Monique Burigo Marin
Epifania no café da tarde
Você me atrai como a rachadura no copo de vidro atrai meus
lábios: acidentalmente. Não ligo se me cortar, minha sede é maior que meu medo.
Sem imagem (porque o sorriso nos teus olhos ficou sério quando eu te fotografei)
Ela está sempre se escondendo – pensou ele – atrás de
livros, no meio dos cabelos, embaixo do cobertor, dentro de si. Deve ser por
isso que ela despreza o verão. Até o sorriso, tão bonito e raro, ela esconde
com as mãos. Cobre os lábios, mas felizmente se esquece dos olhos. Os olhos
contêm o pedaço mais bonito do sorriso.
Quanto mais ela se esconde, tanto mais ele deseja encontrá-la,
mas sua especialidade sempre foi perder. Perdeu-se em pensamentos pensando nela
e o que ia dizer agora se escondeu também.
(aqui)
Alegra-se toda vez que revela um centímetro dela, assim por
acaso, quando ela se esquece do mundo. Seu corpo é um filme fotográfico
trancado em uma sala escura. Essas coisas levam tempo. E do tempo dependem. Não
abra a porta ainda.
Monique Burigo Marin
Noctívago
Como um inseto, você sobe pelos
meus dedos. Leve. Lento. Objetivo. Rasteja sobre o meu corpo frio e desnudo a
procura de um calor que não te pertence. Persegue meus lábios sem perceber que
continuo imóvel, entorpecida. Provoca arrepios, mas não me entrego. Sou
resistente como o seu desejo.
Penso em te esmagar, em te soprar
pra longe, em gritar por socorro. Mas aí você me morde e todos os pensamentos
se perdem e se partem... A resistência também. Farelos de lembranças caem sobre
a barriga – lar de borboletas imortais – e eu me pergunto quando foi a última
vez em que senti meu corpo tremer assim.
Você atravessa minha pele e envenena
minha corrente sanguínea. Quebra meus ossos e confunde meu cérebro. Você me
invade de um jeito maligno e ainda me arranca um sorriso dos lábios. Sorriso
sádico.
Os sentidos se misturam na
sinestesia dos seus olhos. Minhas mãos desistem de te alcançar, já não te querem
longe. Seu olfato fareja o sabor do medo se distanciando. Seu tato tateia meus
poros e eles se fecham pra que você não se vá. Mas você se foi.
Monique Burigo Marin
Ele x Ela
Estou te escrevendo pra contar que tenho algo que você
deseja. É sério, não ouse duvidar – nem pular para o final desta carta.
Sabe, já tem um tempo que voltei a chamar o quadro vivo, aberto na
minha parede, de janela. É que tem um tempo que a vida se foi. Tem um tempo que
você se foi... Mas, o fato é que a janela estava escondida atrás da cortina há
tanto, que eu já tinha me esquecido do vaso que você deixou nela. Das tuas
flores, só me restou a lembrança olfativa.
Acordei um dia com o sol entrando pelas frestas. Há muito
tempo não havia frestas. Há muito tempo não havia sol. Então, notei uma saliência na cortina e, quando ela começou a
se movimentar, tive certeza de que era um bicho. Não era. Tem um tempo que as
minhas certezas são incertas.
Pare de bocejar! Eu sei que você está crente de que eu não
mudei nada e que ainda sou a mesma pessoa que levava uma eternidade só pra
dizer que – é, eu ainda sou, só que. Tenha paciência, vou direto ao ponto do
jeito mais pontual que eu puder.
Eu, que até hoje não encontrei meu nome, não sei mais como
te chamar. Seu nome parece não fazer mais sentido. Suas pernas cresceram
saudáveis, no vaso que por pouco eu não defenestrei. Desde quando eu descobri,
estou cuidando delas como nunca cuidei de nada na vida. Nem de mim.
Vem buscar e não se esquece de trazer o meu nome. Eu sei que
ele está contigo, sempre esteve.
P.S: Ainda tem muito chão pra correr.
Monique Burigo Marin
Achados e Perdidos
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| Pintura: Brian M. Viveros |
Naquele dia, o sol ardia como a ferida aberta em seus dedos finos – e era noite. Amanda se esquivava como podia, andava cambaleante pela rua. Os outros a julgavam, “mais uma perdida na vida”. Não sabiam eles que foi a vida quem se perdeu.
Emergiu de seus pensamentos ao sentir o frio inconfundível de construção vazia. Finalmente um lugar digno de sua presença. Finalmente um lugar onde repousar o maltratado esqueleto. Um lugar cinza e oco e frio, bem no coração da cidade. Ela conhecia, melhor que ninguém, esse tipo de construção. Seu próprio coração estava cheio dessas, quase completamente povoado por elas. Ali ela se sentiria em casa.
Entrou, sem bater, pelo buraco sem porta. Olhou em volta sem muito interesse, pois estava muito cansada para se interessar por qualquer coisa. Sentou naquilo que parecia uma escada para o segundo andar, tombou os ombros e a cabeça para frente, olhou brevemente para as próprias mãos, onde lágrimas pingavam como chuva. Naquele dia, Amanda chorou cada gota aprisionada dentro das nuvens negras que carregava dentro de si.
“Filho da puta”, murmurou ela, já conformada com a impossibilidade de esquecê-lo. “Eu sabia”. Não, ela não sabia. “Eu sempre soube”. Ela não sabia porra nenhuma. Xingar era apenas a sua maneira de dizer que sente muito. Sente muito sentir tanto.
Naquele dia, o sol ardia como a lembrança dela – e era noite. Ele caminhava distraído, seus passos fingiam firmeza. A música vinda dos fones de ouvido modificava o mundo ao seu redor. Os outros o julgavam, “mais um perdido no mundo”. Não sabiam eles que foi o mundo quem se perdeu.
Emergiu de seus pensamentos ao sentir o calor inconfundível do corpo dela. Deteve seus passos em frente ao vazio de uma construção. Mas não fazia sentido, o lugar era indigno da presença daquela mulher. Seguiu adiante. Perdeu o calor do corpo dela pelo caminho. Perderam-se.
Monique Burigo Marin
Papel e Tinta
O
que me restou
de você
foi este vazio
em preto e branco.
O que me restou
de você
foi este vazio
em preto e branco.
O que me restou
de você
foi este vazio
em preto e branco.
O que me restou
de você
foi este vazio
em preto e branco.
Monique Burigo Marin
Solilóquio
- Talvez eu esteja tentando remendar cacos de vidro.
- Como naquela vez em que você quebrou o meu copo de requeijão.
- Não tinha cola.
- Não tinha agulha.
- Tinha linha.
- Eu tinha você.
(...)
- Talvez eu desista.
- Talvez você passe por cima disso.
- Talvez eu passe por cima disso e me corte tão fundo que nem consiga remover os pedaços.
- De repente você acaba por se adaptar ao corpo estranho dentro do seu.
(...)
- Talvez o corpo estranho seja eu.
Monique Burigo Marin
Le mot juste
Tive a
felicidade de conhecer, ainda que pouco, um escritor que tinha para tudo uma
palavra certa. Para não perder excertos, ele carregava no bolso uma caneta nanquim, foi com ela que escreveu na
palma da minha mão o que não se escreve. Admiradas com as palavras dele, as minhas, crianças de pernas
bambas, engatinharam de volta para dentro de mim. Ele percebeu.
Ele percebeu e,
como se fizesse aquilo todos os dias, empurrou uma por uma para fora do ninho. Acima das nuvens, todos os 800 gritos mudos que eu ainda estava
guardando, ganharam voz. Aos bastardos,
ofereci o mais rápido que pude minha compaixão e uma pilha de papel em branco para
suavizar a queda. Em branco - para que não esmagassem as outras.
Se ele conhecesse eus e o cotidiano, ainda que pouco, saberia
que aquilo que foi escrito, foi escrito com caneta permanente.
* Tudo o que me
toca vira tatuagem.
Monique Burigo Marin
Consequência
Tenho medo de sair de casa e encontrar você. Tenho medo de sair de casa e não te encontrar. Pela rua, seus olhos me sorriem em rostos estranhos. Seus passos me seguem na direção errada. É que eu deixei pistas falsas pelo caminho. Sinto muito. Pensei que eu estivesse lá, mas eu não estava. Pensei que eu estivesse aqui, mas não.
Eu ando precisando esquecer de tudo isso que a gente não foi juntos. Do seu jeito de conversar comigo dentro de ti. Desta minha mania de querer te escutar, de querer te entender, de querer viver pra sempre aí dentro. Eu ando.
Quem me vê passar, assim despreocupada, não me reconhece. Não vê, no meu jeito de andar, os buracos e as pedras e as guerras que enfrentei. Não vê porque a juventude oculta a alma em decomposição. E quem me vê andar, assim leve, não imagina o peso que é carregar você no pensamento.
Eu estou contigo, e não vou embora. Nem que pra isso eu tenha que ficar sem mim.
Monique Burigo Marin
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