Epifania no café da tarde

por Monique Burigo Marin às 2:59 PM 3 comentários
   Você me atrai como a rachadura no copo de vidro atrai meus lábios: acidentalmente. Não ligo se me cortar, minha sede é maior que meu medo.


Monique Burigo Marin

Sem imagem (porque o sorriso nos teus olhos ficou sério quando eu te fotografei)

por Monique Burigo Marin às 2:30 AM 2 comentários
   Ela está sempre se escondendo – pensou ele – atrás de livros, no meio dos cabelos, embaixo do cobertor, dentro de si. Deve ser por isso que ela despreza o verão. Até o sorriso, tão bonito e raro, ela esconde com as mãos. Cobre os lábios, mas felizmente se esquece dos olhos. Os olhos contêm o pedaço mais bonito do sorriso.
   Quanto mais ela se esconde, tanto mais ele deseja encontrá-la, mas sua especialidade sempre foi perder. Perdeu-se em pensamentos pensando nela e o que ia dizer agora se escondeu também.

(aqui)

    Alegra-se toda vez que revela um centímetro dela, assim por acaso, quando ela se esquece do mundo. Seu corpo é um filme fotográfico trancado em uma sala escura. Essas coisas levam tempo. E do tempo dependem. Não abra a porta ainda.

Monique Burigo Marin

Noctívago

por Monique Burigo Marin às 2:30 PM 3 comentários

   
   Como um inseto, você sobe pelos meus dedos. Leve. Lento. Objetivo. Rasteja sobre o meu corpo frio e desnudo a procura de um calor que não te pertence. Persegue meus lábios sem perceber que continuo imóvel, entorpecida. Provoca arrepios, mas não me entrego. Sou resistente como o seu desejo.
   Penso em te esmagar, em te soprar pra longe, em gritar por socorro. Mas aí você me morde e todos os pensamentos se perdem e se partem... A resistência também. Farelos de lembranças caem sobre a barriga – lar de borboletas imortais – e eu me pergunto quando foi a última vez em que senti meu corpo tremer assim.
   Você atravessa minha pele e envenena minha corrente sanguínea. Quebra meus ossos e confunde meu cérebro. Você me invade de um jeito maligno e ainda me arranca um sorriso dos lábios. Sorriso sádico.
   Os sentidos se misturam na sinestesia dos seus olhos. Minhas mãos desistem de te alcançar, já não te querem longe. Seu olfato fareja o sabor do medo se distanciando. Seu tato tateia meus poros e eles se fecham pra que você não se vá. Mas você se foi.

Monique Burigo Marin

Ele x Ela

por Monique Burigo Marin às 12:28 AM 4 comentários


  Estou te escrevendo pra contar que tenho algo que você deseja. É sério, não ouse duvidar – nem pular para o final desta carta.
  Sabe, já tem um tempo que voltei a chamar o quadro vivo, aberto na minha parede, de janela. É que tem um tempo que a vida se foi. Tem um tempo que você se foi... Mas, o fato é que a janela estava escondida atrás da cortina há tanto, que eu já tinha me esquecido do vaso que você deixou nela. Das tuas flores, só me restou a lembrança olfativa.
  Acordei um dia com o sol entrando pelas frestas. Há muito tempo não havia frestas. Há muito tempo não havia sol. Então, notei uma saliência na cortina e, quando ela começou a se movimentar, tive certeza de que era um bicho. Não era. Tem um tempo que as minhas certezas são incertas. 
   Pare de bocejar! Eu sei que você está crente de que eu não mudei nada e que ainda sou a mesma pessoa que levava uma eternidade só pra dizer que – é, eu ainda sou, só que. Tenha paciência, vou direto ao ponto do jeito mais pontual que eu puder.
  Eu, que até hoje não encontrei meu nome, não sei mais como te chamar. Seu nome parece não fazer mais sentido. Suas pernas cresceram saudáveis, no vaso que por pouco eu não defenestrei. Desde quando eu descobri, estou cuidando delas como nunca cuidei de nada na vida. Nem de mim.
  Vem buscar e não se esquece de trazer o meu nome. Eu sei que ele está contigo, sempre esteve.


P.S: Ainda tem muito chão pra correr.

Monique Burigo Marin

Achados e Perdidos

por Monique Burigo Marin às 9:35 PM 7 comentários
Pintura: Brian M. Viveros

   Naquele dia, o sol ardia como a ferida aberta em seus dedos finos – e era noite. Amanda se esquivava como podia, andava cambaleante pela rua. Os outros a julgavam, “mais uma perdida na vida”.  Não sabiam eles que foi a vida quem se perdeu.
   Emergiu de seus pensamentos ao sentir o frio inconfundível de construção vazia. Finalmente um lugar digno de sua presença. Finalmente um lugar onde repousar o maltratado esqueleto. Um lugar cinza e oco e frio, bem no coração da cidade. Ela conhecia, melhor que ninguém, esse tipo de construção. Seu próprio coração estava cheio dessas, quase completamente povoado por elas. Ali ela se sentiria em casa.
   Entrou, sem bater, pelo buraco sem porta. Olhou em volta sem muito interesse, pois estava muito cansada para se interessar por qualquer coisa. Sentou naquilo que parecia uma escada para o segundo andar, tombou os ombros e a cabeça para frente, olhou brevemente para as próprias mãos, onde lágrimas pingavam como chuva. Naquele dia, Amanda chorou cada gota aprisionada dentro das nuvens negras que carregava dentro de si.
   “Filho da puta”, murmurou ela, já conformada com a impossibilidade de esquecê-lo. “Eu sabia”. Não, ela não sabia. “Eu sempre soube”. Ela não sabia porra nenhuma. Xingar era apenas a sua maneira de dizer que sente muito. Sente muito sentir tanto.

   Naquele dia, o sol ardia como a lembrança dela – e era noite. Ele caminhava distraído, seus passos fingiam firmeza. A música vinda dos fones de ouvido modificava o mundo ao seu redor. Os outros o julgavam, “mais um perdido no mundo”. Não sabiam eles que foi o mundo quem se perdeu.
   Emergiu de seus pensamentos ao sentir o calor inconfundível do corpo dela. Deteve seus passos em frente ao vazio de uma construção. Mas não fazia sentido, o lugar era indigno da presença daquela mulher. Seguiu adiante. Perdeu o calor do corpo dela pelo caminho. Perderam-se.


Monique Burigo Marin

Papel e Tinta

por Monique Burigo Marin às 9:08 PM 4 comentários




O que me restou
de você 
foi este vazio 
em preto e branco. 



O que me restou
de você 
foi este vazio 
em preto e branco. 



O que me restou
de você 
foi este vazio 
em preto e branco. 



O que me restou
de você 
foi este vazio 
em preto branco. 




Monique Burigo Marin

Solilóquio

por Monique Burigo Marin às 9:15 PM 4 comentários

- Talvez eu esteja tentando remendar cacos de vidro.

- Como naquela vez em que você quebrou o meu copo de requeijão.
- Não tinha cola.
- Não tinha agulha.
- Tinha linha.
- Eu tinha você.

(...)

- Talvez eu desista.
- Talvez você passe por cima disso.
- Talvez eu passe por cima disso e me corte tão fundo que nem consiga remover os pedaços.
- De repente você acaba por se adaptar ao corpo estranho dentro do seu.

(...)

- Talvez o corpo estranho seja eu. 


Monique Burigo Marin

Le mot juste

por Monique Burigo Marin às 6:42 PM 2 comentários
Tive a felicidade de conhecer, ainda que pouco, um escritor que tinha para tudo uma palavra certa. Para não perder excertos, ele carregava no bolso uma caneta nanquim, foi com ela que escreveu na palma da minha mão o que não se escreve. Admiradas com as palavras dele, as minhas, crianças de pernas bambas, engatinharam de volta para dentro de mim. Ele percebeu.
Ele percebeu e, como se fizesse aquilo todos os dias, empurrou uma por uma para fora do ninho. Acima das nuvens, todos os 800 gritos mudos que eu ainda estava guardando, ganharam voz. Aos bastardos, ofereci o mais rápido que pude minha compaixão e uma pilha de papel em branco para suavizar a queda. Em branco - para que não esmagassem as outras.
Se ele conhecesse eus e o cotidiano, ainda que pouco, saberia que aquilo que foi escrito, foi escrito com caneta permanente. 

* Tudo o que me toca vira tatuagem. 

Monique Burigo Marin

Ama-dores

por Monique Burigo Marin às 1:43 PM 4 comentários

Consequência

por Monique Burigo Marin às 1:18 PM 2 comentários
 Tenho medo de sair de casa e encontrar você. Tenho medo de sair de casa e não te encontrar. Pela rua, seus olhos me sorriem em rostos estranhos. Seus passos me seguem na direção errada.  É que eu deixei pistas falsas pelo caminho.  Sinto muito. Pensei que eu estivesse lá, mas eu não estava.  Pensei que eu estivesse aqui, mas não.
   Eu ando precisando esquecer de tudo isso que a gente não foi juntos. Do seu jeito de conversar comigo dentro de ti. Desta minha mania de querer te escutar, de querer te entender, de querer viver pra sempre aí dentro. Eu ando.
   Quem me vê passar, assim despreocupada, não me reconhece. Não vê, no meu jeito de andar, os buracos e as pedras e as guerras que enfrentei. Não vê porque a juventude oculta a alma em decomposição. E quem me vê andar, assim leve, não imagina o peso que é carregar você no pensamento.
Eu estou contigo, e não vou embora. Nem que pra isso eu tenha que ficar sem mim.
Monique Burigo Marin
 

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