Antes de Isabel

por Monique Burigo Marin às 5:30 PM 13 comentários

E então ele fez o que achava que qualquer pessoa procurando o amor faria. Saiu de casa, pela primeira vez em meses, só para começar. E lá se foi, solitário e otimista, pelas ruas da cidade em direção ao lugar que as pessoas que procuram o amor vão.
Já cansado de andar em ziguezague o dia inteiro, admitiu que não sabia aonde queria chegar. Talvez não quisesse chegar a lugar algum, afinal. Talvez o jeito fosse esperar sentado. Talvez  fosse demasiadamente tarde.
Ele ia morrer balançando em uma cadeira de balanço na varanda de casa com um livro aberto nas mãos.


Monique Burigo Marin

D

por Monique Burigo Marin às 8:01 PM 11 comentários
Ilustração: Bruno Del Rey

Queria que seu nome não fosse um nome comum. Procurei por ele e também o encontrei em toda parte. Mas, nenhum deles é autor dessas palavras que sempre mudam o ritmo da minha respiração. Queria que você soubesse. Queria poder dizer-te. Se ao menos seu nome me levasse até você...
Mas estás tão longe, e tão perto. Perdoe-me a pieguice e a falta de criatividade. Mas quando perco as suas pistas o ritmo quase cessa, sobrevivo em estado latente de felicidade.
É que suas palavras acendem as velas da minha sala escura. Aclaram os pensamentos mais obscuros e ocultos das minhas infinitas prateleiras. Aspiram o pó que acumulou sobre as sensações. Se ao menos você soubesse...
Esse sentimento é mágico e instantâneo. E mais gostoso que Miojo.

Monique Burigo Marin

Irreversível

por Monique Burigo Marin às 5:56 PM 10 comentários
Às vezes me pergunto se também irei, um dia, separar na foto os nossos corpos. Ou se farei uma fogueira com as lembranças de nós dois. 
Suspeito que depois eu tentaria, em desespero, concertar com fita adesiva até aquilo que não tem mais jeito.


Monique Burigo Marin

Descanse em Paz

por Monique Burigo Marin às 6:12 PM 9 comentários
O dono da camisa fora um homem triste, amargurado, incompreendido. Seu único momento de paz era quando pintava.
As mãos sujas de tinta apanhavam no ar as imagens mais sinceras. Denunciavam as mentirosas e puniam as criminosas. Era o juiz do próprio mundo, dono das próprias mãos. Autor das mais sombrias histórias.
Tingia de cores intensas os quadros e as paredes. Sua angustia era arte e nem sabia. Não queria saber. Sabia o bastante e, de fato, melhor seria se não soubesse.
Hoje penduro a camisa dele no armário, reparo as manchas que não reparei quando a comprei no brechó. Essas manchas alaranjadas são a paz de um homem morto. Agora eu sei.


Monique Burigo Marin

Prisioneira

por Monique Burigo Marin às 9:33 PM 9 comentários
Imagem: Brian M Viveros

Sentou naquela escada de madeira que fica em frente ao mar só para torturar-se com a areia entrando nos olhos. Mergulhada em sua própria nuvem de fumaça, pensou em desistir de tudo. Tudo mesmo. Até agora suas insistências só aprofundaram os cortes.
Entorpecida pelas ilusões da vida, caiu inúmeras vezes em teias invisíveis. Apoiou-se em pernas bambas. Tentou, a todo custo, desvencilhar-se das amarras. Enroscou-se ainda mais.
Tragou profundamente as lembranças mais amargas e soprou devagar. Uma por uma.
...Mas é difícil libertar-se daquilo que se é.


Monique Burigo Marin

Secreto

por Monique Burigo Marin às 7:56 PM 9 comentários

Hoje eu não quis ser a mesma de sempre. Não sequei o cabelo depois do banho. Deixei cada gota gotejar o seu instante secreto de felicidade. Senti a água correr pelas costas. Um trajeto agonizante e frio, arrepio. Arrepio.


Monique Burigo Marin

A Moça e a Poça

por Monique Burigo Marin às 11:45 AM 4 comentários

Há nessa mistura de cores dos teus olhos uma poça de maré onde gosto de brincar. Esse habitat é tão seguro! Dispenso guelras, escamas, cilindro e escafandro. A correnteza não me afeta. Aceita-me do jeito que sou. Nadando cachorrinho ou com bóias de golfinho.
Essa poça que ilumina o teu rosto muda de cor de acordo com o que está sendo refletido. E pode ter as cores mais coloridas, dignas de sonhos infantis. Mas também pode ser profunda e fria e dura e escura como o céu antes da chuva. Intransponível.
Não analise com olhos clínicos essas minhas palavras. Eu não sei escrever artigos científicos. E o que sei só pode ser compreendido com a imaginação. Sei também que você lembra-se de todos os medos que inventei só para dormir segura nas tuas mãos.
A tua presença é calmaria. É som de ondas quebrando no mar. É brisa secando as lágrimas teimosas.
Nessas minhas brincadeiras, tomo cuidado. Só toco com o coração, pois as mãos também ferem e sufocam. As tuas águas são perenes como o meu amor por ti. E todo o carinho que eu possa oferecer ainda será pouco.

Feliz aniversário, minha irmã.

Monique Burigo Marin

Anônimo

por Monique Burigo Marin às 6:17 PM 8 comentários


                                                                      Ilustração: Vasylissa
Se já não importa, já não entendo por que senti as mãos formigarem e o nó apertar quando li teu nome. A cada nova palavra, a pergunta muda perguntando para onde foram os rabiscos e as dobras e as manchas de Toddy. Os teus livros não têm cara de lidos! Isso apagou um dos teus traços mais bonitos.
Fiz de ti meu personagem predileto e agora te tornas realidade. Nunca me pertenceu. Foge deixando minhas páginas em branco.
A verdade é que eu li tua mão e tuas cicatrizes e tuas reticências tantas vezes que te envelheci. Aumentei a nitidez das tuas rugas invisíveis.
Espero que um dia você me perdoe, espero quase desesperançada que um dia eu me perdoe por não conseguir me livrar desse sentimento tão sem nome e sem razão.

Monique Burigo Marin

Primavera

por Monique Burigo Marin às 11:46 AM 7 comentários
A primavera me entristece. Coisa estranha de se dizer. O despertar é também o morrer.
A flor seca no vaso floresce. Tem pressa de viver. Não sabe que é fugaz o seu dever.

A primavera me expulsa para fora de mim. Confidencia ao mundo meu segredo mais secreto: Não estou pronta. Perdi os espinhos tentando prolongar o inverno.

Monique Burigo Marin

Ilustração: Vasylissa

Amanda não manda

por Monique Burigo Marin às 10:33 PM 6 comentários


                                                                    Ilustração: Cybergranny
Amanda gosta de andar por becos escuros em noites frias. Solidão e silêncio são tudo o que precisa. Engana-se.
O medo é fiel companhia. Acompanha os passos firmes do coturno trinta e sete. Só ele acelera os batimentos. Só ele. Engana-se.
Sacode os pés tentando afastar a própria sombra. Não pode ser livre desse jeito. Não enquanto estiver presa a esse borrão moldável e indeciso. Essa mancha instável e inconstante que denuncia sua chegada e acompanha sua partida. Ímpio defeito de fabricação.
Tudo o que vê parece sujo. O cheiro dos bueiros impregnando as roupas, entrando pelos poros, contaminando a alma. Escuta: o som da violência fere os tímpanos. Moedas no chapéu para quem ousar tentar povoar o mundo com música. Tapinha no ombro vem de brinde. Abraço sincero para quem arrancar, permanentemente, esse gosto amargo, e podre, e mofo de quem nunca provou a doçura da vida.
Amanda é pura sinestesia, e não manda, nem nos próprios sentidos.

Monique Burigo Marin
 

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