Fim

por Monique às 7:47 PM 10 comentários

Viu tudo fugir de si em um vídeo acelerado. Casa, escola, amigos, diversão. Até as palavras lhe fugiam dos lábios terminando em um grito abafado de socorro...! Ninguém ouviu.
O trem, o trilho, a menina e o resto da vida pela frente. As lembranças correndo e o corpo estático. Lágrimas congeladas na face. A alma clamando por um pouco de paz. Anteciparam seu fim do mundo para 2009.


Monique.

A Roda

por Monique às 4:57 PM 6 comentários

Seu cabelo estava diferente, algo em seu rosto havia mudado também. Arrisco-me a dizer que foram os olhos – eles brilhavam mais que o normal.
Estávamos em algum lugar no centro do infinito, completamente perdidos. E nos encontrávamos um no outro o tempo todo. A superfície terrestre girava. Até que senti tontura e medo, e antes que eu pudesse cair ele me segurou:
- Não se preocupe Isabel, é só a roda viva que é a vida. Feche os olhos e sinta o vento.
Não pensei duas vezes.


Monique.

O Primeiro Vôo

por Monique às 12:46 PM 8 comentários
Você, que carrega pelas ruas esse balão que não tem o ar dos meus pulmões, esse balão que me angustia. Você, que não se cala nem quando está dormindo e gosta de contar histórias para quem quiser – e para quem não quiser – ouvir. Você, que brinca com a comida e bebe a água que cai do céu, que rala os joelhos na estrada e ri da própria dor. Você, que ainda não sentiu dores piores, mostra para mim o seu sorriso de menina que tem as janelas mais vivas que já vi na vida. Você, que ri só de pensar em cócegas e esconde-esconde o próprio esconderijo para ninguém mais encontrá-lo. Você, que está sempre tão presente, não voe para tão longe de mim com seu balão de gás.


Monique.

Pensamento Derretido

por Monique às 6:09 PM 7 comentários
Minha mente adquiriu forma de queijo suíço, os pensamentos derretem e escorrem antes que eu tenha tempo de escrevê-los. Fico desesperada, colocando baldes embaixo de todas as goteiras que encontro. Haja balde para tanto pensamento derretido!

Se ao menos sobrasse algo bom para contar...


Monique.

(Des)encontros

por Monique às 4:13 PM 9 comentários
Andar arrastado, olhos cansados, cabelos descoloridos pelo tempo; foi a primeira imagem que tive do velho homem entrando no metrô onde eu estava. Levantei do meu lugar para que ele sentasse e ofereci-lhe um sorriso tímido e sem graça ao qual ele não correspondeu, apenas sentou-se como quem deposita no banco o peso de mil mundos.
Antes que o metrô partisse, apoiei as mãos no metal frio suspenso no teto, segurei com força para sobreviver à inércia. Tenho vivido para sobreviver. Congelei em meu lugar, tudo o que está parado tende a permanecer assim. No entanto, descongelei com o passar do tempo e de estações. Descongelei porque ficar na mesma posição por muito tempo dói e cansa.
Fechei os olhos e concentrei-me nos sons. Alguém abria o zíper da bolsa, alguém bocejava baixinho, alguém tamborilava com os dedos na superfície lisa de um caderno, e alguém escutava música com fones de ouvido. O som do metrô deslizando ruidosamente pelos trilhos abriu meus olhos, que olharam por debaixo da porta e viram as luzes, surgiam e sumiam. Tudo isso em segundos. Que tipo de pessoa fecha os olhos para acordar?
Com os olhos abertos encontrei primeiro a dona da bolsa, procurava desesperadamente lá dentro por algo que fugia dela. Depois, o garoto entediado que tamborilava os dedos e não iria parar tão cedo. Vi a dona do bocejo apoiar delicadamente a cabeça no ombro do desconhecido que estava ao seu lado. O desconhecido, por sua vez, não pareceu incomodar-se, pelo contrário. Por ultimo e não menos importante, vi o garoto com os fones de ouvido. Pena que a música não estivesse alta o bastante para que eu pudesse, quem sabe, reconhecê-la.
Última estação, hora da despedida. Despedida estranha em que os personagens saíram apressados sem direcionar-me um único breve olhar. Despedida que a gente dá àquilo que só encontra uma vez na vida.

- Ah, se toda despedida fosse simples assim...

Monique.

Insônia

por Monique às 11:31 AM 9 comentários

Como olhos cansados as últimas luzes apagam. A cidade está adormecida. Posso ver e ouvir os sonhos da vizinhança, todos misturados causando confusão. O garotinho do andar de baixo recém puxou as cobertas mais para cima, são elas que fazem peso sobre o corpo para que ele não levite de entusiasmo.
Enquanto todos dormem, eu sussurro ao silêncio tudo o que não ouso dizer para mais ninguém. Ando pela casa no escuro. Meus passos são ecos, não cessam, seguem todas as direções compulsivamente. Gostam especialmente de voltar.
Tentei sonhar acordada e senti meu corpo correr e o vento bater no rosto. Enxerguei um campo repleto de sonhos compactados dentro de garrafas flutuantes de todos os formatos, ergui a rede feito Bob Esponja no campo de águas vivas, e cogitei capturar os sonhos de alguém. Não o fiz. Os sonhos dos outros não fazem sentido quando estão dentro de nós, assim como os nossos não fazem sentido quando estão dentro dos outros. Não somos receptáculos de sonhos.

Monique.

Plenitude

por Monique às 6:17 PM 5 comentários
Ele a chama por inteiro. É como gosta que ela esteja, com todos os pedaços encaixados, com todos os vazios preenchidos, completa. É, curiosamente, como fica quando está com ele, é como gosta de estar.

Monique.

Sobre o Medo

por Monique às 3:07 PM 10 comentários
Eu queria, juro que sim, mas não sei como. Tenho medo de pisar muito forte no telhado e quebrar as telhas. Melhor ficarmos aqui, onde a terra é firme, onde o peso do meu corpo é quase nada. Melhor ficarmos assim, juntos, protegendo um ao outro dos perigos que criamos. Ora, encontrar tomate na lasanha é uma tragédia.
Por favor, não esqueça mais a torneira aberta, um dia você inunda a casa inteira e morre afogado. Para! Não me faz cócegas, você sabe que de tanto rir eu quase morro. E, viver rindo porque não há outra saída é quase morte.
Não me deixe dormir, vai que eu acordo em outro lugar e no meu lado tem alguém que diz bom dia, vai que o bom dia é pra mim.
Eu tenho medo, sim. Medo de perder-me e de perder os outros. Medo do real e do faz de conta. Medo do fim do mundo, de o céu cair, de ser presa por engano, de luz e de promessas. Tenho medo até do medo. Eu, que acreditava ser corajosa...
Pensando bem, esqueça o que te falei sobre proteção, deixe que eu vá enfrentar os meus monstros. Se o mundo acabar com teu abraço... Dane-se, melhor assim.

Monique.


P.S: Peço desculpas pela minha ausência, o tempo foge e eu não o alcanço.

Por Todos os Quases

por Monique às 1:25 PM 11 comentários

Por tudo o que poderia ter sido e não foi, quero dizer que não sinto muito. Quero dizer que não sinto mais. Confesso que foi difícil, perdi tempo monitorando meus pensamentos para que não se aproximassem de ti. Até troquei o telefone porque não suportava mais aquele fio tão parecido com o seu cabelo. Parei de assistir TV para evitar lembrar da sua mania irritante de trocar o canal a cada segundo. Cortei quase todos os veículos de comunicação, com medo de que você aparecesse aqui e ali, em alguma palavra, em alguma imagem, em algum ponto final disfarçado de reticências. E, o mais ridículo de tudo é que lembrar de não lembrar não me permitia esquecer. Eu não percebia, quase deixei de ser. Foi um período de existência efêmera. Mera transição de um eu para outro desconhecido. Mas, agora, nem a sua síndrome de pernas inquietas atrapalha minha quietude.

... Eu continuo aqui, querendo dizer e, por vezes dizendo através dessas palavras que você nunca escuta.


Monique.

Que seja assim - Parte II

por Monique às 12:52 PM 13 comentários
Ficaram parados ali, olhando um para o outro, em silêncio. Ela gosta de observar o silêncio porque ele não reclama. Deixa-se admirar.
Cada detalhe que enxergava parecia lhe preencher os vazios que acumulara ao longo dos dias. Tudo novo e sublime, até as cores se reinventavam.
De repente ele parou de sorrir e ficou muito sério. Observava os traços do rosto dela com tanta atenção que a fez sentir-se como a modelo que posa para o artista. Permaneceu favorável — não se movia —, assim ficava mais fácil capturar sua essência. Assim ficava mais fácil capturar a essência dele.
- Lembro de você — disse ele e a voz soou macia, doce, como tudo —, sei que gostas de cortinas fechadas e janelas abertas. Tento ler o que escreves no vidro da janela nos dias frios. — E o sorriso tornou a aparecer.
- São só bobagens, coisas que faço para passar o tempo e organizar os pensamentos. — Quis dizer que também lembrava dele, que adorava quando reproduzia os sons do mundo com sua gaita de boca, não disse. — Mas, então, do que ria quando o encontrei?
- Ria de mim e para mim. Veja você mesma. — Puxou a garota para mais perto fazendo-a ficar de frente para o espelho. Então, lá estava ela, no lado virtual. O nariz no lugar dos olhos, os olhos no lugar do nariz, as mãos invertidas, os pés também. E o pior: estava careca.
- Não olhe para mim — disse ela entre risadas —, estou horrível.
- Está mesmo! — Caçoou ele misturando o próprio riso ao riso dela, sabendo em seu intimo que de horrível ela não tinha absolutamente nada. — Vem comigo?
- Para aonde?
- Para o outro lado. — Respondeu apontando para a extremidade esquerda.
- Por quê?
- Quero lhe mostrar uma coisa. — Ela pareceu confusa, mas ele insistiu. — Você vem?
- Sim... vou.
Ela o acompanhou, o fundo da loja forrado de espelhos bizarros até a outra extremidade, o garoto decidido a lhe puxar pela mão, ela decidida a não soltá-la. Até que chegaram
- Olhe nesse espelho — pediu, e ela olhou. Lá estava ela outra vez, no lado virtual. Mas, não era como antes, agora estava sorrindo, os cabelos ruivos trançavam-se sozinhos em pequenas mechas, quando pararam haviam formado quatro, duas em cada lado. Os sapatos barulhentos foram substituídos por um tênis amarelo-bebê. O vestido encurtava um palmo e perdia as mangas, mas não a estampa. O cenário no lado virtual era real. É verdade, nesse lugar tudo se confunde.
O garoto da casa amarela aproximou-se e apareceu no espelho, os cabelos foram soprados com força por um vento abstrato, desorganizaram-se emprestando a ele um ar de rebeldia, os cadarços do tênis dele amarraram-se aos dela, o moletom azul escuro tingiu-se de amarelo-girassol. Inesperadamente, palavras escreveram-se no espelho: que seja doce, diziam elas.

Monique.

* trecho de um talvez-futuro-livro. :))
 

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