Primavera

por Monique Burigo Marin às 11:46 AM 7 comentários
A primavera me entristece. Coisa estranha de se dizer. O despertar é também o morrer.
A flor seca no vaso floresce. Tem pressa de viver. Não sabe que é fugaz o seu dever.

A primavera me expulsa para fora de mim. Confidencia ao mundo meu segredo mais secreto: Não estou pronta. Perdi os espinhos tentando prolongar o inverno.

Monique Burigo Marin

Ilustração: Vasylissa

Amanda não manda

por Monique Burigo Marin às 10:33 PM 6 comentários


                                                                    Ilustração: Cybergranny
Amanda gosta de andar por becos escuros em noites frias. Solidão e silêncio são tudo o que precisa. Engana-se.
O medo é fiel companhia. Acompanha os passos firmes do coturno trinta e sete. Só ele acelera os batimentos. Só ele. Engana-se.
Sacode os pés tentando afastar a própria sombra. Não pode ser livre desse jeito. Não enquanto estiver presa a esse borrão moldável e indeciso. Essa mancha instável e inconstante que denuncia sua chegada e acompanha sua partida. Ímpio defeito de fabricação.
Tudo o que vê parece sujo. O cheiro dos bueiros impregnando as roupas, entrando pelos poros, contaminando a alma. Escuta: o som da violência fere os tímpanos. Moedas no chapéu para quem ousar tentar povoar o mundo com música. Tapinha no ombro vem de brinde. Abraço sincero para quem arrancar, permanentemente, esse gosto amargo, e podre, e mofo de quem nunca provou a doçura da vida.
Amanda é pura sinestesia, e não manda, nem nos próprios sentidos.

Monique Burigo Marin

Assimétrico

por Monique Burigo Marin às 8:21 PM 7 comentários

                                                                                         Ilustração: Berk Öztürk
Tenho simetria bilateral. Não me dividirei em partes iguais se continuarem puxando de todos os lados.


Monique Burigo Marin

Justo Em Mim

por Monique Burigo Marin às 6:30 PM 4 comentários

IlustraçãoSandy


Por Rafael Menotti Mazini

Isabel acorda
Olhos semicerrados
Pensamentos ínfimos
Nada de novo

Já não tem certeza
Se os campos de morango
terão mesmo sabor
E as cores, o seu valor

Sem entender
Se lança ao mundo
Tenta abraçá-lo
Mas é grande para os seus braços
Diz que vai crescer e alterar tudo

No escuro da noite
Sons de lamúria
Outro pesadelo
Noite mal dormida

Isabel acorda
O mundo não a escolheu
Ela já esperava
Campos de morango
De sabor amargo
Sem entender
Escuta choros baixinhos
De uma gaita de boca

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Incrível como às vezes, os outros interpretam nossos personagens melhor do que nós mesmos.

Oceano

por Monique Burigo Marin às 2:46 PM 9 comentários
                                                                                                   Ilustração: Nei Ruffino
Quando criança, era fácil irritá-la, bastava chamar-lhe Pinguinho de Gente. Seu vocabulário excluía os diminutivos. Queria ser um oceano inteiro. E é bem verdade que o era, de certo modo, com seus modos certos.
Há em suas profundezas mistérios bioluminescentes. E basta aproximar do ouvido a concha que repousa em sua praia para escutar a voz – inconfundivelmente dela – que canta e encanta quem se atreve a navegar.
Prendam-nos todos, um a um, firmemente neste mastro que é para não caírem em suas armadilhas cheias de primeiras e segundas e terceiras intenções.

Monique Burigo Marin

Ácido

por Monique Burigo Marin às 11:12 AM 8 comentários
                                                                                          Ilustração: Flavia Ceccarelli
Ainda não sei o quanto sei sobre a vida. Ainda não sei se quero saber. Não saber é tão bonito.
Sabe, lá no horizonte o sol que você vê ainda não nasceu. Nada tem isso de mágico. E é tão decepcionante não ter.
A chuva é sempre ácida. Descobri que dói crescer.


Monique Burigo Marin

por Monique Burigo Marin às 12:09 AM 5 comentários
                                                                                                   Ilustração: Xiaomeimei
Não entenda mal, hoje quero ser só. E só.

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* Declaro oficialmente encerrado o luto que decretei (graças a um erro irreversível no HD que destruiu impiedosamente sete meses de pensamentos escritos). Hora de recomeçar!


Monique Burigo Marin

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por Monique Burigo Marin às 6:12 PM 5 comentários

Perdeu o medo. Olhou diretamente para o sol e ficou cego.

Monique Burigo Marin

Cativa-me

por Monique Burigo Marin às 6:51 PM 4 comentários

                                                                                                         Ilustração: Bele
Se você vem às duas, desde o despertar começarei a ser feliz. Se você vem às quatro... Desde o despertar começarei a ser feliz. Se você vem, serei feliz de qualquer maneira, mesmo que os segundos teimem em passar lentamente, mesmo que eu roa até a carne de ansiedade, mesmo que você demore a chegar.
Se você vem a qualquer hora, sem aviso, e até sem a flor que é única no mundo: serei feliz. Basta que venhas uma vez por dia, por mês, ou por ano. Basta que venhas uma única vez na vida para que eu seja feliz para o resto dela.
Se você vier, serei sorrisos a noite inteira. Descobrirei sonhos além daqueles comestíveis.
Se você vier, não se perca pelo caminho, ainda que as cores os cheiros e os sons do mundo confundam seus sentidos. E então eu prometo ser o sentido que me dá, toda vez que chega; e fica.

* Esse tipo de felicidade – óbvia ainda que imprevisível –, nem a mais sábia das raposas conseguiu entender.

“Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música.”

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Quero agradecer por todo o carinho e apoio que tenho recebido. Sem vocês, leitores, nada seria tão doce.


Monique Burigo Marin

Presentes Ausentes

por Monique Burigo Marin às 10:01 PM 5 comentários

O porquê eu não sei, não. Simplesmente acordei com um nó difícil de desatar; ele dá voltas pelo meu corpo inteiro. Acho que tem algo a ver com a saudade que eu sinto de você, de vocês, de mim mesma.
É que não é fácil, não. Essa ausência abre e esvazia minha alma, depois costura e cicatriza. É perigosa e eficiente. Tenho medo que do lado de fora de mim esses pedaços meus não me reconheçam. Eu tenho medo de uma porção de coisas; e isso é tão desagradável.


Monique Burigo Marin
 

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