superfície terrestre girava. Até que senti tontura e medo, e antes que eu pudesse cair ele me segurou:
- Não se preocupe Isabel, é só a roda viva que é a vida. Feche os olhos e sinta o vento.
Não pensei duas vezes.


Monique.

O Primeiro Vôo

por Monique às 12:46 PM 8 comentários
Você, que carrega pelas ruas esse balão que não tem o ar dos meus pulmões, esse balão que me angustia. Você, que não se cala nem quando está dormindo e gosta de contar histórias para quem quiser – e para quem não quiser – ouvir. Você, que brinca com a comida e bebe a água que cai do céu, que rala os joelhos na estrada e ri da própria dor. Você, que ainda não sentiu dores piores, mostra para mim o seu sorriso de menina que tem as janelas mais vivas que já vi na vida. Você, que ri só de pensar em cócegas e esconde-esconde o próprio esconderijo para ninguém mais encontrá-lo. Você, que está sempre tão presente, não voe para tão longe de mim com seu balão de gás.


Monique.
 

Template e imagens do layout por Wiliam Jose Koester.