
O trem, o trilho, a menina e o resto da vida pela frente. As lembranças correndo e o corpo estático. Lágrimas congeladas na face. A alma clamando por um pouco de paz. Anteciparam seu fim do mundo para 2009.
Monique.


Você, que carrega pelas ruas esse balão que não tem o ar dos meus pulmões, esse balão que me angustia. Você, que não se cala nem quando está dormindo e gosta de contar histórias para quem quiser – e para quem não quiser – ouvir. Você, que brinca com a comida e bebe a água que cai do céu, que rala os joelhos na estrada e ri da própria dor. Você, que ainda não sentiu dores piores, mostra para mim o seu sorriso de menina que tem as janelas mais vivas que já vi na vida. Você, que ri só de pensar em cócegas e esconde-esconde o próprio esconderijo para ninguém mais encontrá-lo. Você, que está sempre tão presente, não voe para tão longe de mim com seu balão de gás.
Minha mente adquiriu forma de queijo suíço, os pensamentos derretem e escorrem antes que eu tenha tempo de escrevê-los. Fico desesperada, colocando baldes embaixo de todas as goteiras que encontro. Haja balde para tanto pensamento derretido!
Andar arrastado, olhos cansados, cabelos descoloridos pelo tempo; foi a primeira imagem que tive do velho homem entrando no metrô onde eu estava. Levantei do meu lugar para que ele sentasse e ofereci-lhe um sorriso tímido e sem graça ao qual ele não correspondeu, apenas sentou-se como quem deposita no banco o peso de mil mundos.
Como olhos cansados as últimas luzes apagam. A cidade está adormecida. Posso ver e ouvir os sonhos da vizinhança, todos misturados causando confusão. O garotinho do andar de baixo recém puxou as cobertas mais para cima, são elas que fazem peso sobre o corpo para que ele não levite de entusiasmo.
Enquanto todos dormem, eu sussurro ao silêncio tudo o que não ouso dizer para mais ninguém. Ando pela casa no escuro. Meus passos são ecos, não cessam, seguem todas as direções compulsivamente. Gostam especialmente de voltar.
Tentei sonhar acordada e senti meu corpo correr e o vento bater no rosto. Enxerguei um campo repleto de sonhos compactados dentro de garrafas flutuantes de todos os formatos, ergui a rede feito Bob Esponja no campo de águas vivas, e cogitei capturar os sonhos de alguém. Não o fiz. Os sonhos dos outros não fazem sentido quando estão dentro de nós, assim como os nossos não fazem sentido quando estão dentro dos outros. Não somos receptáculos de sonhos.
Monique.
Eu queria, juro que sim, mas não sei como. Tenho medo de pisar muito forte no telhado e quebrar as telhas. Melhor ficarmos aqui, onde a terra é firme, onde o peso do meu corpo é quase nada. Melhor ficarmos assim, juntos, protegendo um ao outro dos perigos que criamos. Ora, encontrar tomate na lasanha é uma tragédia.
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