GraMÁtica

por Monique Burigo Marin às 2:09 PM 3 comentários
- Você não se sente mal?
- Por quê?
- Por me olhar assim.
- Assim como?
- Assim... Como se eu estivesse dentro de você tanto quanto você está dentro de mim.
- Você está!
- Tanto quanto você?
- Não, mais.


*A vírgula, para nós, foi tão longa que sumiu.


Monique Burigo Marin

Cisco

por Monique Burigo Marin às 7:00 PM 2 comentários

   Meu sonho é poder olhar teus olhos sem me enxergar. Salvar meu reflexo, enquanto algo em mim ainda tem salvação. Deixar teus olhos vazios como nunca estiveram, para depois preencher com as lágrimas da minha partida. Mas como? Se a minha chegada nunca foi sentida?
   Quero olhar teus olhos e dar de cara com um muro opaco e intransponível. Quero, depois, tirar você de mim como quem tira um cisco. Sem medo de perder a visão. 
   Você nunca se enxergou em mim, embora sempre tenha estado aqui. Mais visível do que deveria.


* Alguém aí poderia assoprar?
Monique Burigo Marin

Teimosia

por Monique Burigo Marin às 2:24 PM 4 comentários

Imagem: Monique Burigo Marin e Wiliam Koester

   Não quero dormir, nem conversar. Só quero ficar aqui, quieta, no meu lado da cama, lembrando de que já foi simples sentir a felicidade percorrer meu corpo com seus dedos leves.  Era só acreditar, e acreditar também era simples. Acredita?
   Ainda me lembro das estratégias da infância. Ao deitar, levava para a cama minha redoma invisível e impenetrável. Protegida por ela, eu deixava as pálpebras esconderem o mundo exterior. Ora, já tinha vivido nele o dia todo, queria agora aproveitar as delícias do meu mundo inventado. Sem interrupções.
   A felicidade morava do lado de dentro, facilitava a construção dos sonhos. E se algum pensamento ruim chegasse para ameaçar, sorvete de flocos consertava tudo. Espantava até o calor das noites de verão.
   Às vezes minha redoma me levava para passear, adquiria forma de robô e caminhava leve pelos campos. Nas minhas fantasias, tudo levitava. Foi num desses passeios que ultrapassei meus limites, quis tornar o mundo imaginário tangível e pulei para fora da redoma. Então, o robô oxidou e eu fiquei presa do lado de fora. Hoje estou nua. Sobrevivo. Indefinidamente. Não tenho talento e nem vocação para o perigo, mas sou teimosa, e insisto.

Monique Burigo Marin
 

Template e imagens do layout por Wiliam Jose Koester.