Que seja assim - Parte I

por Monique às 8:11 PM 13 comentários

Encontrava-se ali a mais bela vitrine de doces do planeta. Rios de chocolate quente serpenteavam alegres por entre montanhas de sorvete que nunca derretiam, a grama de chocolate granulado convidava os biscoitos-garotos a um passeio. Tudo era doce, tudo era alegria. Até mesmo os mais distraídos e apressados pararam para admirá-la. Isabel também parou, vestia-se com um vestido que era um verdadeiro campo de girassóis, calçava um sapato do tipo que faz barulho ao andar, e o mais importante é que trazia consigo um sorriso que lhe iluminava todo o semblante. Uma cena era admirada enquanto a outra era admirável.
Passado algum tempo, a garota decidiu que entraria na confeitaria para comprar o doce mais bonito e saboroso que encontrasse. Empurrou a porta que bateu em um sino, que tocou. Parecia ter acabado de obter sucesso em suas tentativas fracassadas de atravessar a tela da televisão. — Aquilo tudo só podia ser ficção. — De alta definição.
Mal conseguia enxergar o fim daquele lugar extenso. Prateleiras em tom pastel atapetavam as paredes, em cada uma delas havia tipos diferentes de doces separados por cores que vibravam. — Não tanto a ponto de doer os olhos. — Mal podia acreditar que tamanha maravilha ficasse à apenas noventa passos de sua casa...
Uma risada a despertou e guiou-a até onde estava. — No fundo da loja, próxima aos espelhos que refletem de ponta cabeça. — Aquela risada tinha dono. Um dono que parou de rir ao vê-la, que transformou o riso em um sorriso surpreso. Reconheceram um ao outro como quem reconhece o próprio reflexo. Eram vizinhos. Estavam mais perto do que estiveram à vida inteira, tão perto quanto gostariam de estar. Enfim, perto.

Monique.

.em-acifidoceD

por Monique às 9:38 PM 15 comentários

Quando finalmente entenderes as mensagens subliminares que te envio, terás descoberto o primeiro dos números infinitos do código de mim. É que sou assim, uma porção de dúvidas escondida em boas respostas. É que cada sorriso cerrado é para que os sentimentos não me saltem pela boca. É que cada rabisco feito no papel é para amenizar a ansiedade, e quase todas as minhas manias servem para distrair a solidão. É que tudo o que em mim é secreto eu guardo bem.

...Decodifica-me.

Monique.

Re-lembrar.

por Monique às 8:40 PM 9 comentários

A caixa de lembranças ficou pequena para todas elas e transbordou. Arremessou a tampa para o lado oposto do quarto. Fez pessoas ressuscitarem do passado, e agora, elas querem ficar. Não podem. Não devem. Isabel não as quer mais. Estão fora do tempo, ultrapassadas e mofadas. Mofo não lhe faz bem, ela é alérgica.
Travou uma batalha contra as próprias lembranças até que todas estivessem devidamente rasgadas – o som de lembranças rasgando lhe soa ainda pior que o de dedos estalando – e separadas na lata de lixo reciclável. Assim, existe o risco de retornarem – de novo – ela adora arriscar.
Batalha vencida, hora de recomeçar. Repetição é praxe em sua vida desde a infância – nunca trocava as figurinhas repetidas. – Ao acordar, o pé direito toca o chão primeiro. É assim desde seus cinco anos de idade. Será assim para sempre. Sempre é muito tempo.

Monique.


P.S. Imagem das minhas lembranças.

Frio

por Monique às 5:27 PM 11 comentários
Faz frio. As pessoas estão congelando – de dentro para fora – as estradas estão escorregadias e a vida também – impossível mantê-la segura nas mãos.

Monique.

Arte

por Monique às 3:33 PM 8 comentários

Ele não se move, sequer pisca os olhos. Mora em um quadro na estante bege da sala de estar da casa de minha avó, terceira prateleira do lado direito. Está sempre sentado atrás de uma mesa de madeira escura, escrevendo na máquina de escrever com ar de velho sábio. Uma cartola na cabeça. Uma história materializando-se no papel.
Todo o figurino indica que ele vive eternamente no século XIX. E eu aqui, presa no século XXI. E ele ali, preso na tela que alguém pintou. Tinta seca.
Tentei estabelecer contato algumas vezes, foi tudo inútil. Ele não responde. Não quer saber de mim. E eu continuo perdendo meu tempo o observando, dia após dia, intermitentemente. Desejando muito profundamente ouvir o barulho que faz a máquina de escrever quando ele escreve. Desejando secretamente ser a obra de arte de alguém.
Talvez algum dia, eu o roube da estante. Ninguém iria notar. Talvez eu o leve para a minha casa e o pendure na parede da cozinha e faça um chá com açúcar para nós dois.
Dia desses, passei tanto tempo o observando que adormeci no sofá que fica defronte a ele. Quando acordei ele havia desaparecido, a máquina de escrever estava solitária e eu também. Encontrei um bilhete ao lado do quadro:
"Você babou no sofá. Adoro o som dos seus sonhos."

Monique.

Lado B

por Monique às 10:38 PM 6 comentários
Mãos quentes sempre é um sinal. Um mau sinal.
As vozes voltaram, eu não estou surpresa. Elas me falam de você. Fizeram promessas, cortaram os pulsos, sentiram cheiro de sangue. Subiram até o oitavo andar e saltaram gritando. Sobreviveram.
Estão aprendendo a sussurrar e isso é ainda pior. Intolerável o som da consciência em qualquer frequência. Desesperadamente procurando um lado B.

Monique.

Imaginário

por Monique às 4:39 PM 10 comentários

Sorri pra mim com esse teu sorriso de quem acabou de encontrar dinheiro nos bolsos da calça do inverno passado. Sorri e fica mudo. Teu sorriso sempre fala por ti.
Brinca comigo de "jogo do sério" que eu adoro ganhar. Mente dizendo que fiz careta, que sou trapaceira, que me beneficiei piscando durante um segundo longo demais. Pede revanche que eu concedo, mas ganho de novo. Até te deixar sem justificativas. Até tu admitires – pois é minha parte predileta – que não sabes me olhar sem sorrir. Sou muito, muito, muito engraçada.
Desenha página por página do meu bloquinho novo que precisei comprar porque rabiscaste no outro. Desenha aquela sequência tola do velho barbudo em uma canoa pescando botas no rio. Faz-me comprar outro, rabisca de novo. Pede desculpas e me presenteia com uma caixa de bloquinhos – só meus.
Respira com esse teu jeito de quem sente no ar, o tempo inteiro, cheiro de massinha de modelar. Diz-me que tenho cheiro de infância, que tens vontade de me apertar, que sou todas as cores ao mesmo tempo.
Acorda-me acendendo as luzes do quarto e atura com bom humor o meu mau humor até o fim do dia. No começo da noite ele passa. Passa porque eu canso de mim. Passa porque tu nunca cansas de mim.
Coloca a toalha na mesa e arruma os talheres no lado direito dos pratos enquanto eu tiro os biscoitos do forno. Conta uma piada sem graça no jantar de família que eu vou rir mesmo assim. Mesmo que ninguém entenda. Mesmo que eu odeie piadas.
Olha com esses teus olhos de abismo dentro dos meus, e me segura antes que eu caia. Emenda com um passo de dança. Ri enquanto resmunga alguns "ai meu pé".
Busca-me no trabalho e me leva para almoçar. Pede pro garçom dois sucos de morango e escreve no guardanapo algo bem clichê que dê a impressão de que nos apaixonamos ontem.
Só não se mude do meu balãozinho de pensamentos para um outro. Seja real para mim.

Monique.

Explosivos

por Monique às 10:05 PM 7 comentários

O cenário é cinza e só. Até que uma garotinha aparece na cena – o cabelo rebelde, os olhos brilhantes, a boca cheia de açúcar, nas mãos um pacote de jujubas.
Ela imagina a rua e a rua aparece. Trás com ela a faixa de pedestres, dois carros coloridos que parecem de brinquedo, casinhas que parecem de bonecas e um desafio. – chegar ao outro lado. Ela nunca foi desafiada. A imagem congela, ela quer pensar. E Pensa, pensa e pensa... Não sabe como começar.
A imagem descongela sem que ela ordene. Alguém está falando, alguém está falando com ela. É um garoto de olhos cor de anis. Ele a fez uma pergunta, mas ela não ouviu. Ele repete pacientemente:
- Você quer ajuda para atravessar? – Ela faz que sim com a cabeça, ele a pega pela mão. As bochechas dela ganham cor, as pernas dela ganham vida. Direita, esquerda, direita, esquerda, dir... Terra firme. As mãos se soltam.
- Estou acostumado, sabe, a atravessar ruas. Você pega o jeito com o tempo. - diz ele.
- Obrigada... Quer uma jujuba? – ela lhe oferece o pacotinho.
- Posso pegar uma amarela?
- É claro que sim, as amarelas são minhas prediletas.
- Por que as quer compartilhar comigo então?
- Você vai entender depois que comer uma.
Ele havia aprendido que é arriscado aceitar guloseimas de estranhos. Mas soube sem saber como sabia que ela não lhe faria mal. Comeu. Houve uma explosão repentina... Alegria. Ele estava certo, ela estava certa também. Ele entendeu.
Ela deu uma risadinha abafada e surpreendeu-se logo depois. O cenário mudou completamente. Olá, outro planeta. Era a vez dele de imaginar. Imaginou um planeta pequeno, mas suficientemente grande para os dois. Fora de foco havia uma rosa protegida de sabe-se lá o que por uma redoma. Um pão de mel fosforescente nascia no horizonte, provavelmente era equivalente ao sol na Terra. Ela havia perdido o controle. Impedida como estava de imaginar, só observou...
Muito tempo se passou... Infinitos segundos de felicidade. Até que precisaram se despedir.
De volta à Terra, o sol estava se pondo por conta própria. Os pés tocaram a grama, os ventos da mudança sopraram sobre os dois. Observaram suas sombras: elas ainda estavam de mãos dadas.
Assim como jujubas amarelas ele lhe traz alegria. Às vezes a alegria é tanta que chega a doer. Precisa ser compartilhada. Já.

Monique.

A Confusão de Nós

por Monique às 5:17 PM 9 comentários

Essa garota pensa que me conhece. Um dia ela tropeçou nos próprios pés e eu a segurei, nos tornamos amigas imediatamente.
Ela é tão encantadora que atrai todos os olhares para si, estes a transpassam como se não fosse mais do que um espectro, e enxergam através dela... Os corpos atrás dela. Nunca, nunca dentro dela.
Essa garota ri como se a vida fosse uma piada repisada que no entanto nunca perde a graça. Mas eu sei, há sempre algo se revirando incomodamente em seu estômago. Um gato, afofando a almofada que nunca fica fofa o bastante, porque no fundo ele quer mesmo é um novelo de lã para enroscar-se todo e não ter mais escapatória.
Nunca sabe explicar o motivo que a faz sentir tanta paz em momentos de guerra quando uma criança sorri, nem a serenidade que sente quando ouve o barulho das ondas quebrando no mar, nem o que lhe invade quando sente cheiro de baunilha e recebe beijos com gosto doce de hortelã. Não precisa de motivos... é só.
Quando a alegria se instala ela abre e fecha mãos e olhos simultaneamente, querendo pegar e guardar cada milésimo, perpetuamente. Há outro truque que ela usa para guardar e recordar os bons momentos, mas esse ela não revela, é segredo deles.
Sente impulsos de abraçar bem apertado, de afagar os cabelos bagunçados na cabeça daquele garoto que sempre a faz sorrir. Ele é como óleo, desenferruja os músculos da face. Mas ela se contém... Sempre se contém, é o maior defeito dela.
Vez ou outra ela se cala, jura para si mesma que não falará, e não fala. Então o medo cresce, mas ela está decida a vencê-lo. Conta os dedos das mãos trêmulas sempre começando da direita para a esquerda, depois para. O coração se aquieta, o medo se torna covarde e foge dela. O medo tem mais medo dela do que ela tem medo do medo. Patético.
E nesses dias em que absolutamente tudo é silêncio, ela responde em pensamento – tola – eles não a podem ouvir. Partem sem saber. E ela pensa – adeus.
Essa garota é tão parecida comigo que às vezes não sei quem de nós é ela.



Monique.


ps:
os comentários estão logo abaixo do título :)

O despertar.

por Monique às 4:54 PM 9 comentários
Parecia ruim demais para ser verdade. E era.

Finalmente, Isabel despertou. Estava chorando involuntariamente. Mas, quando sentiu as mãos formigarem e viu as estrelas grudadas no teto as lágrimas cessaram. Deu alguns beliscões no próprio braço – só por precaução – e sentiu doer. Sorriu. Fora só um pesadelo, toda a dor era ilusão. A mulher morta e a isca também. Desde então, tudo se tornou mais doce.
Durante algum tempo esteve presa em um universo de amargura. Angustiada, lutava contra a própria mente. Agora ela se libertou. Está de volta. Mais feliz do que nunca.
Aprendeu até a cozinhar sem colocar fogo nos panos de louça, cresceu um centímetro, visitou um velho amigo, abriu as janelas e disse olá ao sol – ela sempre o detestara, mas isso estava mudando também.
Descalçou os sapatos e pisou na grama, sujou as roupas no barro e os pés nas poças de chuva. Lavou a alma. Entrou em casa e deixou pegadas.
Descobriu-se viva e colocou o som de Beatles no último volume para confirmar suas suspeitas de que isso voltaria a fazê-la sentir o coração bater ritmado, como a bateria. Sem dores de cabeça. Sem o medo e sem a vontade de fugir que o som alto lhe provocara tempos atrás. Tudo em sincronia.
Andam dizendo por aí que ela enlouqueceu. Que anda conversando com formigas e abraçando árvores, que cortou o lindo cabelo na altura dos ombros. – quando Isabel decide mudar, começa sempre pelo cabelo.
E em meio a sua loucura de ser feliz, só por um instante pensou que talvez, com a força do pensamento pudesse fazer alguém lembrar-se dela. Mas lembrar-se dos outros já lhe pareceu suficientemente bom.
Mal sabia ela, que alguém do outro lado da rua, atrás de uma janela, lembrou-se que atrás da janela dela estava ela. Aliás, ele lembrava disso o tempo todo, principalmente quando tocava gaita de boca e aguardava ansioso sua aparição.
Mal sabia ela, que a vida além de bela, estava apenas começando.


Monique.
 

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