Presentes Ausentes

por Monique Burigo Marin às 10:01 PM 5 comentários

O porquê eu não sei, não. Simplesmente acordei com um nó difícil de desatar; ele dá voltas pelo meu corpo inteiro. Acho que tem algo a ver com a saudade que eu sinto de você, de vocês, de mim mesma.
É que não é fácil, não. Essa ausência abre e esvazia minha alma, depois costura e cicatriza. É perigosa e eficiente. Tenho medo que do lado de fora de mim esses pedaços meus não me reconheçam. Eu tenho medo de uma porção de coisas; e isso é tão desagradável.


Monique Burigo Marin

Ritmo (Final alternativo para "O tempo de uma Infância")

por Monique Burigo Marin às 9:23 PM 3 comentários

                                                                           Ilustração: Liz
Acho que desejei com tanta vontade que fui atendida. Abri os olhos ao ouvir as notas do piano de alguém em algum lugar perto de mim. A música cessou e então uma mão tocou-me no rosto. Fria, mórbida, gentil. Nada fazia sentido:
- Isabel! Pensei que não fosse acordar nunca. – Sorriso aberto. Olhos azuis sem fim. – Eu fiz uma música pra você. Coloquei seu sonho nela. Vê se não dorme mais, não. Minhas mãos estão cansadas, não podem mais acompanhar o ritmo frenético do seu pensamento.

* A confusão foi tamanha que ainda não sei dizer o que daquilo eu sonhei. E ainda posso sentir o gosto das jujubas azuis... É só fechar os olhos.


Monique Burigo Marin

O Tempo de uma Infância

por Monique Burigo Marin às 4:30 PM 4 comentários
Passara muito tempo desde a última vez em que senti o gosto, e não falo de um gosto qualquer, nem desse tipo de gosto imaginável que você possa ter imaginado. Nada disso. Falo de um gosto raro. Raríssimo. Único. Gosto que eu descobri cedo, não cedo de cedo demais, cedo de cedo o bastante para que eu o tenha descoberto antes. Logo eu, que nem estava procurando.


Por acaso, naquele dia decidi brincar na rua. Deixei quarto escuro, livros e amigos inanimados. Ouvi as preces dos meus pais e fui ser uma criança normal. Saí porta afora dizendo que brincaria, faria amigos e seria divertido. Sabendo da mentira, sabendo que só estava fazendo isso para alegrá-los, e para dizer a mim mesma que tentei. No entanto, só aconteceu na imaginação. Crianças normais não gostam de crianças sérias e monótonas, crianças normais não deixam crianças assim brincarem na rua delas.
Assim que pisei na rua, todos congelaram os olhos em mim. Normal a normal, do primeiro ao quarto, cada qual com seu próprio par de olhos azul-céticos. Azuis de todos os tons. Escondi os olhos meio amargos atrás do capuz e apertei fortemente as mangas do moletom:
- Posso brincar?
A voz saiu torturada, sem emoção. A interrogação ficou suspensa no nó de forca de uma corda frágil durante dez batidas do meu coração acelerado. Tempo necessário para que alguém processasse minha loucura:
- Não.
Tirei o capuz, afrouxei o aperto nas mangas, ergui a mão direita e mostrei aquele dedo para os abomináveis seres de olhos azuis. Todos congelaram outra vez, por inteiro. Dei as costas e voltei para casa, torcendo para que o sol derretesse todos eles. Normal a normal, do primeiro ao quarto. Celeste, marinho, anil e petróleo.
Entrei em casa de cabeça erguida. Meu pai entusiasmou-se ao ver-me:
- Então, pequena, como foi?
- Legal.
Antes de voltar para o meu refúgio escuro, forjei um sorriso raro de dentes de leite ao passar por ele. Tranquei a porta, deitei na cama, puxei o cobertor até a cabeça, apertei as pálpebras com força e torci para dormir e acordar em outro lugar. Não sei dizer o quanto isso durou; talvez o tempo de uma infância.

Monique Burigo Marin

IlustraçãoBurton Saunders

Um dia, a descoberta

por Monique Burigo Marin às 9:55 PM 8 comentários

É tempo de descobertas. Não sou quem eu achava que fosse, tampouco sou quem achavam que eu era. Sei que eu não tinha esse sorriso parado, e morto, e frágil. Que desmancha só de olhar. E não eram minhas essas olheiras tão fundas nem esses olhos tão rasos.
Eu escrevia para compartilhar alegria, não para encontrá-la.
O equilíbrio que eu tinha cansou-se, escolheu um dos lados do muro, depois descobriu que era o lado errado. Não pôde voltar. Tudo em mim é caos e está por um triz. Tudo em mim é esperança que morre todo dia. Acho que tive pressa e acabei vestindo a alma do avesso.
Entendo que tudo se transforma e se recicla, só não sei como receber o novo, só não sei ainda como aceitá-lo, não sei e não quero, e não querer me faz temer que o dia chegue. Temo que chegue o dia. Temo que ele nasça sorrateiro com um sol camuflado de lua por trás das nuvens pesadas de um céu azul petróleo. Temo que um dia seja o dia em que minhas mãos não serão necessárias para tapar os teus bocejos, nem para afagar os teus cabelos, nem para acenar pro teu passado. Temo que morra sem ser notado, como se fosse um dia qualquer.


Monique Burigo Marin

Eu, tu e ele

por Monique Burigo Marin às 6:49 PM 9 comentários
                                                                        Ilustração: Sindia
Ela o olhou, só para ter certeza de que ele também a estava olhando, - com aquele sorriso que se curva mais para a direita do que para a esquerda - e estava. O sorriso dele tem cor de Danoninho e sabor de eternidade. Nenhum outro sorriso no mundo lhe dói tanto.
Sua existência, mesmo que latente, me faz querer existir. Assim mesmo, desse jeito meio torto, com os pronomes e os sentimentos no lugar errado.


* Um muitíssimo obrigada ao Wiliam que fez as modificações especiais - em mim e - em meu blog.


Monique Burigo Marin

Rabisco

por Monique às 9:01 PM 5 comentários

Eu que sempre fui plano de fundo, não sei como estar no centro do teu mundo. Sequer tenho cara de detalhe especial. Sou rabisco monocromático e tímido: meu lugar é nas orelhas do teu papel.

Monique.
por Monique às 12:11 AM 8 comentários
Esperei, e não esperava inícios. O fim do horário de verão foi a única maneira que encontrei de voltar no tempo. Lá, nada mudou.

Monique.

Motivos

por Monique às 11:42 PM 4 comentários

                                                                         Ilustração: Kubcia
Para o avesso de mim.

Não preciso de motivos, embora agora eu saiba que os tenho aos montes. Quando você balança a cabeça assim, eu compreendo. Compreendo porque é tão simples e óbvio. Tão simples e tão óbvio quanto estalar os dedos. Eu compreendo, sem prestar muita atenção naquilo que compreendi, pois é exatamente o tipo de coisa que é um bilhão quinhentas e quarenta e quatro vezes mais fascinante quando não compreendemos. É por isso que dispenso os motivo e os porquês. É por isso que os escondo tão bem escondidos que nem eu mesma lembro onde escondi. Minha memória é um mecanismo seletivo e às vezes fica tão inundada com o azul dos teus olhos que acaba pifando. Mas aí você aparece no lado mais bonito do meu mundo, aquele que também é seu, e arranca a tampa que eu coloquei no ralo, então tudo fica claro e simples e óbvio outra vez. O ar deixa de parecer estranhamente líquido e eu não me afogo, pelo contrário, chego à superfície muito antes do que supus. Antes mesmo de tentar gritar por socorro. Antes até do medo. De tudo o que conheço, o teu amor é o único mais veloz e intenso. É o único que eu quero ter.


Monique.

Pseudo-engano

por Monique às 9:12 PM 8 comentários
     
                                                                    Imagem: Jimmie Lundström
Façamos de conta que você ainda não bateu a porta na minha cara, e as luzes do cômodo estão acesas porque precisamos dela para ler as frases escritas nas paredes. Façamos de conta que você escreveu algo bonito sobre o dia que passamos juntos e me fez sorrir mostrando os dentes. Façamos de conta que este cômodo é grande o bastante para comportar as frases de uma vida inteira, de uma vida que é nossa. Façamos de conta que acordamos com a neve caindo atrás das janelas e atravessamos a porta que nos separa de nós mesmos. Façamos de conta que isso não mudou tudo. Façamos de conta que nada mudou. Façamos de conta que somos os mesmos de ontem, e ainda seremos os mesmos amanhã. Façamos de conta que curei meu vício e parei de me entupir com o morangos de Caio e com os morangos de Paul, Ringo, George e John. Façamos de conta que não me engano mais com os pseudo-frutos nem com os pseudo-amores nem com a tua pseudo-alegria. Façamos de conta já que, por enquanto, é só o que podemos fazer.

Monique Burigo Marin

Sorriso

por Monique às 7:07 PM 7 comentários
Ela abriu o álbum de fotografias bem na página onde ele sorria, e imediatamente foi afetada por uma onda de nostalgia e dor. Mas, não perdeu o controle, precisava superar isso. Continuou atenta ao sorriso dele, encarando-o com seriedade, como se isso pudesse murchar sua expressão absurda. No entanto, ele permaneceu impassível. Tentou imitá-lo, mas seu sorriso não sorria como o dele... Sequer sorria.
Se ao menos ela pudesse dar-se ao luxo da incerteza. Não podia, o amava, era certo. Certo? Não, não, não. Era errado.


Monique.
 

Template e imagens do layout por Wiliam Jose Koester.